Papo Gatari #15 – Bestas e Humanos

papogatariFalemos sobre a linha tênue que nos difere de animais.

Faz um tempo que não conversamos, não é mesmo? Pedimos sempre desculpas e elas nunca vão bastar. É o tempo, a faculdade e muitas outras coisas nos impedindo de produzir conteúdo de forma positiva. Como um pedido sincero para que vocês não desistam de nós, decidimos conversar sobre um tema que sempre me chamou a atenção em Monogatari Series; o assunto não pretende chegar a uma conclusão, é apenas o puro questionamento de certos conceitos.

Monogatari do Nisio é uma série que envolve animais e pessoas. Eu sei, é bem óbvio falando assim e, ok, os animais são “espirituais”, mas existe uma relação óbvia. A conversa se desenrola em torno da ideia do que realmente seria “aberração”. Os humanos ou os monstros? Comentários são mais que bem-vindos.

Ajeite-se, aprume-se e prepare-se.

Aberrações Humanas

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Raigho: Talvez por sermos “humanos” o “anormal” soe atraente. Melhor, pode estarmos afeiçoados ao “senso comum” tudo o que destoa disso soa mais interessante, instigante. Monogatari funciona muito dessa forma, as vezes sinto que focamos sim nas relações interpessoais, é imprescindível fazermos isso, mas sinto que deixamos uma outra coisa de lado. Caranguejo, cobra, macaco, gato, caracol. Eu sei citar as aberrações de olhos fechados a essa altura do campeonato, a Macchan também. O que pretendemos nessa conversa é olhar outra coisa, reavaliar o que é realmente uma “aberração” em monogatari, se isso não poderia, em algum nível, estar ligado aos “humanos” que estão na série, muitas vezes seres que beiram o irracional de tão sábios ou poderosos. Bem vindxs.

Marcela: Bem vindos! O assunto de hoje é algo que eu o Raigho já chegamos a debater por alto – seja em algum post nosso de Monogatari ou até entre nós mesmos, nas nossas complexas conversas privadas. O nome “Bakemonogatari” já começa instigando o tópico “principal” (muitas aspas aí) de Monogatari Series – monstros. Aberrações. Kaiis. O Raigho mesmo fez um post só sobre o conceito de kaii, que vai um pouco além de apenas monstros sobrenaturais, escalando um pouco do metafísico. Mas… Tem outro fator, que participa da existência dessas criaturas. E, muito mais importante que isso, participa da sua própria existência. Confuso? Não tanto. Estamos falando realmente dos “humanos” da série. O que eles representam nas histórias e como, apesar de vermos tantas aberrações nas histórias, as vezes eles são os verdadeiros… Monstros. Raigho, sua ideia.

Raigho: Vamos pegar “monstro” no termo mais simples empregado em algum jornal sensacionalista: “Espancou a filha. Um monsro”. Hanekawa recebeu um tapa do pai que a fez voar longe. Oshino meme conversa com o Araragi sobre isso e encontra uma “justificativa”, que não agrada ao Araragi, mas existe um ponto ali. Oikura Sodachi, espancada pelos pais sempre, levada do lar e volta um tempo depois, com as próprias pernas. Que situações monstruosas, dolorosas. São coisas dignas de uma história que envolve monstros. O que é ser um monstro? Será que a “garota encontra a aberração” ou o oposto? A que ponto você precisa chegar, para de alguma forma, desejar encontra um monstro? O estresse, o desespero. Sem falar nos monstros da “inteligência”, os caçadores, narradores, Gaen, ah.

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Marcela: Até que ponto os kaiis são os monstros da história? Sim, nós temos alguns extremamente violentos e cruéis. As cobras que atacaram a Nadeko, por exemplo. Aliás… Sengoku Nadeko, por si só, é um monstro. Vamos lembrar em Otorimonogatari que, sim, teve influência da Ougi, mas boa parte do que aconteceu ali… O “Kuchinawa-san” que estava no braço dela. Tudo aquilo era uma ilusão bem bolada da própria mente dela para que permanecesse uma vítima. Nós temos uma história em que, a princípio, é tudo culpa do “monstro”, a cobra gigante que ameaçou a garota. E na verdade – a garota era o monstro. Como disse o Araragi em Nekomonogatari (Kuro) para a Hanekawa: “Não use o monstro como uma desculpa”. Aliás, a Hanekawa é outra que se tornou o monstro, não é, Raigho? O Araragi revela isso para nós ao final. Podemos dizer que 90% da Black Hanekawa em Neko Kuro é apenas a Hanekawa. Outra vez, os “monstros sobrenaturais” sendo usados como a causa, os culpados. Por nós… Humanos.

Raigho: Eu acho que de alguma forma o Nisio cria uma linha ou relativiza o que é culpa de quem. Por exemplo: o Araragi que correu na direção da Kissshot e se sacrificou por ela, virou vampiro e pelos traços da própria personalidade, esqueceu (um ato de gentileza, quase) que ela era uma vampira. Isso vai se transformar um ponto de desespero muito grande para ele. É como a história recente do menino que caiu junto do gorila, naquele zoológico; quem garante que animais realmente vão atacar? Existe uma espécie de “pergunta morta” aí. E os seres que estariam beirando o mais extremo disso são os caçadores, pupilos de Gaen Izuko. Cada um deles se sobressai por algo, mas todos têm um conhecimento invejável a respeito desses seres e, brincando com as palavras, o conhecimento a respeito desses seres gera um respeito a respeito do conhecedor. Podem me chamar de NisiOisiN depois dessa.

Marcela: RaighO…hgiaR? Hmmm, acho que não hein. Vamos deixar pra decidir seu pseudônimo de sucesso em outro post. Caham, voltando… Os pupilos de Gaen Izuko! Oshino, Kaiki, Kagenui. Acho que não tem personagens melhores (além da própria Gaen Izuko e, por que não, Gaen Tooe) para demonstrar nosso ponto! A gente se sente um pouco intimidado pelo sobrenatural, pelas aberrações em Monogatari, acreditando que elas sejam absolutas. Mas esquecemos as capacidades que esses personagens possuem sendo, “apenas”, humanos. Como o Raigho bem disse: “caçadores”. Perdemos o foco pelo tom que o Nisio nos entrega, ressaltando bastante o foco nos kaiis, no entanto ele também está mostrando o quanto esses humanos carregam de fenomenal. Seja a inteligência do Kaiki e sua capacidade de enganar, seja a força descomunal da Kagenui ou até mesmo a camisa havaiana do Oshino.

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Raigho: Tem coisas ainda mais distintas que marcam a inteligência ou habilidades descomunais que possam ter, por exemplo, a lógica do Kaiki Deishuu. Ele não acredita nos monstros e por não acreditar… os combate? Ele combate o “invisível” com uma lógica pessoal realmente intrigante. Até hoje penso sobre parar e assistir Nisemonogatari com calma, para captar melhor essa ideia. A melhor cena para divisar isso sobre o que é realmente “aberração” ou que “destoa” é a Gaen entrando em cena. O céu assume todos os tons de cores e gira em torno dela, é ela quem comanda a cena. E nem tanto por sua força (coisa que funcionaria se aplicarmos com a Kagenui), mas pela sobriedade dela, pelo tom. Ela sabe tudo. Ela é o conhecimento onipresente, onisciente. Essa seria a aberração máxima que ninguém superaria. Exceto por sua irmã, mas é assunto pra outras conversas. Os monstros, kaiis, tudo parece perder um pouco a sensação de extraordinário se compararmos com essas pessoas.

Marcela: Perfeitamente, Raigho. A Gaen Izuko adora explicitar que ela é “apenas uma humana”, mas eu diria que é mais perigosa que qualquer aberração. É interessante mesmo notar o quanto ela gosta de repetir “Meu nome é Gaen Izuko, ah, sou apenas uma humana”. Ela faz isso quando encontra a Hanekawa pela primeira vez e, realmente, ela é apenas humana. Não temos nenhuma teoria magnífica que explique ela como algo além disso. Ela não é um kaii, ela não é deus (afinal, os caracóis são deuses aqui), ela é apenas a tia da Kanbaru, Gaen Izuko, especialista em kaiis. E, indo por outro lado, temos um garoto adolescente que é 1/9 de vampiro – ele tem uma mistura de kaii, tem uma vampira na sombra, mas está sempre sendo “derrotado” (não falo apenas no termo físico, afinal, sabemos que Monogatari não liga muito para lutas em si). Comentei com o Raigho agora pouco que é incrível com o Araragi, que tem algo de aberração nele, é quase sempre tão insignificante. Claro, ele adora mexer com os planos dos outros e causar problemas por aí, voltando no tempo e etc. Mas diante um Oshino, um Kaiki, uma Kagenui, uma Gaen e, por que não, até uma Hanekawa – ele é fraco. Um ser sobrenatural, porém… Fraco. A superioridade, nesse caso, é humana. Nós, fãs de ficção, não estamos acostumados com isso, e é um sacada brilhante.

Raigho: O Araragi é 1/9 vampiro mas completamente inapto, ah, os gracejos. Me lembrou o Subaru de Re:zero, invocado para outro mundo e não tem nenhum grande poder até o momento. Frisando esse momento. O Oshino é quem com todo o conhecimento guia o Araragi no começo, esclarecendo algumas coisas e ajudando em outras, até mesmo ele parte e deixa tudo nas mãos do protagonista. Mas na grande crise de monstros, humanos e ressurreições, ele precisa retornar o mais depressa possível para ajudar todos os envolvidos. A inteligência e conhecimento prevalecem sobre os monstros. E já que estamos mencionando tanto a Hanekawa, ela mesma é o exemplo máximo do que acontece quando a inteligência/sagacidade encontram uma aberração. Black Hanekawa. Inferior se olharmos o “poder”, mas imbatível na técnica. Até o mais fraco dos monstros é capaz de ascender. Eu sinto que a todo instante o Nisio tenta conectar essas ideias ou mostrar que monstros só são “monstruosos” por impressão pessoal. Naquele velho caso dele dizer “ah, vocês podem me chamar de gênio, mas não quer dizer que eu seja um.”

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Marcela: E, infelizmente, temos que falar da parte ruim dos monstros. Falamos das capacidades, habilidades de orquestrar verdadeiras sinfonias de acontecimentos e de enganar até a si mesmo. Como você falou no começo, Raigho, a que ponto temos que chegar pra desejar que um monstro sobrenatural exista para nos salvar do monstro que é o ser humano? Volto para o caso Sodachi, que é um dos mais recentes. Não canso de dizer que o arco da Sodachi não tem absolutamente NADA de sobrenatural nele. O único kaii que você tem é o Araragi (hehehe) e, se considerar, a Hanekawa, por ter absorvido suas irmãzinhas e etc. Mas tudo aquilo que aconteceu com a Sodachi, o que aconteceu com a mãe, o pai, a destruição da sua família e a criação do seu caráter foi provocado por seres humanos – não monstros sobrenaturais, monstros… Naturais. Seus pais e até o Araragi, por esquecer “do que ele é feito”. E esse não é o único caso.

Raigho: Com essa discussão e o ponto da Marcela agora, não pretendemos chegar um ponto de resposta ou qualquer coisa do tipo, é a pura discussão a respeito de pontos levantados na série ou a forma como essas características surgem em Monogatari. Sim, os humanos podem e são destrutivos. A Hachikuji que é quase coagida a esse destino, saindo escondida de casa pra ver a mãe. A Kanbaru que praticamente mata um colega ao desejar aquilo para a pata do macaco (demônio). Os monstros são… como eu poderia dizer… ferramentas para as pessoas. Eles existem porque são observados e povoam o imaginário. Somos nós, humanos, que interferimos com eles na maiorias dos casos. Claro, temos a vampira e vários outros que não são iguais aos demais, mas os humanos sempre causam alguma complicação. É mais por esse questionamento.

Marcela: Definitivamente. Essa discussão surgiu porque é um ponto interessante a ser explorado. Obras de ficção geralmente tendem a focar no sobrenatural, já que é algo estranho para nós. Monogatari gosta de se balancear entre os dois mundos – tanto no sobrenatural, esse de “outro mundo” quanto o sobrenatural da nossa própria realidade, que são os seres humanos. Fazendo um paralelo rápido, é como se Monogatari fosse um pouco mais parecido com “O Iluminado” versão livro, do Stephen King, do que a versão filme do Kubrick. O livro tem um quê de entidades, mas o principal motor ali é a vontade humana, seu egoísmo, sua tenacidade. Perfeitamente como o Raigho disse: os monstros são ferramentas da nossa vontade, inclusive para o mal. Até para o mal que sofremos, somos nós mesmos que o provocamos – vide Senjougahara e seu caranguejo, Kanbaru e a “pata do macaco”… Afinal, até a Kanbaru! Na luta contra o Araragi, ele percebe que não apenas o demônio tentando realizar a vontade da Kanbaru estava o atacando, assim como ela própria. Todos ali são capazes de cometer algum “mal”, e isso que é mágico. Monogatari é um grande cinza moral.

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Raigho: Olha só, a referência literária foi sua hoje! É um dia inspirador, sua presença certamente me inspira um pouco mais. O que é justiça? Araragi Koyomi desaba sob o peso disso, do ideal absoluto onde tudo é preto e branco. Os monstros são os errados? O caranguejo tirou o peso da Gahara? Tirou. Mas ela pediu. Todas as pessoas e monstros se encontram mutuamente. É incrível, cada vez que penso nesse aspecto e muitos outros, em digressões e conversas “que nunca serão feitas”, monogatari me soa crível. Seja pela parte cinza da moral, como você bem colocou, por ações, reações, amadurecimento e o papel dos monstros. Peço, ó deusa divina, Marcela dos Gatos, encerre com uma última palavra fé.

Marcela: Symphogear.

Raigho: …era melhor ter deixado quieto. Tschüss.

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4 thoughts on “Papo Gatari #15 – Bestas e Humanos

  1. Sempre que eu venho aqui me impressiono na habilidade de escrita de vocês.
    Na verdade é o contrário nós que pedimos para vocês não desistirem de nós.
    Parabéns ótimo conteúdo!!!

    • Agradecemos o carinho, John! Se algum post nosso desperta uma ideia ou algum sentimento em vocês, é mais do que gratificante.

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