Dokusha no Monogatari #02 – “NIMBO”

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Ah, o intrínseco.

Depois do texto do Marcelo recebemos mais algumas coisas, o texto menor que recebemos vamos compilar com alguns outros de mesmo tamanho (se/quando eles chegarem), hoje então lanço o texto da instigante Damares Pinheiro, leitora assídua aqui do Otome. Um texto que confesso ter achado bem denso e complicado no primeiro momento, mas que flui melhor na releitura e compreensão dele.

Nimbo

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Saichou ao fundar a escola budista Tendai Daishi postulou a seguinte fórmula “homem e doutrina são igualmente incognoscíveis” (nimbô-gu-fu-chi). Este entendimento tem por base o fato de que um ensinamento é apercebido diferenciadamente quando ouvido, pois os ouvintes são diferentes em si mesmos; mas e quando o que se quer ensinar são coisas distintas a um mesmo público e sem que estes tenham consciência de tais ensinamentos, é possível? Sim. É aqui que transita minha escrita, em um dos “Quatro Ensinos do Método” dos “Oito Ensinamentos de Buda” (1): o Himitsukyo. O Segredo que só Buda compreende.

Tão ou mais impressionante que a Teoria Abrâmica do Segredo tecida por Derrida, vez que tal teoria cruza horizontal, o segredo guardado por Abraão a sua família, e verticalmente, o segredo guardado entre Abraão e Deus, a teoria que se intenta aqui transita a ontologia da volição secretícia “de Deus”, e segredada nas instâncias narro-imagéticas entre NisioIsin e Shinbo (Simbo) – que apelidei de Nimbo.

No livro “A Classificação do Budismo” (2), de Bruno Petzold, O Método Secreto consiste em consignar vários ensinamentos em um e ao mesmo tempo desde que cabível a um público formado de variadas pessoas em suas capacidades perceptivas, isto porque o cerne é o desejo insatisfeito de manter longe do outro o segredo direcionado a um; e o modus é como uma capa de dissimulação posta em cada pessoa para que seja removida da presença das outras. Esta capa de dissimulação, em realidade, não é posta, é aproveitada, pois ela já está ali (3), na pele e no ser em como se percebe em relação a pele e ser do outro.

Assim, Nisio quando dos variados narradores a estes segreda em instâncias que somente o narrador da vez é capaz de receber, perceber, compreender e “querer dizer” o segredado a ele, o que Shinbo desvela em cada arco distorcendo o ambiente ao redor do narrador, mas sem deixar de externar o ambiente interno deste. Todavia, os ensinamentos, ou cadência narrativa, mesmo que em tons, movimentos e até (in)sucessões divergentes convergem-se ciclicamente em um Monogatari.

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Esta capacidade perceptível não é singular, mas justamente o infortúnio de não escapar-se dela. Tornar vários ensinamentos em um só e a ser dado no mesmo instante para pessoas de percepções distintas, mas a todas se fazer compreender é uma tarefa que implica a existência de uma personagem-chave, Gaen Izuko, aquela que entrelaça os signos em um sentido, ainda que seja o seu, é assim porque é correto a si, o correto. E o correto tange o ethos literário de Nisio.

É interessante pontuar que Buda não possuía como público apenas humanos, mas seres de aparência humana e inumanos em aparência, além de vários mundos. É por isso que era preciso isolar o ouvinte dos outros, porque seguir o Go-ji restringiria o trabalho de salvação sussurrada. O Himitsukyo é uma tarefa de dupla- isolação, isolamento do outro igual e não igual e do mundo, ou seja, isola-se de toda e qualquer influência, portanto, caminho livre no ser. O mesmo aqui para Nisio com seus personagens humanos e inumanos e o caminho que leva Koyomi (e os outros) a isolar-se. Por isso “ninguém pode ser salvo, mas pode salvar-se”.

O ethos literário de Nisio funciona como uma catábase que inicia-se com Koyomi encontrando e lançando-se sobre a Vampira, já com Shinbo a catábase é invertida e começa exatamente com Koyomi subindo a escadaria em caracol, recebendo em seus braços o Caranguejo. Cada arco infernal, doloroso, são como portas pesadas e ranhosas que se abrem num estalo. Tudo mutila e todos mutilam o personagem que de certa forma é o favorito de Nisio, não por ser principal, pois Nisio põe outros a narrar, mas porque Koyomi narra detalhadamente beirando a chatice de um calendário. Tudo não passa de logro e com êxito. E por isso Ougi vai surgindo, como cética à mensagem que ouve, vai devorando cada palavra, cada linguagem verbo-corporal decodificando na investigação que lhe intriga. No “querer dizer” derridiano Ougi instiga o “você quer dizer, então, diga, sem se passar de desentendido”.

Lembra da pele, a pele que percebe, ela percebe, mas nem tudo que é percebido é realmente interessante à percepção e por isso é ignorado. O caminho quer levar à confiança em si, autonomia, por isso tantos desmembramentos de Oshino, tantos “caminhos” de ser – da Resistência, do Altruísmo, dos Planos Secretos e da própria dúvida em Mistério. O ethos está ligado à memória, força-se a todo momento o contar, o rememorar – essa maravilha platônica. As outras narradoras são as portas e instâncias do ser no caminho de iluminar-se. É preciso encarar o presente (Tsubasa) e o passado (Senjougahara), o fato de estar perdido (Mayoi), do desejo e carência (Sengoku), do fogo da justiça (Karen e Tsukihi), os caminhos de Deus (Kanbaru) e a humanização cotangente (Yotsugi).

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A proposta filosófica de Nisio é a essência do ser e a sua ontologia são os vários contos sobre a interação humana com os kaiis. Poder-se-ia dizer tratar-se da inteiração entre o humano e as crenças (o que fica muito claro no primeiro episódio de Koyomimonogatari). Há desvelamentos acerca da crença e no mundo de Monogatari crer é poder. E dessa relação estranha entre kaiis e humanos há algo muito peculiar, a identidade de fármaco dos kaiis, eles são o veneno e remédio do humano. Iniciam-se como signos (caso Hitagi) e tornam-se parte do ser (caso Hanekawa). O mistério que se dá na ausência de cossecante da formação triangular – secante (Yozuru) e cotangente (Yotsugi). O ponto ou arma que falta nessa relação é cognato numérico perfurante (4): o Estranho deídico.

Voltando ao Segredo (5), a era medieval japonesa teve um período de cultura secretícia budista, principalmente na era Tokugawa, onde utilizando-se de hermenêutica separava-se o que era segredo sacro do que não era culminando na associação das próprias palavras Segredo e Falso. Assemelha-se a busca entre fatos (fenômenos/ocorrências) de kaiis e apenas “historinhas” que os coletores da Gaenn estão atrás. A confusão entre segredo, que tange uma Verdade, e falsidade reside na fala, discurso, a partir do momento em que o segredo compreende o ocultado revela- se insincero, portanto, mentira. A necessidade de destruição dessas falsidades acontece por conta do isolamento, o segredo isola e se isola separa a sociedade, a destrói, portanto, é preciso destruir aquilo que segrega – o segredo. Isso lembra das éticas do trio Oshino Meme, Yozuro e Kaiki sobre o que cada um concebe dos kaiis. Aliás, a compreensão de Kaiki é por demais interessante porque tange uma derivação instanciada de segredo que é o termo denso/concentrado, ou seja, o falso é mais real que o verdadeiro porque é mais denso – tem de ser mais denso que o verdadeiro.

A manipulação de “palavras mágicas” sejam escritas ou suspiradas possui equivalência metafórica do poder de um rei; e a crença seja pública ou a um grupo específico que a conhece permite uma “democratização” do poder real. É nesse contexto do Secreto que surge a Estranheza, a inexistência do dual senciente e não- senciente, os “budas escondidos” – hibutsu.

A prática deste Segredo derivada da escola hindu Vajrayana torna-se conhecida no Japão pela escola Shingon, “Palavra Verdadeira”, é a possibilidade de observar a austeridade do ponto da morte que se dá pela auto-mumificação. Era crucial ao monge ser versado em prosa clássica, caligrafia e nos próprios textos budistas. Esta escola crê que todo fenômeno pode ser expressado em uma “letra”, os mantras, mandalas e mudras são a linguagem na qual a Realidade se comunica, utilizam de metáforas antropomórficas onde Buda não é um deus ou criador, uma deidade separada, mas um Símbolo da Verdadeira Natureza e a representação do Nada (Ougi). Portanto, há um Buda Primordial do qual todo fenômeno deriva (6).

Esta é a ethos literária de Nisio, o Signo, A Palavra, As Sílabas-Sementes, que será narrada imageticamente por Shinbo, como o caso de pessoas carregarem apenas o símbolo japonês da mesma. O Segredo tange a profanação. E assim, quem sabe o sorriso de Buda para Nisio seja uma risada batailleana (Káká!!). Tanta coisa para pensar e escrever, por exemplo se eu for atrás das deidades tem uma que come “demônios” (Shinobu canibal). Mas fica aqui este ensaio torto. Resta saber a “moral” que Nisio quer ensinar.

Afinal, se tem algo a qual marca muito o pensar de Koyomi é o agir.

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Notas

  1. Buda deixou Oito Ensinos que se subdividem em Quatro Ensinos do Método, que classificam as formas de conduzir os seres aos referidos ensinamentos e Quatro Ensinos da Doutrina, que classificam o conteúdo dos ensinamentos. Fonte: “Os Ensinamentos proferidos durante toda a vida de Buda Sakyamuni” pdf.
  2. PETZOLD, Bruno. The Classification of Buddhism: Bukkyô Kyôhan. Wiesbaden: Harrassowitz, 1995. p. 233.
  3. Se falo das castas cada uma possui hábito, sinais e signos marcados e cingidos em si mesmos que os fazem distinguir-se das demais.
  4. Uma explicação interessante sobre a etimologia da palavra “Oddity” usada na tradução de Kaii. Vem do nórdico e tem significados variados como triangular, ponto, arma, picada ou perfuração, estranheza, odd
  5. Primeiro e Segundo parágrafo desta página retirados da obra: SCHEID, Bernhard; TEEUWEN, Mark. The Culture os Secrecy in Japanese Religion. Routledge, 2006.
  6. Retirado do wikipedia mesmo: Shingon BuddhismJapan Esoteric Schools
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2 thoughts on “Dokusha no Monogatari #02 – “NIMBO”

  1. Damares de Deus, você quase derreteu meu cérebro com tanta palavra bonita kkk Não que isso seja ruim, muito pelo contrario, quem me dera saber usar tudo isso.
    Mas, sério, eu to sem palavras. Eu nunca tinha pensando muito pelo lado “religioso” das história, e o que cada garota representava. Achei fantástico como você mostrou os caminhos que elas representam.
    Parabéns pelo texto.

  2. Pingback: Re: Kizumonogatari – OtomeGatari

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