Zero Escape: Zero Time Dilemma

 

 

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Escolha: continuar lendo ou fechar a página.

Pense por um instante que um ente querido ou alguém muito próximo a você viajou. As cartas ou e-mails dessa pessoa chegam de tempos em tempos, ela sempre dizendo que logo vai voltar, mas esse “logo” nunca chega. Certa manhã você se depara com essa pessoa na sua porta, ansiosa por um abraço seu, mas você se sente estranho ao revê-la pois ela não era exatamente como você se lembrava.

Zero Time Dilemma é isso.

Um grande amigo seu, que voltou diferente, mas no fundo ainda é a mesma pessoa.

Decision Game

 

Se chegou até aqui assumo que já entende o processo do “Decision Game” que Zero arquitetou. Você faz a escolha e arca com as consequências delas, nesse caso ler este texto é o resultado da sua decisão, parece pouco, mas é uma decisão consciente. Escolha sua que afeta a mim, que estou do outro lado, escrevendo. Pense agora que a escolha é sobre atirar na cabeça de um conhecido seu, existem possibilidades e probabilidades a seu favor, errar o tiro, a bala não funcionar, mas ainda reside nos seus ombros qualquer resultado. Esse seria, em linhas gerais, o mote que move o enredo, o peso das escolhas e o reflexo delas nos participantes.

ZTD é o final da trilogia Zero Escape escrita por Kotaro Uchikoshi, a série se dividiu por vários consoles e precisa ser jogada integralmente, os jogos anteriores (999/VLR) são primordiais para o entendimento do fim. Embora tenha começado como uma Visual Novel no sentido tradicional, com rotas e muito texto, o autor preferiu uma abordagem mais direta, transformando ZTD em um jogo de ação.

A palavra “ação” deve ser entendida mais como The Walking Dead da Telltale Games, temos o segmento com quebra-cabeças a serem resolvidos e depois começam as cenas com diálogos, sem texto ou qualquer coisa que remeta a uma Visual Novel, decisão que gera algumas dúvidas a respeito do conteúdo e qualidade, mas logo é perceptível que ele soube conduzir com certa segurança a mudança. O começo do jogo e a adaptação ao “Decision Game” são estranhas inicialmente, a divisão de grupos até soa familiar, mas o formato não-linear parece errado e deslocado até o momento em que começa a fazer sentido o funcionamento desse jogo. Existem diversos motivos para o jogo ser assim e a junção disso com a história é formidável, não foi só capricho ou experimentação, o jogador precisa se sentir perdido para compreender os participantes.

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Faço um rápido paralelo com o livro Laranja Mecânica que têm diversas gírias e palavras desconhecidas, algumas edição inclusive recebem explicações a respeito dessas gírias em sua introdução, mas é sempre fortemente recomendado que comecem o livro naturalmente, sem buscar explicações, pois a sensação de estranhamento àquele mundo é essencial para a obra.

A equipe C é formada por Carlos, Akane e Junpei, particularmente formam as melhores interações no jogo, principalmente pelo carisma do Carlos e o humor ácido do Junpei em relação a Akane. Equipe D é formada por Diana, Sigma e Phi, rever as personagens de VLR é muito gratificante, perceber que Sigma/Phi ainda se desentendem e ver Diana tentando acalmar os ânimos é sem dúvida interessante, principalmente após alguns finais que expõem melhor a relação do trio. Os novatos ficam na equipe Q, Eric, Mira e Q, grupo que soa bastante estranho na formação, mas flui bem ao longo do jogo e reservou gratas surpresas em relação a temas essenciais da trilogia.

Uchikoshi trouxe de volta a violência e brutalidade de 999 que foram muito pedidas pelos fãs, esse aspecto grotesco da série tinha sido reduzido em VLR e felizmente ele está de volta. Mortes com machados, máquinas de tortura, armas, incêndios, corpos diluídos em ácido, o autor está particularmente criativo neste jogo, satisfazendo qualquer desejo sádico.

Ah sim, os quebra-cabeças continuam infernais. Infernais. A frustração em resolver alguns deles me trouxe lembranças da primeira experiência com 999 que continua a ser um jogo que rememoro com muito carinho. Cartas, bilhetes, anotações, tudo é válido para escapar das salas, horas e mais horas de um dos chamativos aspectos da série.

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Um problema que é bastante sentido e perceptível são as animações das personagens, bocas não sincronizadas com a fala, mão e braços que parecem se desfazer em algumas cenas, problemas na mudança de estilo e falta de orçamento são algumas possíveis explicações para isso, aos poucos o ambiente se torna familiar e esses problemas não tiram o brilho do jogo de forma alguma. Um fator que se equilibra com isso é a trilha sonora por Shinji Hosoe que continua um compositor brilhante. Inegavelmente brilhante. Remix dos melhores temas da série foram feitos para ZTD e muitas músicas novas surgiram, é um deleite resolver os quebra-cabeças com essa trilha sonora ao fundo, sem falar nos momentos do pássaro azul.

Algo fundamental é o enredo e com segurança digo que Uchikoshi consegue encerrar bem a trilogia. Certamente não é impecável e conseguiria discorrer sobre muitos problemas nela, sua escrita que nem sempre foi brilhante, as reviravoltas que são loucuras e quase parecem contradizer pontos fundamentais da trama, mas não o farei. Pelo menos hoje não.

Kotaro Uchikoshi brincou no twitter que essa é a linha do tempo derradeira, onde Zero Escape alcançou sua conclusão. Foram dias, meses, anos implorando pelo desfecho, por um final que nem precisava contemplar o “felizes para sempre”, mas que fizessem personagens tão queridas sorrirem pelo menos uma última vez. Pode ser que em muitas outras linhas do tempo este jogo não exista, a série nunca tenha sido feita e ainda estejamos a deriva entre tantos fragmentos. Soa doloroso pensar nisso, assim como soa doloroso pensar em tudo que as personagens tiveram de suportar até o fim e essa é umas das maiores qualidades do jogo, a dor das personagens ser tão palpável.

Que este seja o final, que finalmente o pássaro azul descanse em paz.

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2 thoughts on “Zero Escape: Zero Time Dilemma

  1. Definitivamente tenho que jogar esse jogo (seja no meu 2DS quando o Sky3DS atualizar o template ou no notebook quando o preço na Steam abaixar um bucado).
    999 foi minha primeira experiência com visual novels e foi algo extremamente gratificante e VLR tb foi muito bom (apesar de não ter conseguido resolver um (UM!!!) único quebra cabeça de nenhum dos dois, sempre apelando pras internets T.T).

    Blue Bird Lamentation 2nd Mix é incrível.

    • ZE é incrível. Que final de série, e sim os quebra-cabeças são um inferno, sempre passo raiva. Recomendo muito que jogue, é bom demais.

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