A Liquidez do Desejo

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Relações de Bolso.

Muito é dito sobre Kuzu no Honkai. As cenas de softporn, personagens tidas como “desprezíveis” e polêmicas, mas acredito que seja válido encarar a obra de forma mais sóbria, reavaliar as personagens para compreender sua (deturpada) honestidade e a atualidade do tema que a obra aborda.

Hedonismo

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Zygmunt Bauman é o sociólogo que difundiu a expressão “amor líquido” ou variações do mesmo termo, sendo bastante breve, o seu curto livro levanta o tema das relações líquidas, contratos que são estabelecidos onde um “eu” busca o prazer e resultados imediatos num parceiro. Sentimentos não importam, o outro tem de entregar tudo aqui e agora, sem que a recíproca seja verdadeira.

Existe uma máxima, mencionada no livro Amor Líquido, que expressa uma das temáticas de Kuzu no Honkai:

Desejo e amor. Irmãos. Por vezes gêmeos: nunca, porém, gêmeos idênticos (univitelinos).

Hanabi, protagonista, ama seu professor/amor de infância sem que jamais tenha (inicialmente) confessado seus sentimentos, uma relação prática e platônica, onde a admiração de longe basta. Mugi, outro personagem, parte quase do mesmo princípio ao observar sua amada professora de longe, mas consciente da natureza obscura da mulher que ele deseja.

O desespero da Hanabi ao notar que seu amado está interessado por outra pessoa é tamanho que, ao se encontrar com Mugi numa relação semelhante, sela um contrato onde ambos poderiam dar vazão aos sentimentos utilizando seus corpos, desde que a persona presente não fosse a deles mesmo, mas de suas respectivas paixões, tudo uma questão de imaginação.

Um erro de lógica parece óbvio. Como utilizar o desejo sexual, para dar vazão ao amor? Como suprir o desejo de tocar aquele a quem você ama, utilizando outra pessoa? De fato, Bauman é muito lúcido ao apontar algo que as personagens só descobrem muito depois, os sentimentos podem ser gêmeos, mas não são a mesma coisa.

A série como um todo aborda a desolação das personagens em relação ao que cada um projeta em seu platônico parceiro. A garota lésbica que não se importa com o fato da amiga estar num relacionamento estranho, contanto que ela possa por alguns instantes ser só sua. A menina com sentimentos puros, mas que compreende a essência do relacionamento que quer estabelecer e para isso tenta se utilizar da relação sexual.

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Relacionamento de bolso é um contrato onde ninguém se envolve, você encara a pessoa, liga, se encontram e somem um da vista do outro. Por mais que o Mugi e a Hanabi se envolvam diversas vezes, até com contatos bastante íntimos, não há intimidade entre eles. É a desconfiança, o pensamento a respeito do que um faz pelas costas do outro que marca esse contrato, pois chamar de laço o que há entre eles seria forte demais.

A protagonista é quem melhor expõe a ideia do relacionamento de bolso, ao perceber que nem se valendo do desejo consegue dar vazão ao que sente e tentando construir para si uma outra persona, começa a sair com diversas pessoas buscando entender o que é se relacionar e só encontra o vazio interno nesse processo.

Sexo é encarado de formas diferentes na obra. Alguns utilizam como dominação, outros para se aproximar e demonstraram o que sentem, tentando se valer do ato sexual para construir alguma espécie de sentimento. E, acima de tudo, é a pequena morte que preenche o vazio emocional, em particular a personagem Hanabi é quem se encontra as voltas com essa sensação.

O texto é bastante atual, o medo de se relacionar e querer que o outro se entregue completamente, não amar, mas sim dominar o parceiro ou parceira, são questões abordadas com bastante honestidade. A moral não entra em questão, não é possível julgar as ações das personagens fazendo maniqueísmos pois suas motivações e objetivos são compreensíveis.

Por que a professora, que utiliza o sexo para dominar e destruir, deve ser tida como má? Ela encara a situação como um jogo, um passatempo, uma libertação da rotina que a esmaga. Se formos ter esse valor como negativo, então, a Ecchan, que ama a Hanabi e se vale de pressão psicológica para dormir com a amiga, é positiva por ter sentimentos honestos? O tom é sempre cinza.

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Por exemplo, a versão infantil da Hanabi que aparece em certas cenas é a voz da razão, ela é quem aponta os erros e diz que a menina precisa parar de chorar, encarar e ver que ela está se tornando a imundice que tanto desprezou. É algo as avessas, o espectro infantil parece ser o único que consegue entender o que se passa no âmago da personagem e ser razoável.

Há, no entanto, algo de belo na sinceridade do enredo. Todas as personagens são sinceras ao seu próprio modo. O desejo de dominar os outros é sincero. O amor pelo professor é sincero. É sinceramente doloroso que X se realize com Y, o mesmo Y que amava Z, que desejava L, que não queria nada com ninguém, como diria uma certa quadrilha.

Impressiona a sensibilidade com a qual a série aborda tantos temas, da pressa em querer que o outro ofereça tudo ao quão doentio pode se tornar um amor platônico, até mesmo na forma como podemos nos valer de artifícios emocionais para que os outros se submetam aos nosso desejos.

Uma série sobre desejos imundos, de imundos para outros imundos, para todos aqueles que se sujam diariamente no próprio hedonismo, desejo e amor.

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