NisiOisiN – O Fim da Infância

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A adolescência como período de fantasias e anormalidades.

Impressões fazem parte do cotidiano. Um primeiro encontro com alguém. O cômodo de uma casa. A vida é uma sucessão de impressões que podem ou não se chocar com a real essência desses objetos ou situações.

Por exemplo, uma memória de infância. Aquele escorregador enorme pelo qual você tanto passou e ao revê-lo percebe que não era tão alto assim. É um efeito de choque interessante compararmos nossas impressões com o que as coisas realmente são, principalmente depois de determinada idade.

Falemos então sobre infância e transição.

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Alguns bons autores de fantasia se utilizaram de personagens infantis e o estado puro em que elas se encontram para transmitirem certas ideias, valores. C. S. Lewis com As Crônicas de Nárnia e a viagem dos irmãos para a terra de Nárnia, elas só podem acessar a terra encantada enquanto são crianças, só podem ir ao paraíso enquanto retêm uma certa pureza, os olhos brilhantes e um quê de magia.

Claro, o Lewis faz da história uma grande alusão à bíblia, Aslan (o leão) é uma imagem simbólica de Deus, a “burro que se veste de leão”sendo uma espécie de anticristo, enfim, são muitas nuances em todas as personagens.

Outro autor, muito amigo de Lewis, Philiph Pullman na série Fronteiras do Universo consegue ser ainda mais sintético com essa ideia de “estado puro” das crianças. No último livro da trilogia mencionada, A Luneta Âmbar, em certa cena a protagonista (Lyra) e outro personagem se beijam. Era o primeiro beijo dela e a cena toda é construída em torno dela morder um fruto vermelho, o sumo escorre por seus lábios e só então ela encostar seus lábios na da outra pessoa.

Passadas algumas cenas, ela não é mais capaz de ler a bússola de ouro. O “pó em torno dela se dispersou”, a mocinha tinha provado o fruto proibido e perdeu acesso ao conhecimento inato.

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Algo se perde na transição. As crianças que não podem voltar ao paraíso. A menina que não consegue utilizar sua habilidade. Não é exato quando e onde a essência da infância se perde, mas antes que se note, já não existe mais.

Encontrei essa ideia sendo explorada em diversas mídias e se me permitem mencionar alguém que o faz de forma instigante, certamente seria o autor NisiOisiN. O caminho até as aberrações de sua mente passa por uma menina anormal, cujos poderes se tornam mais fortes quando ela está sozinha. Medaka é o nome dela e o mangá se chama Medaka Box.

Contextualizando – Medaka Box é o mangá do Nisio que foi publicado na Shonen Jump; ter uma protagonista que é poderosa quando age sozinha, ou seja, onde seus amigos a atrapalham, dentro da revista japonesa que teve pilares como Naruto e Bleach, é essencialmente ser ateu dentro da igreja. O palíndromo zomba da ideia de poder da amizade, desenvolvendo habilidades que literalmente impedem que grandes acontecimentos ou coincidências se desenvolvam dentro do enredo; por mais desgostoso que eu fique com o termo, desconstrução é a palavra que cabe aqui.

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“É como se… fosse uma espécie de mágica da adolescência, algo que somente crianças podem usar.”

É uma obra que vale um post inteiro e muito bem elaborado, então vou pegar apenas a cena que eu preciso nessa ocasião. O último capítulo da obra é essencialmente uma das personagens explicando de forma sucinta: “Depois dos 20 anos, até um gênio se torna uma pessoa comum”.

As habilidades deles desaparecem, elas eram necessárias apenas no período de transição, aos adolescentes que ainda mantém algo da infância. O mundo dos adultos não precisa de magia, habilidades, tudo é corriqueiro, normal, uma realidade distante dessas aventuras. Nisio não elabora essa ideia de forma grandiosa, ela é exposta no último capítulo de forma precisa, sem que se precise dizer muito.

Quando um autor é experiente, ele consegue expor uma mesma ideia em outras obras sem que soe repetitivo. Digamos, hipoteticamente, num mundo de aberrações. Um certo menino encontra uma certa vampira vetusta. Encontrá-la, em plena adolescência, é de tamanho impacto que ele se refere ao ser como “Ela”. Maiúsculo. Deificada.

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Consideremos esse jovem numa fase bastante suscetível de vida. Ele não é criança, não é bem adulto, nem estudante, nada, sem identidade. Ele está no limbo existencial. Ele está no exato período de metamorfose, na dolorosa transição. O que ele perderia nessa situação?

O que Araragi Koyomi perdeu, pra ser exato.

Avançando um pouco mais no tempo. Caranguejo, abelha, fênix, macaco, caracol, cobra, gato. Se você encontra um ser grandioso e logo em seguida, começa a encontrar diversos seres do mesmo porte, o encanto desaparece. Não é mais a aberração, é só uma aberração, naturalmente esperar que outros monstros sucedam ao primeiro encontro parece racional.

Contudo, o brilho da adolescência não tem nada de racional ou previsível, é a fase de possibilidades. Claro, é uma ideia comercial essa última, mas não deixa de ter alguma veracidade. A partir do momento em que isso se torna estável e recorrente, perde o encanto.

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Monogatari Series é um longo reflexo de tal ideia. O Araragi perde amizades, perde sonhos, reencontra alguns pesadelos e se torna um adulto que trabalha com aberrações. Não existe forma mais garantida de normatizar algo do que trabalhar com esse objeto; ele se torna um policial, investiga monstros, não tem nada de incrível ou amedrontador.

Nós, como leitores, temos essa mesma impressão sem que o autor precise dizê-la. Bake, Nise, Neko, tantas e tantas crônicas que não existe mais surpresa, é simplesmente natural e, portanto, normal. O próprio Araragi adquire, lentamente, consciência de que a vida encontrando aberrações se aproxima de uma ruptura, ideia expressa muito bem em Tsukimonogatari.

Em Musubimonogatari, ao se deparar com a entrada do Templo da Cobra Setentrional, ele hesita em subir as escadas. Será que a divindade, sua amiga, dos tempos idílicos está lá?

A resposta é não.

Nesse ponto, ele já pertence ao plano dos adultos, onde encontros mágicos e sonhos não residem.

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Perceberam como os adultos no mundo de Monogatari Series parecem ser monstros? Eles se impõem de uma forma abismal, a mãe do Araragi conversando com a Hanekawa nem precisa ter o corpo ou aparência revelados, seus olhos, sua breve expressão, suas palavras, todas elas atingem brutalmente tanto Hanekawa quanto leitor.

Esta é uma impressão subjetivada muito caracterizada por adolescentes. Todos os adultos parecem, o período da puberdade, verdadeiros monstros. Seres tão velhos, tão eruditos, que qualquer ideia de alcançá-los parece vã.

A série carrega em seu âmago a tríplice sagrada – em nome do adolescente, do adulto e da aberração, amém.

O palíndromo assim constrói, mais uma vez, um enredo que vai além do óbvio. Muitos abordaram este mesmo assunto e, que os críticos o digam, com maior grandeza de espírito talvez. Ainda assim, eis aqui uma demonstração apurada que mesmo se utilizando da mesma matéria que os grandes, algo novo pode se revelar por trás das cortinas que ocultam monstros e adolescentes.

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5 thoughts on “NisiOisiN – O Fim da Infância

  1. Que texto agradável, apenas bem vagamente tinha pensado sobre esses elementos de Monogatari Series, obrigado. Ainda não tive contato com Medaka Box, mas é um tanto engraçado que o antigo lema do Araragi pareça fazer referência a premissa de Medaka kkkkk

  2. Mto bom o texto, com sempre 😄
    Acho que uma das coisas que mais curto em Medaka Box é o “esquema” do conselho estudantil… Cada um ali é um vertente do que a Medaka não consegue ser… A normalidade(Hitoyoshi), a ganancia(Kikaijima), o esforço(Akune) e a malicia/maldade(Kumagawa) , é como se fosse uma metafora para vida, para como você precisa aprender a conviver com tudo isso…

    Já sobre Monogatari… Eu tive a chance de ler algumas partes de Musubi, e é como vc disse… O Araragi fica sempre reforçando o fato de que não pode mais ser imparcial, ele chega até mesmo a brincar, dizendo que sente que está roubando o salário de um inspetor(querendo ou não, ele fazia isso de graça antes)

    • Agradeço o comentário, Marcelo! Acho interessante a sua visão sobre a simbologia de cada personagem, nunca tinha pensado dessa forma. E sim, o Araragi na fase “adulta” dele já tem insights interessantes a respeito do que fazia de… graça né.

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