Kizumonogatari III – A ferida final

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Um sonho de 8 anos chega ao fim.

Yaho!

Leitores, é difícil de acreditar. Depois de tantas piadas, depois de tantas falsas esperanças – nós tivemos a grande bênção de ver Kizumonogatari ser adaptado integralmente em anime. Não precisamos mais usar prints dos primeiro minuto de Bakemonogatari, nem tê-lo como única referência visual do que aconteceu nas férias de primavera de Araragi Koyomi. Eles conseguiram. Nós conseguimos.

Monogatari Series já caminhou muito desde que eu e o Raigho começamos a acompanhar. Falando por mim, conheci o anime lá por 2010-2011 e podia apenas deitar na minha cama e, sonhadora, pensar que algum dia teria a sorte de ver Nekomonogatari (Shiro) ser animado (sem saber, claro, que Bakemonogatari foi um sucesso de vendas), se assim os deuses desejassem. Já achei mais do que um presente ter a novel toda traduzida. Hoje em dia recebemos diversas vezes mensagens, seja na página do OtomeGatari ou nos nossos perfis no twitter, “Por onde eu começo a ver? São tantos que nem sei” – e pensar que antigamente era suficiente dizer: “Veja Bakemonogatari e depois Nise”.

Mas isso são apenas recordações de uma velha (risos). Uma velha que teve o prazer de debater sobre a última adaptação animada de Kizumonogatari, a parte final dessa história – e, ironicamente, o começo de tudo.

Ah, apenas um lembrete: existem certas coisas que precisam ser repetidas pras pessoas não cometerem erros hediondos – olhe pros dois lados antes de atravessar a rua, não nade logo depois de comer e nunca, jamais, em hipótese alguma, diga pra alguém começar Monogatari Series na ordem cronológica, por Kizu.

Ah, mas a animação de Kizu é tão lind-Não.

Obrigada. Bem vindos ao fim.

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Raigho: Sejam bem-vindos! Sentiram a nossa falta tanto quanto sentimos de vocês? Hahaha, eu sei, a gente não se esbarra faz um tempo! Estamos felizes que entre tantos eventos/faculdade/vida ainda conseguimos arranjar um tempo para conversarmos dessa forma. Eu estou particularmente feliz em estar com a Macchan aqui hoje, sinto muita falta de dias como esse. Hoje viemos fazer algo que já estávamos devendo há um tempo – a conversa sobre o terceiro filme de Kizumonogatari. Dessa forma, vamos encerrar o assunto de Kizu e, cronologicamente falando, fica mais interessante pensar na última parte de Owarimonogatari depois das nossas reflexões aqui. Com a palavra, minha riqueza, Macchan!

Marcela: Yaho! Acho mais do que apropriado meu comentário, depois de tanto tempo, começar assim. Algo mais do que simbólico pra mim, pra você e pro OtomeGatari no geral. Entre tantos animes e Visual Novels que vem mexendo nas nossas vidas, retornamos a nossa raison d’etré, Monogatari Series. E que maneira melhor de retornar aos comentários aprofundados sobre a série do que com esse capítulo final de uma das histórias mais belas da série? Perdendo, claro, para os arcos da Hanek– digo. Bom. Kizumonogatari, Raigho, Kizumonogatari. Foi uma jornada turbulenta até aqui. Queria só fazer uma recapitulação rápida com você sobre o caminho até aqui: tivemos um primeiro filme que quebrou totalmente nossas expectativas pra como seria a adaptação da novel. Um novo jogo de cores, um novo estilo de apresentação da história, ainda que com o toque clássico de Monogatari Series – mas completamente diferente de tudo que já havíamos assistido desde 2009. Um primeiro filme que, como você e os leitores sabem, não me agradou muito, coisa que mudou com o segundo filme. Com um enfoque quase que “clichê de sessão da tarde” do filme do herói que salva a mocinha – nesse caso, o herói é um ser humano conflitante com a mais alta das libidos e uma mocinha longe de… Mocinha. Quem começar com o erro cruel de assistir Monogatari Series começando por Kizu, diria que é uma história de amor entre Araragi e Hanekawa. Como foi a sua jornada, Raigho, com esses dois filmes passados, até chegarmos aqui na finalização desse capítulo?

Raigho: Bom, faço das suas palavras as minhas – turbulenta é um ótimo termo. Nós sempre estamos à volta com essa coisa toda da direção do anime contra a do filme. Oishi é quem funda Bakemonogatari, mas o Itamura ao longo desses anos (entre 8 – 9) evolui muito como diretor da série, entende? A questão é que o Oishi é uma aberração em termos de direção (no bom sentido da série), não tem como alguém se equiparar a ele. Então, aproveitando os tweets de um gringo, a ideia é que o Oishi transcria a obra do Nisio. Ele pega a força, o sentido, a expressão e os molda, eleva. O Itamura permite que as palavras do Nisio sejam claras, compreensíveis. Pensem nisso como dois estilos bem diferentes de tradução, ambos igualmente válidos, mas no fim se caracteriza… por gosto. Não tem outra explicação. Acho que o primeiro filme peca justamente na transcriação, por mais implícito que tudo seja colocado, a sensação de que algo falta ainda me persegue. O segundo filme já acerta mais, acho que faz boas (sensacionais) lutas, vale o ingresso do filme. A questão é esse terceiro. Na minha opinião é um grande acerto, mas precisamos discutir com detalhes.
A começar por esse momento de respiro entre Araragi e Oshino Meme.

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Marcela: Concordamos novamente, o terceiro filme é realmente um grande acerto. Vamos lá: o que realmente falar dessa cena inicial? Pra maioria deve ser algo, quem sabe, entediante – uma maneira bem lenta de começar o filme, a partir somente do diálogo entre Araragi e Oshino. Praticamente sem uma introdução adequada, realmente como se a cena estivesse colada na última cena do segundo filme. Porém, algo se destacou pra mim desde o começo e, pra explicar melhor, vou trazer uma narrativa que acho que você conhece, Raigho: “The Tell-tale heart“, do Poe. É uma história curta cujo final sempre me traz um sentimento enervante – resumindo o conto, um homem comete um assassinato e enterra o cadáver embaixo do piso de madeira da casa. Quando a polícia vem quesitoná-lo, ele começa a ouvir um barulho inquietante e percebe que é o som dos batimentos do coração do homem que ele matou. Na medida que o som fica mais alto, enquanto o policial não escuta nada, ele entra em pânico e confessa. O motivo de eu trazer essa história pro comentário é como desde os primeiros instantes do filme tem esse barulho que me deixou muito, muito inquieta. Inicialmente achei que fosse apenas pra dar impacto pra cena, um efeito sonoro padrão. Depois, quem sabe, a chuva na janela. Foi apenas quando o Oshino mostrou o coração da Kiss-shot que eu finalmente entendi o que era. Achei uma cena perfeitamente executada, sinceramente.

Raigho: Sim, de fato, o som dos batimentos cardíacos/algo que se assemelha a esse som vai aumentando conforme o diálogo se aproxima da revelação, é mesmo um toque de cena interessante. Eu gosto de Kizumonogatari porque nós nunca mais (talvez em Nisemonogatari e em algum momento de Owari) vemos o Araragi nesse nível de desespero, um sentimento que o impede até de raciocinar. Ele vive com medo, fugindo, e por exemplo, só agora que ele senta com o Oshino, é quando ele para pra pensar “mas se eu ganhei dos 3, como a Kiss-shot foi derrotada pelos caras?” e vem a revelação de que o próprio Oshino já tinha a enfraquecido. Uma grande sacada, isso falando do enredo, do Nisio é sempre fazer um anti-clímax. Ele raramente faz algum estereótipo e se o faz, tem algo “distorcido” – a personagem boazinha nunca é só fofinha, lindinha. No caso dessa parte, é roteiro de shounen 1001 – o cara que te ajudou o tempo inteiro, de repente, revela ser um inimigo ou traidor, vocês lutam, salva seus amigos/mocinha; da forma mais debochada possível, o Oshino fala “tó, pega aí o coração”. É uma forma de fazer graça dessa coisa toda de lutas, objetos, pra ele tanto faz, como personagem, seu papel é o de equilibrar. Ele devolve ao Araragi essa última parte da Kiss-shot também como pedido de desculpas e tecnicamente encerra seu contrato, claro, não vai ser tudo tão fácil assim. Tem uma coisa que eu não soube interpretar bem, confesso, que é a Hanekawa nessa cena toda. O guarda-chuva vermelho, ela vagando e aparentemente perdida em pensamentos… enfim. E claro, temos a Kiss-shot em tuda sua grandeza… rolando em penas de ganso, sem decoro algum.

Marcela: O papel do Oshino enquanto o que traz “equilíbrio” realmente põe em foco o papel dele na série, assim como o da Gaen, Kaiki e Kagenui. Todos os 4, até certo ponto, trabalham pra trazer esse equilíbrio – a Kagenui, de uma forma bem… violenta. O Kaiki as vezes é o que causa esse desequílibrio, mas sempre de maneira momentânea, e até mesmo com o desequilíbrio que ele traz, ao final, engana todo mundo ao mostrar que na verdade estava ajudando a balancear também. E, claro, a Gaen como já foi exposto de diversas maneiras, a grande “diretora” dessa peça chamada Monogatari Series. Considerando a posição de Kizumonogatari na ordem de lançamento, o Nisio estava mostrando apenas uma pontinha da real necessidade em ter alguém que cumpre esse papel de mediador na história, que ao longo dos arcos vem sendo desempenhado por pessoas diferentes – inicialmente o Oshino, brevemente a Kagenui, várias vezes alternando o Kaiki e por fim temos a Gaen. Agora, falando da cena da Hanekawa: enquanto fanática que sou, tive duas interpretações dessa cena: a maneira como ela aparece na medida que o Oshino vai fazendo a revelação, pra mim, é quase um “teaser” do Nisio de que ela já havia sacado isso há muito tempo e, claro, não quis falar pro Araragi. Por isso ela aparece antes mesmo do Oshino mencioná-la e, quando ele passa a mencionar ela é que acredito que temos o significado do guarda-chuva vermelho: da maneira que é exposto quando ela passa embaixo daquele elevado/ponte/seja o que for e pelos ângulos de câmera de cima, é quase um alvo. Um grande guarda-chuva vermelho, pintado numa cena cinza, destacando-se em meio a uma chuva. Mostra que, a partir daquele momento em que ela deliberadamente se envolveu com aberrações, ela é um alvo suscetível a mais e mais casos desses. E talvez essa seja a minha Kiss-shot favorita até agora, o comportamento dela rolando nas penas é algo… Ah. Não tem como descrever o sentimento.

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Raigho: Concordo com as suas observações, verdade, a parte do guarda-chuva pode ser interpretada dessa forma, achei válido. A Kiss-shot se divertindo, e deixando o Oshino ir embora, sem ressentimentos, é mesmo um ser elevado… quase né. Quase. Acho muito engraçado como o Araragi, assim que vê tudo resolvido, já solta um “então, tá na hora de eu voltar a ser humano” e a Kiss-shot meio “relaxa, vamos bater um papo”. Uma conversa grandiosa, por sinal. Me fascina a ideia de que um ser com mais de 500 anos ache a vida em si um tédio, tanto que a vida de um garoto de 16-17 anos soe interessante a ela – escola, amigos, bobagens, tudo é instigante. E ela retribui a gentileza dessa “conversa” contando sobre a sua história, onde o nosso caro Hajime Ueda empresta toda sua arte e transforma a cena em algo folclórico. Parece que é uma lenda sendo passada de uma pessoa a outra; é interessante ver como Monogatari é toda diferente e recebe muitas… influências. Kizu é a primeira história, a Kiss-shot simplesmente narra isso, ok. Mas no filme, nós temos a armadura do Primeiro Servo, até a aparência dele, coisas que não fariam sentido na leitura porque o Nisio nem descreve isso e ele nem planejava todos os detalhes do background da vampira. Coisa que no anime já é possível de mostrar, revelar e dar novos toques. As mãos da Kiss-shot indo em direção a ele, essa incompreensão (na época do ocorrido) do motivo que levou esse homem a se suicidar, é muito bonito.
É lindo também como não é preciso mostrar uma conversa, apenas os dois naquele terraço, rindo feito bobos, a felicidade deles. Por que não o amor deles, certo?

Marcela: Essa parte do amor entre os dois sempre me deixou meio incomodada, pra não ser grosseira e dizer enojada, risos. Não sei, não me apetece, a química entre eles não é algo que me agrada – até prefiro a Senjougahara, pra ser sincera. Mas sim, transitamos entre as ilustrações magníficas do Hajime Ueda, realmente parece a narração de um folclore. Falando do ponto de vista artístico, a maneira como a arte dele é… Hum, usando termos bem leigos, “pontuda”, dá essa impressão quase que de arte rupestre, sabe? De algo feito de um mineral pigmentado. E a daí parte pra cena deles no terraço, rindo. É uma cena leve, alegre, quase calma se não fosse… Monogatari. Acho que o bom fã/leitor atento não se deixa levar pelo sentimento de felicidade tão facilmente quanto gostaria. O olhar da Kiss-shot pro Araragi, é praticamente uma despedida silenciosa, mesmo que você não tenha ideia do que vai acontecer. O Nisio com a narrativa e o Oishi com a direção conseguem passar isso juntamente com essa “felicidade”. Fazendo uma brincadeira de títulos aqui, seria uma “hollow ataraxia” em Monogatari.

Raigho: Q-Quando foi que entramos para falar sobre a continuação de Fate/Stay Nightoh. Ah. Eu não sei, acho que é um amor… diferente. Eles se amam, nesse ponto talvez a Kiss-shot o olhasse como propriamente dito mulher, desejando ele (até porque o filme não fala com todas as letras, mas ela é bem pura. 500 anos e só teve um cara), é algo a se pensar, acaba sendo bastante individual. Sim, do final dessa risada, a forma melancólica como ela se comporta quando ele decide buscar alguma comida, tudo já é um aviso, um foreshadowing. Eu gosto muito dessa parte porque a Kiss-shot fala de forma vaga, ela só diz comida, fala que não tem algo em particular que goste, é bastante vago. E o Araragi esquece, no fundo da mente, que ela é uma vampira, independente do que sinta por ela. A alegria estúpida do Araragi, a Kiss-shot naquele campo de flores pueril, sorrisos, ternura… e aí a gente corta (pffft) para ela devorando o que sobrou do Guillotinecutter. O final dessa parte, com o Araragi literalmente TRAVADO no mesmo lugar e tendo o meltdown psicológico é incrível. Eu literalmente me sinto daquela forma em alguma situações, o corpo ali no chão, ela comendo a cabeça do Guillotinecutter, mencionando a “comida portátil” que seria a Hanekawa, a forma como ela tá obrigando o Araragi a olhar a natureza daquela situação, a respeito do que a Kiss-shot realmente sempre foi, pra mim a adaptação dessas partes foi mágica. E pra mim, quando o Araragi começa a quebrar tudo dentro daquele galpão… Ah.

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Marcela: O galpão é essencialmente a mente do Araragi, né. Até aquele momento tava tudo perfeitamente organizado e enfileirado, quanto aos pensamentos dele – conseguiu salvar a Kiss-shot, Oshino disse que não cobraria nada dele e ainda teve uma conversa amigável e divertida com a vampira. Ia terminar tudo, como ele mesmo disse, com um jantar de “celebração”. A epifania dele sobre toda a situação na qual se envolveu, pra mim, é um plot twist tão “banal” que se torna maior que qualquer plot twist. O fato de ser uma realização tão simples e tão a vista torna ela ainda mais surpreendente, a maneira como o Araragi não tinha percebido: Kiss-shot é uma vampira. Ela se alimenta de seres humanos. Os inimigos que ele estava eliminando estavam do lado dos “humanos”. Eles estavam tentando exterminar um predador da raça humana. Essa percepção dele é comparável ao nosso próprio nariz: ele está sempre na nossa frente, só que nosso cérebro opta por ignorá-lo, mas se você se concentrar o suficiente, consegue visualizar ele um pouco. A não realização dele até esse ponto da história… É tragicômico, realmente. É trágico porque… Bom, tudo. E é cômico por ser… Óbvio. Você ajudou uma vampira, Araragi. Achava que ela era do elenco de Crepúsculo, com olhos dourados porque se alimenta de animais? Ah, Nisio.

Raigho: É algo típico de uma situação de pressão. A sua visão se torna um “funil”, você só resolve o que tá na sua frente e perde o panorama geral, ele só se importou e a ajudou porque ela, naquele momento, era indefesa. Claro, teve toda a impressão que a Hanekawa causou nele, mas foi essencialmente o instinto do Araragi, algo na personalidade ele que cria toda essa situação. Dizem que nota de rodapé é o “arrego do tradutor”, então acho que colocar o monólogo do Araragi, além de toda a destruição dessa cena de surto, é o Oisihi assumindo que era preciso um pouquinho mais de explicação além do sentimento, a explosão dessa cena. Por exemplo, o Araragi surtando existe na LN, mas a cena dele delirando com o beijo nela já não tá na obra original. Novamente, é a construção desse filme como se fosse um romance. Araragi e Hanekawa, personagem que tem uma enorme importância na série e ainda mais no filme. Ele pegando o celular, notando que ela deixou o número dela ali, é Hanekawa em sua primazia. Best girl.
A forma como ela entra no galpão, senta, faz uma gracinha pra ele relaxar, o carinho que ela sente por ele é tão bonito.

Marcela: O QUE NOVAMENTE SÓ PROVA A SUPERIORIDADE DELA ENQUANTO BEST GIRL EM RELAÇÃO A TUDO ISSO E PRINCIP- ah, deixa. Sinceramente espero que esses filmes ajudem a as pessoas a tirarem a visão tão fechada que eles ainda tem da Hanekawa como uma personagem “sem sal”, quando isso nada mais é do que julgar um livro pela capa ao máximo. Enfim, deixando esse rant de lado – o uso do monólogo dele intensificou ainda mais a cena e tornou o processo de surto dele muito mais natural. Tornou, realmente, num “processo”, algo que foi sendo digerido em etapas, todas aquelas transições da face dele… Remeteu um pouco ao trabalho do Oishi em Bakemonogatari, com um uso de linguagens visuais exageradas e surreais, mais ainda do que é ‘normal’ pra Monogatari. Kizumonogatari nos mostra muitos momentos de uma belíssima animação, mas esse retorno a algo mais insano mostra a pegada que tinha Bake. E, de novo, como você disse – essa conotação mais romântica que o diretor escolheu dar pro relacionamento dos dois. A visão do Araragi da Hanekawa nesse contexto, a partir do Nisio, é muito mais de um ombro amigo (isso vindo do homem que falava com toda firmeza que amigos diminuem sua força) e de “santa”. E ela vindo de maneira casual e basicamente “jogando conversa fora” com ele pra acalmá-lo é algo tão tão real e sincero. Você sente toda aquela tensão anterior sendo derretida e transformada em algo morno, confortável, acho difícil alguém ter assistido essas cenas sem ter esboçado um sorriso que seja.

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Raigho: Me deem alguns minutos, vou fazer uma piada infame ótima, calma. ahem Acho que não só a intensidade do olhar, das palavras dela pedindo para que ele não se matasse por conta da culpa, por ter revidido uma vampira, mas a imagem utilizada dela correndo nua é a mesma da OP Sugar Sweet Nightmare. Ela superando uma barreira, correndo, aquelas mãos, o Araragi não compreende o que ela quer e a resposta é até simples: “Se eu conseguir salvar uma pessoa, esse meu corpo já basta” ou algo assim. É uma personagem impressionante. Ela tá sempre ali, pedindo para ele não desistir, dizendo que ele tem de lutar e acabar com essa situação com as próprias mãos, essa é a Hanekawa. Essa é uma das melhores personagens já feitas – Hanekawa Tsubasa. E aproveitando, a tensão se derrete e vira tesão, heh Assim, eu fico constrangido nessa cena dos seios da Hanekawa e a desculpa imbecil do Araragi. Gente, eu lendo já fiquei constrangido, mas ver a cena é outro nível é outra sensação. Meu deus do céu, se o Araragi só tivesse dito “então, eu quero tocar no seus seios” a Hanekawa teria aceitado melhor.
Claro, não posso deixar de mencionar ainda que en passant toda a analogia com as olimpiadas, a tocha, o imaginário de uma grande competição.

Marcela: Que bom que você mencionou da opening, percebi a mesma coisa! Caramba, Raigho, veio uma onda de felicidade tão grande nesse momento, afinal, o Oishi que trabalhou em Bake, portanto, nessa abertura. E quando você vê ele ligando os pontos… Eu diria até que esse singelo pedaço dela correndo nua e as mãos surgindo atrás é um prelúdio de sugar sweet nightmare. A ideia insana dela de salvar alguém que acabou de conhecer e proferir essa frase, do corpo dela bastar, foi a fagulha de Nekomonogatari (Kuro) (tendo sempre a cronologia em mente, leitores!). Claro, a personalidade dela já estava moldada antes disso, vide o relacionamento com seus pais, mas esse ato de altruísmo absurdo dela começou algo que teve por fim sua grande “explosão” quando ela enterra o gato na beira da estrada. Mas vamos voltar pro filme, porque se depender de mim e dos meus pensamentos, logo logo transformamos isso aqui numa conversa só sobre a Hanekawa. A cena dos peitos dela… Olha, vou ser sincera. Eu amo peitos. Eu amo 2D. Eu amo a Hanekawa. A cena dela mostrando a calcinha? Uma obra de arte. A cena dela TIRANDO A CALCINHA? Uma OBRA PRIMA. Mas essa cena dos peitos… Caham. Isso me lembra de um amigo meu da faculdade de Engenharia que é fã de Monogatari (e do blog, hehehe) que me mostrou a versão física de Kizu da Vertical, e por iluminação divina, abri imediatamente o livro nessa cena. Eu li. Eu gostei. Mas vendo assim… Não seria exagero dizer que me senti quase tão violada quanto a Hanekawa. Foi bom, não se enganem – só foi… bom, talvez demais. Os peitos da Hanekawa, grandes demais. Enfim. Chegamos as olimpíadas de 20XX, categoria masculina e feminina de embate vampírico até a “morte”. Quem vai levar o ouro, Raigho?

Raigho: O Araragi comenta, se não me engano, que os seios da Hanekawa são “monumentais” ou algo assim, capazes de rivalizar os da Kiss-shot… vou entrar em digressões se continuar. As olimpíadas de Monogatari, ao seus postos, preparar, ao meu sinal! Lutem! Eu achei muito intenso como essa luta aconteceu e bem feita. Na Light Novel, o material original, é descrito como golpes que pulverizam e instantâneamente se regeneram, o filme foi pontual nesse sentido. Os golpes, a movimentação, essa conversa deles antes da luta… as diversas Kiss-shots surgindo, a imagem do “hipócrita” piscando ao fundo… como eu comentei no dia em que assisti, é uma história muito, muito precisa a respeito da natureza do personagem Araragi Koyomi. Sua gentileza inconsequente, seu desejo de querer ajudar o próximo e esquecer de si mesmo, tudo isso se reúne nessa obra e mostra com o Nisio não se esquece das características de seus personagens, nunca. “Eu sabia que você não se importaria mais comigo”, dói. É nítida a expressão de mágoa no rosto dela nessa fala, parece até um tom vingativo de uma mulher que não é escolhida pelo afeto, mas pelo sentimento de pena e isso causa raiva. Lembro de ter lido alguma crítica quanto a essa luta, mas eu a achei muito precisa em refletir que são duas aberrações imortais se enfrentando. Quando começam aqueles sons “bobos” nos golpes, por exemplo, o Araragi leva o golpe e parece uma rolha estourando, isso é uma luta de imortais. É bizarra, estranha, não faz sentido, é um nível acima de nós. É uma grande loucura. Até mesmo ao fim, quando a Hanekawa nota algo de errado, a Kiss-shot se distraí, o Araragi derrota ela só com a cabeça sobrando. Isso é uma luta de seres grandiosos, vetustos.
E a Hanekawa completamente apavorada, toda a situação e construção de cena, guiam o telespectador pra essa ideia. É uma luta irracional.

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Marcela: A ideia toda do Araragi sobre “resistir aos seios da Kiss-shot se acostumando com seios” é uma genialidade a parte. E da luta, cê tirou as palavras da minha boca: é uma loucura. Relaciona com a ideia que cê mencionou do “shounen 1001”, uma grande luta final, só que elevada ao extremo do que os poderes permitem. Se, por exemplo, em Gurren Lagann o extremo chega ao ponto deles usarem galáxias de shurikens, aqui a gente tem uma luta tão desproporcional se comparada a qualquer outra que se torna cômica pra quem assiste. Acho que esse tom surreal e cômico que usaram ficou melhor do que tratar como se fosse algo mais “sério” do que é. Sim, é um momento de tensão, mas a maneira como enquadraram os movimentos e os efeitos sonoros deixa bem claro pra quem assiste que aquela luta tá muito, muito, MUITO além da nossa compreensão do que é realmente a dimensão dos poderes do Araragi e da Kiss-shot. Pra mim chegou a um ponto que parecia uma comédia meio trapalhões – a ideia que senti do Oishi em transformar esse embate em algo mais cômico é quase que a representação de como um ser humano tentaria “lidar” com a visão de poderes dessa magnitude. A única maneira “sã” que uma pessoa teria de aceitar um combate desses na sua frente seria pensar que é uma grande piada, de tão absurdamente impossível é, pra evitar simplesmente entrar em completo pânico. Um toque – desintegra. Um soco – explode o corpo inteiro. Entendo quem talvez critique porque poderia estar esperando realmente uma luta mais focada em… Bom, um combate, mas é simplesmente assim que seria o duelo entre duas criaturas imortais de poderes imensuráveis – quase que algo injusto. Não faz sentido pra gente porque simplesmente não é algo humano.
E, novamente, reforçando a minha interpretação de que a Hanekawa talvez já soubesse do “roubo” do Oshino: é ela que compreende a verdadeira intenção da Kiss-shot. Ela, que mal teve contato com a vampira, ao invés do garoto que conviveu quase que diariamente com a Kiss-shot e que realmente salvou ela.

Raigho: Sim, você percebe quando a Kiss-shot derruba/destrói o Araragi no começo que ela encara com raiva a Hanekawa, porque ela sentiu que a menina tinha entendido o plano. A Kiss-shot sabia, do momento em que o Araragi ajudou ela até o ponto onde ele recuperou as partes dela, que para ele voltar a ser humano, a única solução seria ela mesma morrer. A fragilidade da Kiss-shot nesse estado degradado, ela contando que sentiu medo da morte, é muito tocante, tanto quanto na primeira vez em que eu li… ela queria morrer, daí um garoto oferece gentileza, oferece a própria vida e a salva. Como você lida? Como você, pensando numa aberração do mais elevado nível, lida com esse ato? Ela pressionando o Araragi, os flashs das cenas entre eles, acho uma história singular. A forma como essa luta se encerra, o Oshino surgindo em meio aos gritos do Araragi e dizendo “bom, eu só posso dividir a infelicidade de vocês”. Esse ponto, esse ato, isso pra mim é Monogatari como um todo. Um bando de pessoas infelizes, lutando sem alcançar um final feliz porque ele não existe.
É algo de adolescente. Eu quero um final feliz. Um adulto chega e diz: “esquece. Não existe.”

Marcela: Ah, nesse aspecto eu sou um pouco mais otimista. Sim, é verdade que as revelações que a Kiss-shot vai fazendo sobre suas intenções originais trazem esse gosto amargo. Sobre como ela pretendia fingir uma abertura pra que o Araragi pudesse dar o golpe final… Levando em consideração a atitude de ambos – o Araragi salvar a kiss-shot apenas por ela estar indefesa e a Kiss-shot querendo salvar o Araragi como uma maneira de “redenção” pra ela própria, os dois são egoístas. Os dois começaram a relação num ponto de absoluta infelicidade e culminam numa solução igualmente infeliz. Porém, como uma sábia personagem de um filme chamado “Kung Fu Panda” disse – não, sério, me escutem nessa: “Não é porque sua história teve um começo triste que ela não pode terminar feliz“, ou algo entre essas linhas. Kizumonogatari, essencialmente, é o começo. É um começo doloroso. É um começo que deixa uma ferida. Porém, pra mim, Monogatari Series é uma história de cicatrização: você não pode ignorar o problema, você não pode fingir que ele não existe. O machucado não some e você jamais vai esquecê-lo, mas ele cicatriza. Então acho que mesmo com esse gosto muito amargo de Kizu, a intenção final do Nisio é positiva, o melhor exemplo que posso tirar disso são as histórias da segunda fase – Shiro e Hana, por exemplo – e o próprio arco da Sodachi.

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Raigho: Você tocou nesse assunto e eu até concordo, acho que o Araragi caminhando por aquele CAMINHO onde ele e a Black Hanekawa vão brigar, caminhando pra escola, a mágoa da situação toda está ali, mas… é, há alguma esperança. Eu sempre gostei muito de Kizu, é uma história essencial para entender a relação Araragi/Shinobu, o motivo dela não querer nem encará-lo, até mesmo pra sacar algumas coisas de Owarimonogatari, é bastante fundamental. O “conto dos feridos”, é… sim. Todos machucados, assim começa a história. A gente falou muito do Oishi talz, sobre o que não gostamos e gostamos também, foi muito interessante pra mim ouvir sua opinião e podermos dividir com os leitores ao longo desse filmes; mas se existiu um momento, um singelo momento, em que eu não só pensei, mas como senti também “esse cara entende a obra com a qual está lidando” foi no finalzinho. A Shinobu com aquele olhar vago, meio grogue e o Araragi sorri. Ele sorri de forma bastante sincera. Em meio a toda dor, ele sorriu. Não há descrição disso na LN. Foi um toque do diretor.
É isso.

Marcela: A exposição que Kizu faz do relacionamento entre os dois cobre muitos “buracos” que ficam na mente de quem assiste Bakemonogatari e Nisemonogatari (considerando a época na qual Kizu deveria ter sido lançado). A figura da Kiss-shot… Bom, Shinobu agora, é bem enigmática durante todo o percuso de Bake. Por que ela não fala nada? Por que o Araragi apresenta ela para Senjougahara apenas como a “sombra” de algo que já se foi? A presença dela durante o anime, sempre entediada, sempre melancólica e, ao mesmo tempo, a atitude dela ao salvar ele no clímax de Tsubasa Cat. São muitas pequenas nuances, um relacionamento muito complicado, que só Kizu consegue pôr aos holofotes – exatamente como a conversa entre Araragi e Kiss-shot no telhado. É, finalmente, a relação entre eles na forma mais crua, sendo exposta. E, por fim, a resposta interna que o Araragi encontrou ao fim de toda essa dor e esses ferimentos. Sobre amigos, sobre exatamente o que significa ser humano – o que é essa humanidade pra qual ele deseja retornar? De novo, retomo que apesar da melancolia geral de Kizu, é apenas um começo triste que proporciona ainda desventuras, mas muitos e muitos finais felizes. Afinal… Se o Araragi não estivesse nessa condição de pseudo-vampiro, ele jamais teria ajudado a Senjougahara… Jamais teria reconectado o laço entre ela e a Kanbaru. E outras mil coisas que vemos por aí. O Oishi cometeu alguns deslizes no primeiro filme, mas é visível que ele conseguiu finalmente mesclar a visão dele da obra junto ao que o Nisio pretendia, adicionando o que achava ser necessário pra complementar os personagens sem desvirtuá-los. Sim. É isso.

Raigho: Encerremos com poucas palavras, no mesmo tom comedido do nosso protagonista. Esperamos que tenham gostado, até a próxima Monogatari – seja ela qual for.

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5 thoughts on “Kizumonogatari III – A ferida final

  1. Já tava sentido falta desse tipo texto. Esperando pelo de Owari 2 =]
    Sobre Kizu… Não tem quase o que falar. O filme foi lindo demais. Era a parte que eu estava mais ansioso para ver, e conseguiram deixar incrível. Aquela cena final com a Shinobu em silêncio chega a doer, por forçar a gente lembrar de Bake, e de toda a relação construida depois disso.

  2. Uma coisa que eu queria destacar foi a Hanekawa intervindo na luta da Kiss-shot e araragi.
    Ao longo das temporadas ela diz que não sabe de tudo, mas quando ela intervém na luta expondo os planos da Kiss-shot, eu achei meio forçado, não houve nenhuma dica, nem explicação, de COMO ela descobriu os planos dela, mesmo sem um único contato com a Vampira.
    Não houve nem mesmo alguma ação ou algo q mostra q a Hanekawa tava desconfiando d algo, é estranho, é como se ela soubesse do nada, simplesmente ela descobriu, como se REALMENTE soubesse de tudo.
    Enfim… Eu posso estar sendo detalhista d+ tb.
    Ótimo review.

    • Olha Igor, pensando em como Kizumonogatari acontece, poderíamos chamar isso de intuição da Hanekawa. O filme não mostra, mas ao fim é ela que comenta “se ela transformou você em servo, é porque tinha sentimentos ali”. A Hanekawa tem na natureza dela esse jeito, esse instinto de resposta, podemos até alegar que o Araragi, preso nessa situação, tem uma visão “funil” e a Hanekawa ao lado dele, consegue interpretar melhor as ações da Kiss-shot. É discutível.

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