Entre aqui e lá: o lugar onde aberrações e humanos se cruzam

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Aberrações – o mundo.

Detalhes se perdem em adaptações: pensamentos que não puderam ser colocados em cena, ações, uma miríade de eventos que só as palavras do autor são capazes de transmitir. As leituras de Kizumonogatari e de Bakemonogatari, em suas versões oficiais, revelam uma ideia que não apareceu no anime – o lugar onde as aberrações residem, o ponto onde o encontro acontece.

Araragi Koyomi estava no período de férias, sem ser um estudante do 2º ou 3º ano, assim ele encontrou uma vampira.

Senjogahara Hitagi, como afirma no volume 1 de Bakemonogatari, também estava em um período que não era coisa alguma e assim ela encontrou o caranguejo.

Afinal, o que está entre e aqui?

Cruzamento

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O conceito mais abrangente do autor NisioIsiN são as aberrações, seres que englobam não só o conceito de Youkai no Japão como toda espécie de ser sobrenatural. Mais que folclore, são lendas urbanas, são a crença da humanidade, a fé no inconcebível, elas existem e simplesmente tomam forma baseada no imaginário humano.

Como alguns seres humanos são capazes de encontrá-los é a grande questão, por qual via esse encontro acontece é o que intriga. É fato que havia um desejo da parte dos humanos em encontrar essas criaturas, alguns por vitimismo, outros por desespero, sempre houve algo os impulsionando em direção a esses encontros.

Compreende-se que para encontrar um ser de outro plano é preciso mais do que força de vontade, envolve alguma circunstância especial, algum ponto de declínio como humano. Araragi Koyomi teve seu deturpado encontro em meio as férias de versão, Senjougahara Hitagi foi em uma situação parecida e Hanekawa Tsubasa na famigerada Golden Week. Todos estavam num ponto nebuloso da própria existência.

Na situação de Kanbaru Suruga, por exemplo, temos:

A Kanbaru estava titubeando sobre essa linha. Em outras palavras, ela meio acreditava e desacreditava nisso, da mesma forma que usaria a simpatia de uma revista voltada para garotas, de forma tranquila, ela fez um desejo a mão mumificada. (ISIN, 2017, p. 124)

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Ela só precisou estar nesse beiral e conseguiu realizar o desejo que foi deturpado pelo demônio cujo olhar era as avessas. A escapatória dessas situações veio sempre através do racional – das aberrações. Os seres humanos não são racionais, mas as aberrações sempre o foram. A escuridão (Kurayami) é o regente destas regras, caso um ser monstruoso não cumpra seu papel, ele vai puni-los por seu crime.

O pensamento de Araragi no volume 2 de Bakemonogatari já deixa transparecer a lógica desses monstros, “[…] Aberrações são consistentes, racionais até o fim. A questão é que nem sempre a racionalidade faz sentido para os humanos” (ISIN, 2017, p. 173). Pode não ter sido o caso do protagonista, mas certamente o gato que transtornou a vida de Hanekawa conhecia os meandros da relação entre monstros e humanos.

Há um certo ponto de vista, vindo de Oshino Meme, que parece apontar os humanos como uma parte problemática da situação. Desejamos num segundo, nos arrependemos no próximo, de fato, não sabemos lidar com o racional, “Se me permite o comentário’, Oshino disse, ‘todos vocês foram perpetradores. Conscientes ou não, houve cumplicidade de parte de vocês para com as aberrações'” (ISIN, 2017, p. 289).

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O ponto de cruzamento entre humanos e monstros é tênue, invisível. A derrocada de Araragi acontece quando ele não se encaixava como aluno do 2º ano nem do 3º, Kanbaru fez seu pedido com dúvidas, o ponto central desses encontros parece ser o fato da própria existência estar vacilando entre dois planos.

Se reduzirmos o nosso escopo apenas para Bakemonogatari com seus 3 volumes, pensando que a série originalmente se resumiria aos arcos entre o Caranguejo e o Gato, é bastante consistente a forma como esse conceito surge. O leitmotiv, esse tema recorrente é sutil, aparecendo brevemente em algumas falas dos personagens, onde toda a interpretação fica sob encargo do leitor e se torna ainda mais delicada na adaptação.

Uma forma ainda mais prática e útil para que quem assistiu só o anime possa captar essa ideia do cruzamento é o arco Caracol Mayoi. Ele é sintético tendo o encontro do Araragi e a Hachikuji em seu cerne, a crônica avança e revela-se que o protagonista só encontrou a garotinha por estar em conflito – motivado pelo fato de se sentir um estorvo para a família – com a ideia de passar o dia das mães em casa.

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Os problemas soam comuns e recorrentes entre o elenco: entre familiares ou amigos, fracassos pessoais; o diferencial é forma singular que adquirem ao envolverem as aberrações. O que instiga tanto leitor quanto telespectador a acompanhar a série é justamente o que acontece na divisa entre o desespero humano e a salvação (ir)racional nos monstros.

É fascinante notar como o palíndromo aponta, por contraste, a forma como os humanos são irracionais. Não com longas frases, mas com uma palavra inserida em certo contexto, uma ideia aparentemente despropositada, nunca forçando o leitor a compreender dessa forma, contudo, permitindo sempre essa abertura ao questionamento.

O caminho até a intersecção entre o humano e o bestial é a forma de NisiOisiN nos levar a indagar o que ser humano significa.

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3 thoughts on “Entre aqui e lá: o lugar onde aberrações e humanos se cruzam

  1. Texto excelente! Sempre que leio um texto com esse teor mais analítico aqui no Otome, acabo por rever a série de uma nova perspectiva. Obrigado pelo texto.

    • Obrigado pelo elogio, caro leitor. Sempre que escrevo algo assim, não quero barrar qualquer pensamento que você ou alguém possa ter, mas só estabelecer uma visão que eu tenho. Se te ajuda a entender a série, fico muito feliz.

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