O mundo yuri – “Bem vinda ao lar”

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Yaho!

Como eu posso dizer.

Eu sei que nunca estive aqui antes, então como posso dizer que estou em casa com tanta facilidade?

Nunca estive aqui. Apenas tive alguns vislumbres da janela do que eu achava que era meu lar, finalmente decidi ir atrás, e me senti em casa.

Após meu período eremita lendo uma extensiva lista de obras yuris como indicadas por um dos deuses dos blogs yuris, OG-Man, é assim que me sinto.

Acredito que todos aqui sejam versados no termo, já que estamos falando de otakus de longa data, mas para os novinhos que ainda não dominam completamente desse universo maravilhoso que é a produção de conteúdo animado japonês, yuri é o termo para obras “lésbicas”, digamos assim. Obras que possuem relacionamentos lésbicos e geralmente são o foco principal da história. Há também o termo shoujo-ai, e muitos fazem a distinção do termo sendo “yuri tem sexo, shoujo-ai é mais leve” – não é bem assim. Shoujo-ai é um termo ocidental que foi utilizado para quando os mangás yuri começaram a serem trazidos para cá, o ocidente. No Japão eles não utilizam o termo shoujo-ai, porque o significado dessa expressão lá não diz respeito ao “amor entre garotas” e sim “amor por garotas”, sendo garotas meninas pequenas, menores de idade. Portanto é um termo “ruim”, digamos assim. No Japão, toda obra com conteúdo lésbico, tendo sexo explícito ou não, ou mesmo se as meninas só se beijam no último capítulo: o termo correto é yuri. 

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Em algum ponto, todos vocês assistiram algum anime com yuri bait, aquelas insinuações, innuendos entre duas personagens que aparentam ter sentimentos uma pelas outras mas nunca concretizam isso propriamente. Hibike! Euphonium, New Game!, Shuumatsu no Izetta – só para citar alguns mais recentes que eu tenho certeza que viram.

Porém, chega num ponto em que você já se sente insatisfeito em SABER que as duas personagens são mais do que amigas próximas e quer ver finalmente alguém pisar no pedal e ir em frente.

E foi assim que eu entrei num admirável mundo novo, o mundo yuri.

Um mundo de descobertas, mas um mundo de padrões

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Sasameki Koto e Girl Friends, dois dos grandes mangás yuris

No futuro estarei fazendo reviews de mangás yuri com maior profundidade, mas minha ideia com esse texto é simplesmente um relato de alguém que sempre ficou no “quero mais” da interação entre duas personagens femininas de maneira romântica e realmente começou a ler obras voltadas pra isso e o que foi encontrando ao longo do caminho.

O mundo yuri é vasto, e ao mesmo tempo um pouco limitado. Por não ser um dos gêneros mais populares, serializações longas são apenas um sonho distante – até pouco tempo a maior parte do conteúdo eram antologias, coleções de one shots de um autor. É difícil achar um mangá muito longo, e por isso existem um pouco de restrições pras capacidades da história. Não estou afirmando que histórias curtas são ruins, mas isso limita a ideia inicial do autor, o que acaba gerando cenários restritos nos quais eles podem trabalhar. Existem histórias que podem ser definidas em, digamos, 10 capítulos (o que é já muito para alguns yuris!) e ainda serem grandes obras primas – vemos no mundo shounen obras que acabam se perdendo completamente pelas extensões que são feitas pelas editoras -, mas não temos a possibilidade de ver novos caminhos justamente por saber que o autor não vai poder se estender muito.

O que eu percebi na maioria dos casos foi um grande gostinho de “quero mais”, pra ser sincera. Não obras ruins porque eram curtas, rushadas e com personagens mal desenvolvidas, mas que no curto espaço que tinham, os autores/autoras conseguiam tornar as personagens suficientemente intrigantes de maneira que eu queria que tivessem mais capítulos pra eu poder desfrutar mais delas.

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De. Tudo.

E as histórias lidas? Puxa vida, eu li de tudo. Sério mesmo, meus caros leitores, eu li todo o tipo de mangá que vocês podem imaginar. Com certeza ainda não sou a pessoa mais versada e especialista em yuris que conheço, e posso falar besteira, mas acredito que tenha lido bastante para poder tecer algumas das opiniões que falarei mais a respeito abaixo.

Uma das coisas que mais me incomodou ao ler yuris foram os settings adotados. O cenário onde a história se passa – não estou falando do pano de fundo visual, e sim do pano de fundo textual. Algo a se perceber é que a maioria dos yuris limita bastante o número de personagens homens (por motivos óbvios) ou se coloca eles são muito irrelevantes – porém, a maioria mais ainda, especialmente no âmbito de yuri com temática escolar (que são, assim como shoujo, MUITOS!) se passam em escolas apenas para garotas.

M-m-mas Marcela, esse é o cenário perfeito para desenvolver um amor puro entre garotas!

É… É. Assim, eu até concordo. Eu gosto de um pouco de yuri puro na minha mesa também. No entanto, quando você vai lendo vai percebendo certas nuances que atrapalham o aproveitamento total que uma pessoa teria desse cenário.

Veja bem… O que eu vou falar agora pode sair um pouco errado, mas vou tentar me explicar o melhor possível: colocar uma história yuri para se passar em uma escola apenas de garotas passa a impressão de que o cenário PRECISA ter APENAS garotas, caso contrário não seria um yuri. Conseguem começar a ver de onde estou partindo com isso? Eu coloquei bastante negrito e itálico pra que fique bem claro. Tomem, vou colocar um pouco de sublinhado também: apenas garotas.

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Entendam: do ponto de vista que estou tomando, isso é um pouco chato e frustrante. Porque você tem a ideia de que aquelas garotas só estão se relacionando porque estão numa idade de hormônios e a única válvula de escape são outras garotas. Não estou dizendo que as histórias precisem de uma presença masculina para que “sejam boas” ou qualquer coisa do tipo, apenas é essa a ideia que a maioria dos autores passam (ainda mais considerando a cultura japonesa), de que se não fossem apenas garotas ali, elas jamais se relacionariam. E quando você passa a encarar dessa forma, fica um pouco decepcionada pelo aspecto frágil que os relacionamentos tomam.

Óbvio, estou falando de apenas alguns casos. Sasameki Koto, por exemplo, se passa em um colégio misto. E mesmo assim as personagens se apaixonam, independente do meio em que estão inseridas. Mas o público gosta muito desses “yuri puros”, com garotas se descobrindo. E, indo por essa via…

… Outro aspecto é a visão externa sobre homossexualidade. Isso já se relaciona diretamente com o comportamento do Japão diante a essa situação: discrição. Os japoneses tratam a homossexualidade de uma forma um tanto peculiar que torna até um pouco complicado de entender: eles não aprovam, mas não desaprovam tão ferozmente como nós vemos aqui no Brasil (espancamento, etc). Então muitas obras simplesmente desviam do tópico. As personagens entram num relacionamento, continuam nele e quaisquer julgamentos externos não são exibidos, é tudo bem “perfeito”. Por outro lado, outras obras – citando por exemplo, Citrus, Sasameki Koto, Girl Friends – abordam isso sempre mostrando a forma como as personagens serão julgadas de maneira negativa e na maioria dos casos como um obstáculo a ser superado para que as duas possam prosseguir com o relacionamento. Sasameki Koto em particular aborda isso de maneira espetacular e ao mesmo tempo muito japonesa, chega a ser curioso – falarei melhor em um post futuro.

E, apesar dos yuris escolares serem provavelmente os mais populares e os mais adorados pelas pessoas, são apenas a ponta do iceberg. Acredito que o ponto onde os yuris realmente brilham é quando de alguma forma jogam de lado o cenário escolar. Algumas das histórias que mais me prenderam foram justamente as que tratavam das personagens já trabalhando ou algum ambiente mais “maduro”, porque a perspectiva de relacionamentos muda, ao mesmo tempo que não. Quando uma personagem começa a entrar no mundo que é o relacionamento entre duas mulheres, ainda mais sendo adulta, é como se ela tivesse de novo a visão de uma garota de 15 anos – toda aquela intensidade, aquela adrenalina, uma correria de emoções sempre a flor da pele. Isso é tão incrivelmente contraditório e oposto que é um deleite.

Ainda nesse tópico, uma das técnicas principais que acredito que muitos autores usem para trazer as pessoas de maneira que não se sintam “tão longe” do que conhecem é ter sempre essa protagonista inexperiente. Talvez não no campo amoroso no geral, mas num relacionamento yuri. Quando você tem um personagem leigo, esse leigo se torna o leitor dentro da obra. Torna-se os olhos do leitor ali naquele mundo. Então juntamente com aquela personagem que vai aprendendo o que é amar outra mulher, o leitor acompanha esse processo quase que de mãos dadas com ela, enfrentando todos os desafios. E acreditem em mim, leitores: eu li muitos yuris, muitos, e não canso de ver essas personagens perdidas e pensando “MAS NÓS DUAS SOMOS MULHERES! COMO ISSO FUNCIONA?”. A icônica imagem “google: how two girls have sex” vem a mente toda vez. É simplesmente aquele clichê que funciona, que dá certo e nunca enjoa.

São muitas as nuances que você vai percebendo ao longo de diversas leituras: como quase sempre tem um casal mais “consolidado” que serve de exemplo e conselho para as protagonistas, que estão muitas vezes completamente perdendo a merda delas sobre tudo. Coisas que se repetem, sim, mas que tem um click. Sabe? Click. Encaixam onde tem que encaixar. Toda vez.

Então

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Começar a ler yuris foi como se eu tivesse feito um amigo novo. Conversava com ele todo dia, todo dia nos encontrávamos e ia aprendendo cada um dos aspectos dele – seus defeitos, suas qualidades, seus clichês… Uma verdadeira experiência deliciosa. Abrir os olhos para todos os outros tipos de conteúdos que tem por aí. E ao mesmo tempo sentir que eu fui feita para todas essas experiências e para conhecer essa pessoa, como se ela estivesse sentada o tempo todo, apenas me esperando. Sabia que em algum momento eu apareceria.

Tenho ainda muito que aprender desse universo, muito mais para ler e muito mais para assistir. Essas são apenas algumas considerações minhas de uma “completa novata” chegando nesse novo mundo e inspirando vocês para que leiam/vejam também se for do interesse. Se quiserem podem até levar como um “desabafo” positivo: estava com todas essas emoções empilhadas sobre uma nova descoberta e precisa divulgar o conhecimento que adquiri.

Se quiserem aprofundar mais, recomendo a lista do OG-Man que segui de mangás yuri e claro, o blog Kono Ai Setsu, o melhor blog brasileiro de yuri.

E a súbita realização: garotas podem amar garotas.

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Não é yuri mas tá valendo, vai.

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5 thoughts on “O mundo yuri – “Bem vinda ao lar”

  1. Foi um texto deveras interessante, apesar da minha visão sobre o assunto ser diferente, consegui compreender sua visão através dele. De fato, cumpriu seu dever.
    Minha história com obras dessa temática é um pouco diferente, e creio que explica minha visão diferente. Comecei a ler mangás e ver animes yuri pelo mesmo motivo que comecei a assistir várias obras de ficção científica, queria ter referências, exemplos do que fazer e do que não fazer, para um livro com um pouco desta temática que estou escrevendo. E o motivo do livro ter esta temática me dá até um pouco de vergonha, na época, que seria alguns anos atrás, na minha adolescência, pensei nessa historinha com elementos sobrenaturais e queria colocar um pouco de romance, mas não tinha confiança para escrever um romance na época, então por algum motivo que nem eu entendo, resolvi mudar de um protagonista para uma protagonista. Lembro que pensei que poderia ser mais fácil escrever o amor entre duas garotas, talvez o raciocínio imaturo tenha sido “são duas pessoas do mesmo sexo, vão se entender melhor, vai ser fácil”… Estava bem enganado. Conforme tentava desenvolver as duas personagens, percebi a complexidade da situação das duas, porém já tinha me apegado a elas, não podia deixá-las na mão. Engraçado como simples personagens em uma historinha minha mudaram tanto minha visão. Hoje em dia elas são provavelmente o romance mais bem feito que já produzi, e digo isso com orgulho. Me ajudou a perceber que não importa a forma que tome, o amor é um sentimento complicado.
    Enfim, depois de ler este post, me deu vontade de compartilhar esta experiência, por algum motivo. Espero que não seja um incômodo. E se me permite, na questão de animes yuri, recomendo que assista “Aoi Hana”, ele tem um desenvolvimento de personagem ótimo, na minha opinião. E meu mangá da temática favorito é ‘Girl Friends”, só pra deixar aqui, XD.
    Obrigado pelo ótimo texto, tenha uma boa semana e até mais!

    • Obrigada pelo comentário!

      Não vi o anime de Aoi Hana, porém já li o mangá todo e devo admitir que fiquei abalada. É muito bom. Meu favorito até agora é Sasameki Koto.

      E por favor, me dê mais informações sobre esse seu livro! Fiquei curiosa.

      • Ah, sim, Sasameki Koto também é ótimo. Gosto do tom da obra, mas Girl Friends conversou comigo de uma forma que poucas obras conseguiram, então talvez eu favoreça essa obra um pouco.

        Sobre o livro, e escrever no geral, comecei a me engajar nisso depois de ler adivinha o quê? Isso mesmo, Kizumonogatari. Então, tenho muita influência do Nisio, só espero fazer algo minimamente aceitável pra não passar vergonha. No momento estou terminando de escrever o capítulo quatro de uns quinze ou dezesseis, então pode demorar, mas prometo que te aviso quando terminar, pelo Twitter ou um e-mail pro blog mesmo.

        Se for pra dar uma sinopse, não tenho uma oficial ainda, mas posso tentar algo sem dar muito spoiler.

        “Uma jovem é atacada por uma criatura e este ataque causa vários efeitos em sua vida, até que as coisas tomam proporções terríveis.”

        Se disser mais que isso estragaria um pouco, mas acho que esse é o tom da coisa toda. O começo é bem Kizu, até, mas deixa quieto, ninguém vai perceber, -q.

        Até mais~!

  2. My apologies for not being able to fully understand Portuguese but since you linked my blog it must have inspired your yuri curiosity or made it stronger in a way. If that is true, I am happy glad I was able to help expand your interest in this most wonderful romance subgenre.

  3. Olá, adorei o texto. Eu, pessoalmente, fujo de animes com o gênero de shoujo e Yuri pra mim é algo que definitivamente não pegaria para assistir; apesar disso, acabei me deparando com muitas cenas “meio Yuri” em vários animes por aí, como o próprio Shuumatsu no Izetta e o Cross Ange (Esse aí não tem cenas meio Yuri não, elas são Yuri mesmo).
    Por outro lado, gosto bastante de Yaoi, então eu vejo o Yuri como um segundo lado da mesma moeda.
    Yuri consegue ser fofinho em algumas histórias e muito sensual em outras. Até mesmo eu fico torcendo para as personagens ficarem juntas ou se pegarem; como a Ange e a Salamandinay; Izetta e Ortofiné; Ginger e Gina, etc.
    Gina e Ginger, omg, esse casal é muito bom! Foge pra caramba do clichê escolar kkkkkkkkkk, pondo em vista que a Gina é uma mulher mais velha (Acho que tem uns 50 anos), e a Ginger é uma jovem na casa dos 20. Adiciono que a relação das duas ainda é bastante misteriosa, o que torna mais legal ainda. Enfim.

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