Re: Kizumonogatari

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Quando você passa tempo demais encarando um quadro, ele ganha diversos contornos. Particularmente não sei apreciar obras de arte, não sei se tenho traquejo para isso, sendo sincero. Monogatari é um nome que quando eu pronuncio, já ganha contornos, imagens, ideias, pensamentos. Ironicamente ou não, faz três anos desde que fiz a resenha de Kizumonogatari e isso aconteceu justamente enquanto relia a obra pela terceira vez.

É possível que seja um sinal divino. 33. 3 anos, terceira vez. 33. Um par auspicioso.

Imagine, por um breve tempo, que eu e você estamos presos em uma sala de aula. Aquela mesma onde nossa amiga prendeu o Araragi. Visualize que somente nós estamos nela. O relógio está congelado. Embaixo da sua mesa está um volume de Kizumonogatari. A decisão de abri-lo é inteiramente sua. Agora, o que aconteceria se eu propusesse o seguinte desafio de relermos Kizu? Mais do que reler, reinterpretar, observar os pontos, as nuances, tudo.

Sem limite de tempo.

Valendo.

Fazer amigos diminuiria a minha intensidade como ser humano

Araragi, com o A sendo escrito com o radical esquerdo de ‘montanha’ associado ao primeiro caractere de ‘possibilidade’, os dois ‘ra’ escritos com o ‘bom’ de ‘bom  garoto’, e o ‘gi’ seria o mesmo de ‘árvore’. E o nome ‘Koyomi’ carrega o caractere de ‘calendário’, certo? Então, Koyomi Araragi.

-Hanekawa Tsubasa

 

Como alguém que está superando diariamente essa fase intitulada de “aborrescência” consigo entender um problema grave chamado “autoconsciência”. Da própria aparência, na forma de andar, na forma que o mundo me interpreta, nos pensamentos, nos desejos, ah. Araragi Koyomi encontra-se nessa mesma idade. Um garoto extremamente autoconsciente de si mesmo e do valor dele na história do ferimento que será aberto em todos os seus (poucos) entes queridos.

Araragi está visivelmente nervoso, ansioso para contar o que se passou com ele. Ele não sabe muito bem como narrar o que houve, irônico se formos pensar em tudo o que ele vai nos contar, mas tenhamos calma, a primeira vez é sempre a mais difícil. É o que dizem. Ele diz que essa história não poderia ter acontecido com outra pessoa, que a sua “má sorte” nem poderia justificar coisa alguma, a história aconteceu com ele porque tinha de acontecer.

Soa diferente daquele garoto que afirma não ser o “rei” no tabuleiro de shogi ou é apenas mudança de interpretação? Percebam como o palíndromo começa a estabelecer características. Autoconsciente. Nervoso. Afirma inclusive que ele narra apenas a sua visão dos fatos e que jamais terá compreensão total do que aquelas duas semanas podem ter significado em sua inteireza. Um jovem tão focado em si mesmo, que é incapaz de notar o que se passa.

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Ah, guarde essa peça que está na sua mão, coloque no bolso ou onde quiser, retomamos ela daqui um pouco. Imagino que pelas palavras de Nisio ele não tinha planos (sinceros) de continuar Monogatari Series, provavelmente encerraria tudo com Nisemonogatari ou quem sabe Neko (Kuro). Claro que Akiyuki Shinbo cruzaria seu caminho e criaria o NIMBO. Mas vamos deixar esse caminho de lado e observar apenas o lado do autor, eram apenas quatro histórias ensimesmadas, sem necessariamente um desenlace maior, elas são contadas e se encerram nelas mesmas.

A segunda e terceira temporadas são gêmeas, o cordão umbilical delas não pode ser cortado, o parto delas foi bem complicado e tudo indica que elas tem de permanecerem unidas. Mas a primogênita não. 3. A primogênita sempre conseguiu se virar sozinha e o pai cuidou dela para que funcionasse assim, contudo, inevitavelmente vieram as gêmeas (inspiradas pelo NIMBO) e, aqui entre nós, o papai decidiu que deveria criar as gêmeas com certas ideias da primogênita.

Hanekawa briga com Araragi e diz se ele pretendia viver pela eternidade ou o quê. O texto por si só invoca a piada sobre vampiros serem imortais e tudo o que estava por acontecer, mas ganha uma ideia ainda mais forte já em Nisemonogatari, com todo o dilema intenso na conversa com a Shinobu a respeito de viver eternamente. Caminhemos pela sala. Ela (Heartunderblade) apresenta seu histórico de 400 anos e afirma ter tido apenas um servo, o define como um samurai e aparenta sentir muito pesar por nunca tê-lo compreendido.

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Owarimonogatari, segundo volume. Seishirou Shishirui. Ela menciona também que inclusive foi convidada a se tornar uma divindade, mas recusou. Onimonogatari. Diz que foi visitar o Japão quase como turista, visitar o Monte Fuji, assim que o Araragi ouve isso ele estranha, pensando que o tal local nem era perto daquela cidade suburbana. Uma história para ocultar o verdadeiro intuito, mas por que o Japão? Owarimonogatari, ainda no segundo volume, Gaen Izuko dizendo que isso foi instintivo, ela perseguia o seu primeiro servo.

A lista de referências é bem longa, mas acho que está de bom tamanho. Nós temos duas possibilidades nesse momento, aceitar que o Nisio é uma espécie de ser que transcendeu e concebeu 20 volumes de história em sua cabeça ou… que ele é extremamente habilidoso, mantendo cada comentário/ideia fixa em seu devido lugar. Cada um desses trechos de Kizu não soa como um ponta solta, a maioria é algo que realça a transcendência de Kisshot. Uma vampira? Um Deus? Servo? Espada? Como não se encantar por esta aberração.

Sim, aberração (kaii). Segundo o dicionário, aberração é uma palavra que pode ser entendida como “extravagância de conceito, desordem, desarranjo”. Inclusive o autor tem muito cuidado em separar yokais de aberrações.  Uma aberração não é um yokai, mas um yokai pode ser uma aberração. Heartunderblade transcende. Ela é maior que a própria história. Esses detalhes só realçam isso. Entretanto, quando são retomados separadamente, se transformam em contos épicos. Ouvir Maaya Sakamoto narrar por 24 minutos a história de como Kisshot quase se tornou um Deus é algo divino por si só.

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Detalhes mínimos se transformam em eventos inimagináveis. Nisio diz que se escreveu Bakemonogatari 100% para satisfação própria, Kizu foi com 105%. Ele escreve bem, detalhado, estabelecendo tudo, porque muito mais do que querer satisfazer o leitor, deseja satisfazer o próprio ego, o próprio desejo de uma história bem escrita. Ah sim, a peça que você guardou, pegue-a e vamos aproveitar os detalhes para olhá-la mais uma vez.

Durante Kizu o próprio Koyomi questiona onde foi que ele falhou, em que ponto da vida ele se tornou o que era. As indagações que podem servir como aproximação se encerram ali, pequenos comentários, mas não é aprofundado. Agora, como ele justifica isso em Owarimonogatari, volume 1? Como o inquebrantável justifica o esquecimento de Oikura Sodachi? Não justifica. Ele nunca esqueceu. Ele era tão autoconsciente do evento, que se tornou algo impresso em carne. Por isso nunca pensou no evento, pois era internalizado. Autoconsciente.

Podemos delirar ainda mais, pense no que a frase “intensidade” insinua. Ele não vai “deixar” de ser humano, mas perder a intensidade. A inteireza. Estaria essa ideia ligado ao senso de justiça estilhaçado dele? Nisio teria, em algum nível, já vislumbrado o incidente que moldou o protagonista? Separadamente é só uma frase clichê, o adolescente revoltado com o mundo, mas unido ao todo…

As características das personagens permanecem. Afirmo que as pessoas se solidarizariam muito mais com a Hanekawa se conhecessem Kizumonogatari. Não, minto, provavelmente ficariam ainda mais enojados com a aura dela. A Hanekawa justifica o ato de ajudar o Araragi como “auto-satisfação.” A garota que têm asas transcendentais buscava a existência que tinha transcendido o reino dos homens, Araragi se torna a resposta. Ela o ajudou por ajudar. Não tinha sentimento algum nisso, era o capricho de um gato.

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O traço que mais enoja Oshino Meme a respeito da Hanekawa é justamente aquilo que vai enojar o gato. Ser salvo, mas não por piedade, mas pela ideia profana de que ela tinha de ajudar. Não é altruísmo, nem egoísmo, é o vazio. Ver ela criando um senso de “eu”, gritando, desejando a morte dos pais e, por fim, o ódio queimando é belo, poético. Certamente as pessoas gostariam mais dela. Não estou sendo irônico. As pessoas se solidarizam pela dor. Nada como ver alguém sofrendo para despertar um desejozinho de bondade.

Araragi Koyomi oferece a própria vida a Heartunderblade ao vê-la chorando, implorando, dizendo que não queria morrer ainda. Ele esquece a própria natureza da aberração, um ser que devora homens, simplesmente porque é um bom garoto, gentil. Seria Araragi uma espécie de Édipo? Um “herói” da Grécia antiga, onde a própria desgraça se estabelece no começo e é causado pelo próprio personagem? Ele mesmo afirma ser o destinado. Questões.

O período de tempo mais aterrador na vida do Araragi acontece durante as férias.

Entre o segundo e o terceiro ano do ensino médio.

Entre.

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O Nada. No momento em que ele não é nem uma coisa, nem outra, se envolve com seres acima da humanidade. O próprio protagonista diz que naquele momento a Hanekawa não é presidente de classe, porque eles estão no meio das férias. Koyomi passa a história inteira caminhando entre o senso comum do ser humano e o inalcançável vampiresco, inclusive ele se salva em uma situação quando pensa como humano, usando os poderes de vampiro. O meio parece ser uma espécie de resposta.

Um momento em particular o Araragi pensa que o Oshino poderia esclarecer algumas dúvidas, porque ele era o intermediário das batalhas, ele não era nenhum dos lados, a lógica dele segue e é cortada rapidamente por um travessão. Existe uma linguagem própria na ideia de que o equilíbrio seria a chave ou resposta de algo. Monogatari não é essa essência? Araragi Koyomi gritando, chorando, vendo as pessoas ao seu redor transitarem entre a bestialidade e a humanidade?

Expondo com uma luz mais forte essa ferida, os humanos desde o começo demonstram serem bestiais. Guillotine Cutter, dos 3 adversários, é o único humano e coincidentemente utiliza de métodos escusos para tentar vencer o vampiro. Os humanos sempre são as verdadeiras aberrações. Em Kizumonogatari essa ideia aparece levemente, mas pensando no conjunto da obra, ganha muito mais força. O arco da Sodachi provavelmente é a minha evidência mais poderosa.

Nos instantes finais dos eventos ali narrados o Araragi busca um final feliz ou pelo menos algo que não os deixe infelizes. Oshino diz que só pode conceder um final onde todos serão miseráveis, onde a dor de tudo isso será divida de forma igual e o desejo de todos os presentes será absolutamente negado.

Araragi diz que não sabe onde esses eventos começaram, levaram ou se até mesmo estão terminados, ele simplesmente narra. Conta. Mantém o rumor vivo, pois é só assim que a história (Monogatari) pode viver.

De forma miserável, mas viva.

arvore

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9 thoughts on “Re: Kizumonogatari

  1. Olha, sendo sincero, eu queria ter um quarto da habilidade com as palavras que você tem. A maneira com que você expressa suas impressões sobre tudo em Monogatari é tão bonita. E como você também escreve sobre visual novel, imagino como seria uma resenha sua sobre Subarashiki Hibi…

    • Obrigado, é o melhor elogio que alguém poderia me fazer. Os posts de VN são meus momentos solitários quase, hahaha. Se alguém os lê já fico feliz. Ah, SubaHibi, o kamige… estou ansioso para algum dia poder ler ela.

      • Ser solitário nessa questão faz parte, já que ler coisas que são de nicho dentro de nicho não garante que você vai ter alguém para conversar sobre o assunto. Sobre SubaHibi, tem notícias de uma localização oficial para o inglês vindo por aí. Eu li (aka. tentativas de decifrar as moonrunes + partes que aparentemente não fazem sentido) até o fim do segundo capítulo esses dias, vou deixar o resto para ler nas minhas férias, porque dá trabalho demais.

  2. Eu achei bem interesante,Você tem noticias sobre o novo filme?queria ver ele online =v
    Eu adoro seus posts,não demore mais para postar como você(s) fazem D=
    Fico triste,entrar nesse blog e uma diversão muito grande para min,espero que aqui seja mais ativo okay?
    Pelo o que eu entendi,eu acho que o koyomi vai sofrer bastante por ser imortal,ninguem é perfeito,nem 100 % correto,a justiça nem sempre e a mesma que eu ou você vê,isso e o que faz monogatari ser legal,historias boas,contexto bom,o nisio é uma pessoa muito boa para fazer esse tipo de coisa,ele consegue te envolver em um universo carismático,que não é muito meloso,com um enredo excelente,e muito bom de se ler.
    Nossa,Escrevi bastante O.o
    Obrigado quem leu até aqui
    =D

    • O filme só será lançado em julho, no blu-ray, depois veremos como funciona ou se alguém vai querer legendar.
      Eu e a Macchan tentamos manter um certo “ritmo”, mas não é fácil, Monogatari é um assunto complicado, além de gostarmos de montar algo mais elaborado. Um post mais “denso” sobre Kizumonogatari como esse, por exemplo, demora a tomar forma. Pedimos paciência, se conseguirmos, vamos tentar manter o ritmo.
      Nós agradecemos o carinho.

  3. Com relação ao filme,para quem não esta sabendo,saiu o teaser da segunda parte do kizumonogatari,nekketsu-hen(so pra quem tiver curioso)
    Voce,lupus, tem um grande talento pra escrever e muito esforço para sempre estar fazendo postagens de alto nivel

  4. Pingback: Kizumonogatari I – Comentários Burlescos – OtomeGatari

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