Sekien no Inganock – “Conto de Fadas”

ss+(2015-11-23+at+05.40.33)Que pessoas encantadoras.

tick-tock-tick

tock

Ao fim desta resenha encontram-se o meu amor e o meu sonho! Sou o lobo, o garoto, aquele que escreve e caminha pela escadaria dourada!

O relógio de prata cromado marca o tempo.

Um minuto?

Não, dois minutos.

Não se ouvem os aplausos.

Diante de nós encontra-se a <Cidade Fantástica>, venham, vamos caminhar por ela. Permitam-se escutar as pessoas na Avenida das Multidões Infinitas, e olhem bem, no meio da multidão serão capazes de perceber aquela dupla.

Sim, a menina de olhos rosados e o doutor que (nunca) chora.

Pessoas Encantadoras

“Sekien no Inganock” faz parte de uma série maior intitulada de “Steampunk” que é escrita por Hikaru Sakurai, todas são lançadas pela Liar-soft. Atualmente a Steampunk Series conta com 6 títulos e cada um deles se passa em locais específicos, por exemplo, Shikkou no Sharnoth se passa em Londres; Inganock é sobre a <Cidade Fantástica> que carrega esse mesmo nome, a cidade é bloqueada do mundo exterior por conta da <Névoa Infinita> que a envolve, se passaram 10 anos desde que o evento conhecido apenas como <Renascimento> aconteceu e causou o surgimento dessa Névoa, qualquer outra informação a respeito da cidade não pode ser encontrada.

Caminhando pelos infinitos andares de Inganock é possível esbarrar com o Doutor Gii, sempre com a mesma expressão neutra, com o mesmo cumprimento de sempre. Ele é o <Doutor Viajante> que utiliza sua ~habilidade especial~ para cuidar das pessoas adoentadas, no entanto, isso pode ser entendido mais como uma compensação por pecados do que por altruísmo. Cabe a você decidir, claro. O Relógio de Prata Cromado que marca o tempo está há 10 anos parado, repetindo os mesmos 2 minutos onde tudo foi perdido, mas quando Gii e a jovem Kia se encontram, o relógio volta a girar.

Soa brega, soa clichê, mas é algo inenarrável quando executado pela Hikaru. Dentro da <Cidade Fantástica> não existem mais contos de fadas, o que é irônico, afinal o encontro dessas duas pessoas é o começo do final desse conto de fadas. Inganock tem como subtítulo “Que pessoas encantadoras/lindas” e essa é a faceta mais importante da obra, a população da cidade. Todas começaram a sofrer mutações e muitas foram mortas nesse processo, a cidade foi infestada por <Criaturas> bestiais e pelas pessoas que se tornaram <Mutantes> com traços animalescos.

ss+(2015-11-23+at+06.32.54)

Urobuchi, Uchikoshi, Ryukishi07, Nasu. Existem muitos nomes que simplesmente não precisam de apresentações, a escrita/desenvolvimento de história deles fala mais que qualquer boa resenha ou crítica. A Hikaru Sakurai é bastante desqualificada em certos meios por um aspecto que é o âmago de sua escrita, a repetição. Segmentos se repetem inúmeras vezes e sempre da mesma forma, a descrição é a mesma, a forma colocada é a mesma, mas em certas ocasiões mudam-se os personagens; a comparação mais prática para “exemplificar” isso é com o anime Shoujo Kakumei Utena.

Faz parte da história, faz parte da ideia a ser passada, faz parte do show. Existe um motivo para que as cenas se repitam em pontos específicos, a autora não se torna mais ou menos habilidosa por usar esse artifício. A subida pela escadaria dourada é uma repetição da vida, dos sacrifícios feitos por aqueles que estão diante dela e desejam subir por seus degraus, tudo ressoa. É uma história que exige certa sensibilidade, ela é fundamentalmente sobre pessoas e a luta que cada uma delas trava dentro de Inganock.

Existe um segmento intitulado de “Vozes Internas” no jogo, é basicamente um minigame que precisa ser feito na ordem certa, onde temos os pensamentos dos personagens e explicações sobre os eventos de Inganock explicados em maiores, são literalmente conversas internas. É muito interessante ver o que os personagens acham da cidade ou sobre a tragédia que a envolveu, normalmente até coisas menores, por exemplo, a Kia se vestindo de enfermeira para ajudar o Gii e o fato dele perceber a sensibilidade dela ao fazer isso.

ss+(2015-11-23+at+06.55.15)

Algo que chama muito a atenção é o estilo artístico da obra e como isso é uma junção perfeita ao clima do enredo. Inganock (obra e cidade) é melancólica, o ar, as pessoas, elas não vivem mais depois da tragédia, somente respiram e transitam pela existência. Assemelha-se a um conto de fadas cheio de gravuras, os personagens e suas formas remetem não só a isso, mas remetem também a algo “teatral”; cada episódio dentro da obra é o palco para essas pessoas se revelarem de forma cruamente encantadora.

Inganock se desenvolve de forma episódica, sempre com o Gii caminhando incessantemente pela cidade inteira com a Kia e descobrindo pequenas histórias aos poucos. As vezes essas histórias são passadas por outras pessoas, pelo louco Randolph, pela felina Ati, pelas gêmeas informantes. Uma vasta gama de personagens variados compõem o cotidiano de Gii, melhor, compõem a <Cidade Fantástica>, as histórias do passado e presente estão sempre ligadas.

Esse é o décimo ano da fábula obscura que se tornou a Cidade de Inganock, o Doutor Gii é uma pequena e mísera parte da cidade como um todo, esses nove anos anteriores carregam histórias fantásticas, a todo instante temos referências a fatos (que para alguém de fora) são desconhecidos, a obra sempre tem o cuidado de explorar alguns eventos anteriores e a forma como eles afetam a cidade até os dias atuais, o segmento das “Vozes Interiores” é muito útil nesses momentos.

ss+(2015-11-26+at+09.05.08)

A melancolia das pessoas, a melancolia do cenário, a melancolia dos contos, tudo remete a algo efêmero. As pessoas (a maioria que não enlouqueceu) não buscam mais resposta e nem conseguem se lembrar do que houve antes do <Renascimento>, existe um branco no passado e a escuridão no futuro, a realidade dolorosa é o que cerca e cerceia as pessoas.

As lutas invisíveis de cada um, a luta do Doutor que não percebe o próprio sofrimento, a Menina que simplesmente luta ao observar, a Gata que luta pelos seus sentimentos, o Grande Príncipe que luta pelos sonhos e amor no topo da escadaria dourada. A sensação de ler essa história não seria possível se não pelas mãos de Hikaru Sakurai. É indescritível descobrir Inganock pelas mãos e vozes de tantas pessoas, de pessoas tão encantadoras.

Sekien no Inganock é o último conto de fadas no qual ninguém acredita.

ss+(2015-12-02+at+04.23.30)

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