Kara no Shoujo 2 – “Reminiscências”

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Eis o retorno da garota.

Memória é algo engraçado. Você se lembra de alguma cena com afeto, uma conversa, um livro, uma história e possivelmente esse objeto na sua lembrança não seja ou tenha o valor original. Nós temos o hábito de aumentarmos o sentimento, gravarmos uma cena com impacto maior ou alterá-la completamente, mas ela permanece ali, cravada.

Confesso ter um sério problema de querer reavaliar livros que li quando mais novo com os meus valores atuais, isso se torna muito problemático. Aquela obra tinha mesmo aquele valor? A resenha que fiz no calor do momento representa o valor real da obra? Enquanto lia Kara no Shoujo 2 as memórias de KnS1 retornaram e esse confronto de memória/realidade ocorreu mais uma vez.

Possivelmente também é uma análise sobre como as memórias são enganosas.

Recordare

Dois anos atrás falei sobre KnS1, minha experiência na época com Visual Novels era bem recente e hoje creio estar mais apto a falar sobre elas. A recordações que tenho a respeito dessa série são muito emblemáticas, lembro do horror das mortes, os incontáveis Bad Endings, os finais e, ah, o pássaro azul.

Kara no Shoujo 2 foi o retorno triunfal da série, o tom é mais maduro e o enredo convoluto; a história é retomada dois anos depois do primeiro jogo da série, Toko desaparecida, Katsuragi Shin em fuga e o detetive Tokisaka Reiji com sua obsessão ainda maior para encontrá-los, algo que por sinal é um dos elementos mais interessantes na nova história.

O Reiji criou uma obsessão doentia pela Toko, ele precisa descobrir o paradeiro e enterrar seus fantasmas, mas tudo parece envolto em trevas. E para contrastar com ele, um novo protagonista chamado Masaki Tomoyuki surge, salvo no último instante pela irmã (Tokisaka Yukari) do detetive Reiji, o encontro deles é o que começa aos poucos a mover a trama.

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Assim como a obra anterior tinha muitas menções a Divina Comédia de Dante, aqui ela retorna dividindo os capítulos do jogo. Cada círculo do inferno vai marcar longos trechos da narrativa e, quando eles são compreendido ao final, é perceptível o cuidado que tiveram ao estabelecer essas divisões.

Grande parte do começo da história é um longo flashback de personagens completamente novos, no período pré-guerra, em um assentamento chamado de “Hitogata”. A história dessas pessoas é o que vai ser trabalhado ao longo do jogo inteiro, o que já mostra um peso maior, visto que um longo caso será a base dos novos eventos.

Quando comparo a primeira e a segunda obra da série sou obrigado a reconhecer algumas coisas, a primeira e primordial é que a história de Kara no Shoujo 1 é uma colcha de retalhos que funcionou, um pouco “esquizofrênica” em alguns pontos, verdade, mas que decididamente deixa sua marca. A segunda é que o primeiro jogo deixa muito a desejar.

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Talvez eu esteja me retratando pelo o que eu disse a respeito de KnS1, mas não gostaria que soasse ao todo dessa forma. Mas o segundo jogo da série é superior em muitos aspectos, nos personagens, nos finais, na forma e a intenção como o mistério é contado, enfim, foram ótimos cinco anos de amadurecimento entre a KnS1/KnS2.

As seções de investigação estão mais interessantes e induzem o jogador a errar menos, um dos principais problemas do jogo anterior era a quantidade estúpida de Bad Endings, agora a quantidade deles é bem menor e mais fácil de ser controlada, diria que o foco está mais nas decisões psicológicas e na forma que isso altera os personagens, ao invés do impacto gráfico que é muito forte no primeiro jogo.

As mortes nesta continuação continuam intensa e muito bem detalhadas. KnS1 estabelecia uma relação entre arte e morte, a todo instante ela era exaltada pelo assassino como algo belo, como se a morte fosse o caminho pleno até a morte. KnS2 compreende e usa no enredo a morte como algo ritualístico, existe uma forma de ser executado, um motivo ancestral e toques de paranormalidade.

O paranormal é um elemento muito forte motivado também pela crença cega dos moradores do vilarejo Hitogata na famigerada “Maldição de Hinna-sama”. O grande momento é sem dúvida o confronto entre ceticismo e folclore, o detetive precisa provar que foram mãos humanas as perpetradoras do ato hediondo, mas o racional também titubeia diante dessa aparente maldição.

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Não só o paranormal surge, mas o dito religioso também ganha novos contornos e se confunde com esse dito “paranormal” que é tanto questionado pelos protagonistas. É instigante como o enredo deixa tudo em aberto por muito tempo, a todo instante o jogador precisa indagar se não é uma loucura ou ilusão coletiva, se o próprio Reiji não deveria aceitar a situação, poucas obras me deixaram assim.

Se me permitem um comentário rápido, Kara no Shoujo 2 se aceita tanto como uma legítima história detetivesca, que existe até a deliciosa cena de todos se reunirem em um cômodo e o mistério ser esclarecido. É soberbo. Mas além do Reiji/Masaki buscarem respostas, confrontarem seus respectivos passados, algo em tom diferente da obra se desenvolve de forma sutil.

Hitogata, Toko, essas partes são muito bem desenvolvidas, mas temos também muitas cenas escolares. E não, o Reiji não volta a se passar por professor. No caso essas cenas são a Yukari com suas amigas Kohane e Yukiko, inicialmente me soou estranho essas interações entre elas, mas conforme a história se aproximava do clímax, confesso ter esboçado um sorriso de satisfação.

É um jogo que brinca muito com as possibilidades da memória e causa uma confusão proposital em momentos específicos da trama. Um deles é o leitmotiv de KnS1 ser semelhante ao de outro personagem dessa trama. Toko buscava o verdadeiro eu dela e esse personagem também quer algo semelhante, mas a finalidade é muito diferente.

ss+(2016-04-10+at+06.17.42)

“Eu me unirei a você… e serei completx.”

O idílico colégio Ouba e o opressivo vilarejo Hitogata causam sentimentos estranhos agora que paro para refletir sobre a construção do enredo desde o começo, os pequenos diálogos, as pontas que começam a se conectar novamente, o desespero diante da única e cruel verdade, Reiji, Masaki, tudo.

Satisfação é uma palavra boa para definir a sensação de ler Kara no Shoujo 2, mas não acho que é o termo exato para expressar o que senti ao fim. É o sentimento de sentir seu peito cheio de algo muito forte, um sentimento agridoce, que faz com que eu rememore esse jogo já sorrindo, embora faça apenas poucos dias que eu o tenha terminado.

É possível que no inevitável Kara no Shoujo 3 minha opinião mude a respeito desse jogo, afinal, estou colocando minha memória a prova sempre. Não importa, mesmo se eu mudar, mesmo se minha visão mudar, gravo essas palavras para não me esquecer do que senti ao ler a jornada de Dante, de Reiji.

A conclusão do pássaro azul trará não só a paz consigo, mas também fará com que Tokisaka Reiji supere os sete círculos do inferno e descubra algo ainda pior.

ss+(2016-04-18+at+07.54.04)

Reiji: “Você não é capaz de expor o segredo de outras pessoas sem ser um pouco cruel. Esse é o meu trabalho.”

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