Kiznaiver e as relações interpessoais

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A vida e o que ela tem de mais (belo) hipócrita.

Eu gosto da abordagem que a Mari Okada (Okadinha, para os íntimos) faz nos animes em que trabalha. Ela participou de algumas adaptações e fez roteiros originais, até hoje tenho muito carinho por Nagi no Asukara em particular; essa abordagem emocional, de sentimentos confusos e conflitos pessoas sempre me atraiu, Kiznaiver que está sendo exibido no momento me atraiu justamente por ter essa temática.

Sete alunos, cada um deles praticamente um estereótipo ambulante, são conectados emocionalmente através de uma cirurgia, desse ponto em diante é só intensidade. A amizade surge de forma tímida, turbulenta, mas eles tentam se aproximar, se tocar e tudo desmancha em gritos de dor sob a chuva. Okada em sua primazia.

“Não podemos ser amigos”

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Se aproximar, conhecer alguém, contar segredos, conversas amenas, pensamentos, besteiras, se apaixonar, não se apaixonar, brigar, gritar, ficarem sem se falar, amizade. O conceito de amizade parece algo criado por alguém tresloucado. Se existisse um experimento sobre “o que acontece entre pessoas” e ele pudesse ser aplicado realmente, imagino que Kiznaiver seria a essência dele.

O episódio 9 do anime foi o ápice dessa amizade que nasceu da união improvável entre sete pessoas que nem se consideravam amigas, no sentido amplo da palavras, mas nas palavras de uma das personagens: “Não somos amigos, não somos amantes. Somos algo maior. Somos Kiznaivers.”, não teria como colocar em melhores palavras, entre eles tudo é exacerbado e intenso.

Pense em qualquer relação. Ela demora dias ou até anos para ser estabelecida, agora, esse projeto no qual eles se envolvem acelera esse processo e eles não sabem dizer o que são ou como se sentem em relação aos companheiros. Relações são complicadas por natureza, você questiona o que o outro pensa, se ele aceita o que você diz, se é mesmo uma pessoa bacana e antes que note, surgiu uma amizade.

Kiznaiver lida muito bem com essa temática, principalmente nas relações amorosas, quase escondidas. Tudo se desenvolve de forma sutil, com olhares, um afago, são realmente nuances muito semelhantes a realidade. Muitas revelações são feitas em determinado momento e a estrutura dessas relações desaba, mostrando o que existe de mais humano, demasiadamente humano.

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A hipocrisia de alguém ao se importar apenas com a pessoa que lhe é amada e, logo em seguida, ignorar a amiga que passa pela mesma situação. Rejeições, desespero e dor. A realidade que se revela é onde essa amizade simplesmente não era para ser, no mais simples sentido do verbo ser. Uma relação que se construiu de forma rápida, agitada, desaba sob o peso dos sentimentos.

O coração da Chidori implorando para que o Katsuhira a abraçasse e, assim que é abraçada pois ele ouviu esse pedido, esse mesmo sentimento se transforma em repulsa. Sentimentos são caóticos, é necessário que isso passe por um filtro para chegar ao outro, quando isso se transmite de forma pura, é emocionalmente doloroso.

Não é preciso estar ligado de forma tão intensa com alguém para sentir ou entender isso, o fato de se abrir com alguém ou agir de forma insensível já pode ferir o outro. Fechar-se em relação ao mundo, não acreditar que seja possível uma relação sincera existir, questionamentos ou ações dessa espécie resultam de experiências negativas em relação ao mundo e as pessoas.

Kiznaiver mostra isso de forma tão crua e sincera que dói. São adolescentes nessa nã0-amizade deles. Tudo desmoronando ao sentir a dor do outro. Ao sentir a própria dor. Ao passar pelo processo de compreensão a respeito de si mesmo. É isso que me tocou de forma intensa nessa série.

A Maki, que é uma das personagens mais instáveis entre eles, não chora ou grita ao admitir que eles não podem ser amigos, simplesmente diz isso em tom baixo. Mas é uma expressão tão dolorosa, tão verdadeira, que eu consegui entender a sua dor mesmo não a sentido. Foi brilhante.

As relações que formo e como me baseio poderiam ser expressas pela série em geral, sem problema algum. A vergonha de admitir como se sente, compartilhar um hobby, formar um grupo de amigos.

A empatia dolorosa de sentir a dor do outro sem dizer palavra alguma.

Kiznaiver é um retrato vívido das relações humanas, com uma pitada de desenho japonês.

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4 thoughts on “Kiznaiver e as relações interpessoais

  1. Eu não conhecia essa escritora, mas foi uma maravilha ter descoberto ela nessa temporada, Mayoga que ela também participou e igualmente profunda na relação dos sentimentos, encarar o passado ou deixar tudo para trás e começar…
    Bom texto com sempre xD

    • Mari Okada é uma boa roteirista, mas é muitas vezes 8 ou 80. Ano Hana é dela, acho bacana, mas um pouco forçado. Ela que ajudou na adaptação de toradora, ficou bom. Eu recomendo MUITO fortemente “Nagi no Asukara” que também é dela.

  2. Acho interessante que a animação, quando se desvincula de seu inicio bobo de aventura, consegue passar um sentimento muito forte e verdadeiro. Ao exemplo do décimo episódio, onde Katsuhira encontra com as outras crianças do projeto anterior, a primeira coisa que pensei é “Eu choraria. Minha nossa, eu não sei porquê, mas eu choraria”, logo em seguida ele começa a chorar, foi muito marcante e verdadeiro. É altamente recomendável, vale muito a pena. Pensa em fazer um post, quando acabar, sobre as relações entre os personagens/crítica/resenha?

    • É possível, uma ideia interessante. Falar particularmente sobre as relações deles, posso pensar no caso.

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