A arrogância de um palíndromo

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NisiOisiN.

Sempre admirei Nisio como autor. Suas histórias, seus personagens, seus trejeitos, suas vidas. Confesso que só recentemente tive acesso as Light Novels dele em inglês e lê-las foi um verdadeiro deleite; mas esse não é um post onde declamo minha adoração por ele. Na verdade, sendo bem franco, é sobre uma outra coisa que inconscientemente estive ignorando.

Se é uma madeleine que desperta as memórias de Proust, o que despertou essa ideia, no meu caso, foi uma simples oração: “Escrevi essa história por puro capricho.”

Arrogância.

Talento.

Palíndromo.

Sabiam que ler NisiOisiN de trás pra frente não afeta nada?

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Existe uma arrogância e prepotência em Nisio que fazem os céticos questionarem a fonte disso, em muitos sentidos. Os elementos que utilizei nos meus pensamentos e teorias foram extratextuais, mas certas percepções me ajudaram na compreensão maior do que constitui este autor.

Zaregoto foi lançada em 2000/01 após o Nisio ganhar o Prêmio Mefisto com ela, o sucesso foi estrondoso. Cantam-se os louros e louvores de Zaregoto até hoje, para muitos é a obra máxima do autor, Monogatari nem se compara. Claro, opiniões apenas. Não sei dizer se essa moda de LNs com nomes dantescos surgiu nos anos recentes, mas pensemos por 1 minuto.

Zaregoto. Besteira. No auge dos seus 20 anos, você entra em um concurso e lança uma história que tem como título “besteira”. Notando que a onda recente são os nomes espalhafatosos, esse último quase parece uma afronta. Você escreve uma história sobre gênios, sobre percepções de gênios, sobre percepções a respeito de gênios e a intitula de forma depreciativa.

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É uma besteira. Tem algo a mais nisso. Nisio, ao fim da LN, questiona toda essa ideia sobre o que seriam gênios e diz que, eventualmente, se o chamarem de gênio/disserem que foi uma história genial a dele, é uma coisa puramente subjetiva, visto que gênios não existem. Mas ele puxa isso para si mesmo, de certa forma, ele infere que o leitor de alguma forma vai achar aquele livro genial.

Aos 20 anos ele já acreditava em seu talento, ele sabia de sua própria capacidade. Uma prepotência de NisiOisiN, mas não de quem está atrás dele. Sim, esse nome que tanto adoramos é ficticío. O alterego que escreve essas história é prepotente, o autor é prepotente; mas saber se a pessoa que construiu o palíndromo carrega o mesmo sentimento é impossível de se saber.

Quando penso “Nisio Isin”, eu me refiro ao autor, não a pessoa. É muito fácil compreender os 2 como o mesmo ser, mas creio que não sejam. Tudo o que conheço, deduzo e tento entender, é do palíndromo, não da pessoa. O que vemos é o alterego, não o criador na forma pura. Mas avancemos, o tempo sempre urge quando entramos em divagações.

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Vamos visualizar o palíndromo aos 30 anos. Amadureceu, evoluiu, desconstruiu. Agora o cenário é Monogatari Series, uma história que começa in medias res. Em Zaregoto isso já acontece, fatos anteriores não entram na história, são apenas mencionados em flashbacks ou rápidos diálogos. Mas em Monogatari é desconcertante, pois não temos a mínima explicação de nada, é o autor confiando no talento e carisma de sua história.

O prazer do Nisio é escrever as histórias porque ele quer escrevê-las. Se alguém vai desejar ler isso não importa, ele apenas escreve. E isso é comprovado por textos de Nisemonogatari, onde ele é bastante franco e diz que tirou essa história dos recônditos obscuros da própria mente para se satisfazer. Ele não tem pressa, ele escreve para si mesmo, essa é a literatura de Nisio Isin.

O autor não busca a consagração, ele sabe do próprio talento e vai escrevendo. Ele não apresenta o Araragi ou os valores daquele mundo, aos poucos a história estabelece suas regras (que em nenhum momento são violadas) e por trechos os mistérios são explicados. Isso faz parte do estilo completamente autoral dele, vide Bakemonogatari e a Shinobu encarando o Araragi enviesado, o protagonista nem tenta explicar.

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Mergulhando ainda mais profundamente, os gracejos de Gaen Izuko (personagem de Monogatari) quando ela elogia o Araragi e diz que ele é um “excelente narrador e muito experiente”. O Araragi é o narrador dominante, verdade. Mas quem escreve as histórias que o Araragi narra? É um ode a si mesmo. A Gaen elogia o autor dessas incontáveis crônicas.

A figura misteriosa de Oshino Ougi dizendo de forma relaxada: “Vejo que essas histórias têm incongruências, mas é o meu dever resolvê-las”. De alguma forma, o Nisio explicita que o leitor conhece o estilo da narrativa e que, certamente, ele vai ser capaz de resolver qualquer conflito temporal ou de eventos, pois essa é a graça.

O que encanta em Monogatari Series é a confusão. Soa pedante, mas é verdade. O esforço de entender a sutileza do diálogo, perceber em que momento se passa aquela cena, o que o autor quer dizer com ela e a forma como tudo isso forma uma cadeia de eventos muito maior. A beleza da série é o choque que ela causa e o sorriso nos lábios quando tudo faz sentido na mente do leitor/telespectador.

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Retomando para Zaregoto, o autor cria situações brutais de morte, torturas psicológicas e pura destruição. Ele pinta o cenário com uma força de estarrecer, você quase sente o dever moral de acompanhar a destruição daquelas pessoas. E começa também in medias res, sem explicar a ligação entre Inoji (narrador) e Kunagisa Tomo (Personagem); é uma besteira tão grande, que a série termina sem o nome do protagonista ser revelado.

O Nisio é alguém que brinca com a palavras e o sentido delas, ele é maior que as próprias palavras. Por exemplo, a intitulada “Final Season” de Monogatari Series não encerra coisa alguma. Muitas vezes tomamos a palavra “final” como o encerramento da série. Nesse caso em questão, ele só encerra os principais arcos que envolvem o Araragi, então, de certa forma, ele finaliza algo realmente, mas não o que esperávamos.

Ele, em plena fase final da história, para e escreve repentinamente uma história que envolve 12 crônicas (koyomimonogatari). Por puro capricho. Não importa se o cronograma ou ideia inicial eram só 3 livros, ele vai escrever até que esteja satisfeito, seja lá quantas histórias isso possa significar.

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Rememoro os antigos poetas quando penso no Nisio, ele narra os eventos mais torpes e transforma tudo em um grande teatro. Gaen Izuko caminhando e o céu se alterando conforme ela fala, descrevendo e dizendo que tudo aquilo aconteceu por motivos maiores do que um estúpido garoto que foi mordido por uma vampira.

Conheci NisioisiN pelo mistério de suas histórias, me envolvi pela dor de seus personagens e permaneço ao seu lado pelo prazer inenarrável que é conhecer cada uma de suas histórias. Provavelmente não conheço 1/3 de todo a sua bibliografia, mas invoco seu nome com ardor, com arrogância.

Ler o nome “NisiOisiN” de trás para frente não muda coisa alguma. Ele é um palíndromo. Uma coisa óbvia. Uma piada. Um nome besta. Não importa. Ele não precisa de apresentações, ele, de forma arrogante, vai se apresentar. E nós, leitores, de forma arrogante, vamos segui-lo.

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13 thoughts on “A arrogância de um palíndromo

  1. Sobre a parte da genialidade… Eu também notei que ele gosta de deixar indiretas tanto para ele mesmo, quando para as pessoas que leem. Como você mesmo disse, em Zaregoto ele já explica que genialidade e relativo. Mas se você pegar por exemplo a Medaka, eles sempre dizem que por mais que ela seja extraordinaria, ela não tem noção disso, pq para ela tudo aquilo é o normal, ela apenas faz e pronto… Em katanagatari, a irmã do Shichika, diz que inveja as pessoas que se esforçam…
    Nisio para mim e fácil o melhor autor que conhece, se pudesse( e soube japones) eu já teria lido tudo que ele escreveu

    PS: Como eu nunca reparei que “NisiOisiN” é “NisiOisiN” de tras para frente. Me da até vergonha dizer que sou fã do cara depois dessa

    • Hahahaha, a marca registrada do nosso palíndromo é justamente essa! Mas entendo, é normal. Sim, eu pensei em ir para os lados de Medaka Box, mas fiquei com medo de perder o fio da meada e utilizei mais Zaregoto/Monogatari.

  2. O que mais me prende a Monogatari e às demais obras de NisiOisiN é a sutileza com que ele narra qualquer coisa sem interesse algum, transformando-as em coisas nada sutis e muito interessantes, rs. Os diálogos se iniciam sem que façam sentido algum, e geralmente se encerram da mesma forma, mas algo naquela confusão toda foi leve o suficiente para explodir seus pensamentos e te prender àquele momento de dois (ou mais) personagens. O relacionamento construído entre eles, mesmo que perturbado e caótico, move as histórias através de pensamentos, frases soltas, longos monólogos e diálogos que poderiam ser exaustivos em virtude de seus imensos scripts, mas não o são. Isso me fascina! O cara domina a arte de contar histórias, não dá pra negar. Vai ver é por isso que as pessoas que conhecem um de seus trabalhos com atenção plena se destinam a procurar e digerir todos os demais.
    Excelente texto, mais uma vez. Parabéns ao blog e sucesso!

    • Agradeço o comentário, é muito bom ver as percepções que cada pessoa tem a respeito do Nisio e das obras dele. Ele aborda cada assunto de forma diferente e, ao mesmo tempo, ressoa com coisas anteriores. É fantástico.

    • Eu sempre me lembro de uma frase de Bakuman, onde o protagonista (não lembro os nomes) diz que um verdadeiro escritor consegue transformar o simples fato do protogonista estar tomando café, em algo interessante de se ler. Acho que é bem isso que o Nisio faz, você se prende nos “zaregotos” dele que quase não percebe que está lendo o livro todo de uma vez.

  3. Com essas reflexões, percebi quê não somos nada além de espectadores de um show que extravagante e vividamente acontece …

    …mas, hora, vejam só!
    Esses shows bizarros qua tanto amamos é o mundo dentro da cabeça de NisiOisiN.
    Ele não escreve para uma plateia ou para um leitor, o extremo oposto de todos os escritores e mangakás que fazem isso, pois eles fazem sua arte dedicada ao leitor, quase implorando por atenção…
    Nosso mestre não parece um felino?
    Não importa se estendemos nossas mãos, um felino faz o que quer!
    Excelente texto Raigho, não passo de um quase e admiro quem é algo completo, ou tenta ser!

    • A sua comparação com um felino foi em cheio, Kan. Eu penso justamente nisso. O Nisio não escreve pra agradar alguém, ele escreve quando tem vontade e para ele mesmo, acho que isso faz toda a diferença como autor. A intenção da obra é outra e acaba saindo algo muito bom.

      • Tem uma atmosfera totalmente diferente das outras obras (a maior parte) que querem agradar não é?
        Acho que é por isso que também não é tão conhecido…

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