Utawarerumono (Visual Novel)

ss+(2015-10-19+at+03.01.46)

Aquele sobre quem as lendas cantam.

Boa parte das “grandes” histórias surgem a partir de uma lenda, profecia ou são apenas destinadas. Nesse caso é um ciclo que está prestes a se repetir. O homem desmemoriado que desperta em uma nova realidade. A menina gentil que lida com as mudanças e o peso de sua escolha. O mundo que está prestes a sofrer alterações.

Utawarerumono é a lenda tomando forma, é ela antes de ser (re)contada.

Utawarerumono – Witsuarunemitea

É dentro de um pesadelo que a história se inicia, gemidos de dor e o despertar em frente a uma jovem com orelhas semelhantes a de um animal marcam os primeiros momentos da narrativa em um mundo pastoril, antigo. O enredo carrega algo bastante indígena, é clara a inspiração do vilarejo onde o protagonista desperta, lenhadores, crianças, um ambiente que remete a paz. O nomeado “Hakuoro” (protagonista) não sabe de onde veio, quem é ou se tinha algum objetivo, ele simplesmente foi encontrado ferido na floresta pela jovem e atenciosa Eruruw. Pensando em retribuir o favor ele aos poucos conhece melhor aqueles moradores e, junto ao leitor, entende melhor os moradores.

O começo não impressiona tanto, verdade, mas Uta não carrega todo o seu potencial no enredo, em muitos casos os personagens é que fazem as situações se sobressaírem. Conhecer esse pequeno vilarejo é uma experiência gratificante, Teoro sempre ralhando com a esposa, a irmã mais nova de Eruruw que se chama Aruruw, a anciã Tuskur, Oboro e sua irmã, Yuzuha, esses e muitos outros personagens que recebem o protagonista introduzem bem a história, um ritmo que aos poucos vai acelerando.

Claro que ocorre uma ruptura nessa paz e a lenda começa tomar forma, uma vingança, raiva perante a forma como o vilarejo é tratado pelo lorde da região, a chama da guerra desperta e é guiada por Hakuoro. Um pouco antes desse ponto é introduzido um sistema diferente nessa VN, ela é um híbrido que contêm elementos de SRPG (Strategy Role-Playing Game), por esse motivo as lutas não são necessariamente narradas, é o jogador que movimente os personagens, batalhando, ganhando níveis, para depois retornar ao andamento normal da história. Não é um sistema particularmente difícil, o jogo é bem prático nesse ponto.

ss+(2015-10-18+at+06.04.18)

Quando não se tem muito contato com esse tipo de jogo soa estranho, mas os elementos se fundem muito bem nesse caso, inclusive nas lutas é possível começar certos diálogos especiais caso determinado personagem (A) ataque (B). Uta é uma VN de 2002 produzida pelo Leaf, então certos elementos aparentemente podem soar datados (o cenário das batalhas, o character design dos personagens), mas ela é convidativa, receptiva nesses aspectos, claro, não é uma espécie de Grisaia no Kajitsu que está no primor, mas existem casos bem piores de VNs desse período.

Uta tem um caso curioso, sua história é encerrada de forma que não aparenta tão fortemente ter continuação, tanto que até ano passado ela estava um pouco esquecida, quando surpreendentemente anunciaram Utawarerumono: Itsuwari no Kamen que é quase uma continuação direta, é sempre bom conhecer a obra anterior antes de (possivelmente) se aventurar na mais recente. E aproveitando gancho de “Kamen”, a máscara de Hakuoro/identidade dele é o principal mistério da obra, um segredo que está ligado ao âmago da história.

A obra ganha camadas e cresce no sentido geral, ela passa de um pequeno vilarejo ao feudo, responsabilidades e deveres recaem sobre os personagens, em certo momento o Hakuoro menciona a mudança na Eruruw: “Você cresceu, mudou bastante…”. O elemento de SRPG não tira o foco da história, o jogo sabe bem intercalar os momentos de conversa e pequenos acontecimentos com as batalhas que também desenvolvem o enredo. Por mais que aparente clichês (sem demérito), esse é uma das coisas mais divertidas no jogo, ver a Aruruw se escondendo, os personagens ficando bêbados, o entrosamento entre todos eles é sem dúvidas pleno.

ss+(2015-10-21+at+07.57.53)

Talvez tenha-se a impressão de que Uta fica apenas nesse esquema “vilão escadinha”, derrota um fraco, surge o forte, derrota esse forte, surge um mais forte ainda e, realmente, acontece um pouco disso, mas retomando o que disse alguns parágrafos acima, a força está nos personagens. A VN tem diversos arcos/momentos em que se foca no drama de um personagem em particular, sempre alternando entre o elenco, seja no momento em que eles estão para entrar no grupo, dentro do grupo ou guerras pessoais. Certamente é uma história muito guiada pelo carinho do leitor com os personagens, o carisma deles é essencial e fica claro que Uta foi feito com muito esmero nesse sentido.

Embora não seja uma VN longa e isso signifique em casos comuns não ter um enredo muito denso, é surpreendentemente o quão poderoso é o folclore nesse jogo. Por exemplo, temos o Grande Deus (Witsuarunemitea) que fez a Terra segundo certos personagens, conquanto outros carregam uma crença completamente diferente que coloca o “Grande Deus” como o demônio que causou transtornos e destruiu o paraíso, isso causa conflitos intrigantes que aparentam ser apenas curiosidades sem relação direta com o enredo principal. É chocante, pensando na estrutura geral e desfecho da obra, o quão intrinsecamente ligado isso está aos mínimos detalhes.

Em certo ponto da história, alguns elementos bem destoantes são apresentados, não no sentido negativo, mas é bem estranho a primeira aparição desses elementos. Não é extremo como o pulo entre Muv-Luv Extra e Unlimited, contudo é realmente curioso quando ocorre. É como no caso do folclore, faz todo o sentido no final. Um dos grandes méritos de Uta é agregar tantos elementos sem soar que foram inseridos sem cuidados, inclusive, pensando que Uta se transformou em uma trilogia, com certeza soará melhor agora.

ss+(2015-10-18+at+09.43.06)

13 anos separam Utawarerumono 1 do 2, a versão original para computador só tem voz graças a um patch feito a partir da versão para PS2 onde teve a primeira dublagem. Obras como essa carregam um sentimento bem particular, na execução, na trilha sonora e personagens. Uta não se propõe a ser uma obra perfeita, longe disso, mas quando se pensa no um mercado de VNs  que alguns entendem como “estagnado”, é uma leitura com bastante frescor, agradável.

Se tiverem interesse, mas não a paciência, Utawarerumono recebeu uma adaptação em formato anime com 24 episódios, segundo os leitores da VN até que foi uma adaptação bem feita.

Seja na mídia que for, é uma história encantadora.

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