Rose Guns Days – “Omertà”

ss+(2015-06-01+at+08.47.20)

*bang* *bang* *bang* Quer morrer? Não? Então se abaixa e atira!

Depois de intensos dias de leitura, cheguei ao fim de Rose Guns Days. Minha história de paixão tórrida com a escrita do Ryukishi07 começou com esse encanto noturno, originalmente minha intenção era ler RGD e depois partir para Umineko, mas como a tradução/edição ainda estavam por serem finalizadas, decidi conhecer o tabuleiro da bruxa dourada. Há pouco mais de 30 dias foi lançada a tradução completa das 4 temporadas que constituem esta história, então era a hora de conhecer essa que é a obra mais ~diferente~ do nosso querido autor.

Omertà é uma palavra de etimologia italiana que significa tanto “conspiração” quanto “proteção”. “Omertà” é um pacto secreto entre moradores/máfia de certas regiões da Itália. Tudo se resolve entre eles, sem qualquer alarde ou ação da polícia.

Se as pessoas comuns vivem no dia, as damas vivem na noite.

Se as pessoas trabalham pelo dia, a máfia age na noite, soturna.

Como diria a letra da Opening: “Minha história se passa em 1947. Ela é sobre o submundo do crime. Das joias, das rosas, das armas.”

1947 – Procura-se um guarda-costas

ss+(2015-06-07+at+03.08.13)

O ano é 1947, o Japão que acabou de sofrer uma “grande calamidade” e foi obrigado a se retirar de qualquer guerra. Com alegações de querer ajudar e melhorar a situação desse país, Estados Unidos envia cada vez mais forças e instala um QG para ficar de olho nas movimentações. Do outro lado, a China que estava ~um pouco~ mais próxima toma medida semelhante… um estado de sítio é praticamente decretado. Nos anos vindouros contaria-se sobre um certo Grupo Primavera que ajudou a resgatar o Japão desse inferno particular, liderado pela Madame Rose, mas também diriam em vozes sussurradas a transformação monstruosa e o caos que esse grupo instaurou.

Rose Guns Days se passa ao longo de 4 temporadas (lançadas entre 2012-2013) que compõe 4 anos de narrativa, começa em 1947 e se encerra em 1950. Cada um desses anos (temporadas) tem determinado foco e novos personagens vão aparecendo, mas ao contrário de Umineko, nós estamos ouvindo essa história ser contada por uma certa senhora bastante temida, a única Madame da Primavera, Madame Jeanne. Sim, você percebeu uma certa incoerência entre o que foi escrito nos dois parágrafos. Conhecem a expressão “vitoriosos fazem a história, perdedores se tornam a história”? É algo nessas linhas.

A questão é quem diabos está ouvindo essa história ser narrada no ano de 2012 e 2013? Uma repórter japonesa, Julie. Ela foi convidada de forma ~gentil~ pela Madame Jeanne a ouvir histórias de uma época que ela sequer vivenciou por ser nova demais. 1947, 2012. Duas épocas tão distintas, mas com relações tão estreitas. O que exatamente essa Madame quer transmitir? E por que falar da Madame Rose justo agora? Perdão? Pecado? Questões a serem respondidas, mas voltemos para o começo, para 1947, para o lendário Leo Shishigami.

ss+(2015-06-06+at+06.05.02)

Alguém caminha de forma descontraída por um país que não reconhece mais, Leo acabou de voltar de sua estadia agradável em um acampamento prisão… e não reconhece nada. A grande calamidade varreu o Japão de forma inimaginável para ele, amigos, família, todos mortos. Enquanto segue vagando sem direção um barulho, estilhaços, e uma garota cai em seu colo. A garota conhecida como Rose está fugindo de algo. Nesse momento somos humildemente convidados a descer uma surra nos capangas que a perseguem. Bem-vindos à Rose Guns Days. Serão dias intensos, mas inesquecíveis.

A primeira coisa que acontece após a instalação da VN é a opção de participar do tutorial. “Orra, Raigho, acha que eu não sei apertar enter e salvar em uma VN?”, calma. Algo que difere muito de qualquer VN anterior do R07 são os “combates” que ocorrem, em Umineko eles eram extremamente descritivos e tinham razões para isso, aqui não, em RGD o leitor é chamado para as brigas de rua e tiroteios ensandecidos que ocorrem ao longo do jogo. Primeiro você aprenderá a Defender e depois a Atacar, cuidado, é preciso ser rápido no gatilho! Digo, mouse. Ser rápido no mouse.

E essa imersão é algo que eu recomendo sinceramente, embora seja dito que é possível declinar das batalhas e só assisti-las, existem algumas lutas em que você vai apertar o mouse com tanta raiva, com tanta vontade e só vai ouvir os tiros, tiros, tiros… ah, é indescritível. Além de aprender a defender, os efeitos sonoros nesse quesito estão impecáveis. Facadas, socos, tiros, tudo para que você se sinta realmente naqueles anos intensos onde gangues tentavam se matar diariamente.

Defenda-se!

Defenda-se!

É complicado falar sobre o que é exatamente RGD sem entrar nos detalhes, e a sua opinião a respeito disso muda bastante ao longo do jogo, então eu simplesmente digo que é sobre pessoas querendo fazer a diferença. No ano de 1947, em um Japão completamente acabado, onde pessoas buscam qualquer emprego ou miséria para não morrerem de fome, gangues do submundo estão também querendo tomar o poder completo sobre as cidades. As cidade são numeradas, então para fins de localização, o Clube Primavera localiza-se na Cidade 23.

E nesse período de recessão e ressentimento, as Damas da Noite (isso mesmo que você entendeu) unem-se para formar um grande grupo que pudesse se proteger. Meryl Tanashi, Stella Maiougi e Amanda que eram as poderosas da época se unem e escolhem uma moça neutra que pudesse cuidar de tudo, por ocasião e fatores irrelevantes a escolhida é a Rose Haibara. Madame Rose, deferência sempre. Mas algumas gangues vão exigir dinheiro por proteção. O que explica a Rose pulando por uma janela, o Leo a encontrando, etc.

O que me fascinou em Umineko e qualquer um que leu algo do Ryukishi pode atestar é a forma como ele expande e muito as situações. Por exemplo, em 2012 sabemos que o Grupo Primavera é chamado de “Grupo Harukaze”, uma máfia temida, mas como chegou a esse ponto? Como um grupo de mulheres da noite se uniu? Como raios um grupo que lutava para se sustentar derrota o mais poderoso chefe da máfia e assume o topo do submundo? Ah, já disse que serão dias caóticos e divertidos nessa história?

ss+(2015-06-07+at+03.34.14)

Finalmente fecham-se as cortinas desta Noite de Rosas e Armas.

Em 1947 é a ascensão, 1948 é a fundação, 1949 é a transformação, 1950 é o renascimento. Sem spoilers, mas a história pode ser tranquilamente dividida assim. Além das Damas da Noite que fundaram o Clube Primavera, alguns guarda-costas são extremamente importantes! O “Cão Louco” Wayne, o calculista Richard Maiougi e o divertido Cyrus Saimura serão fundamentais nos primeiros anos desse grupo, além do grande Leo, é claro. Só que esse caminho vai ser espinhento, espinhento até demais para uma pobre Rosa.

A questão mais fundamental é o porquê da Madame Jeanne em pleno 2012 estar contando os reais acontecimentos que mudaram tão drasticamente a Primavera. Tem uma mensagem na jornada da Rose que ela quer transmitir, algo que a nova geração Japonesa se esqueceu. A jornada da Rose vai ser uma menina pura e otimista caindo na lama, se ferindo, pegando em armas pela primeira vez para transformar seu ideal em realidade, onde ela vai proteger o povo japonês ou morrer tentando.

Se os EUA ajudam os americanos e a China ajuda os chineses… quem ajuda os japoneses? É essa questão que vai guiar a Rose e fazer com que todos ao seu redor lutem pelo ideal dela. Algo bacana nessa história é o empoderamento feminino. Sabe, elas são Damas da Noite e… bem, são ostracizadas pelos homens ressentidos. Eles dizem que elas são “vulgares”, “ficaram em casa enquanto os homens morriam na guerra” e coisas piores do que isso.

ss+(2015-06-07+at+02.46.10)

Mas é aí que o R07 faz um excelente trabalho, ele vai mostrar detalhadamente a luta delas, como elas se sentem e tudo o mais. A Rose sofrendo, mas sendo apoiadas, os pequenos problemas que o Clube Primavera tem que suportar e muitas vezes elas mesmas resolvem. “Rose Guns Days” poderiam ser entendido como “Os dias de Armas da Rosa” ou da “Rose”, é quando essas mulheres vão sacar as armas para se protegerem, é quando a Rose vai abandonar qualquer proteção para se sujar de sangue. Por um ideal.

Além desses conflitos com resoluções nem sempre perfeitas, mas bastante realistas, tem também os conflitos étnicos. Existe muito ressentimento da parte dos chineses que vivem na Cidade 22 e arredores, é algo longamente trabalhado na obra. A peça central do lado dos chineses é o Dragão Negro, Lee Meijiu, sempre sorrateiro, medindo a força do oponente. Ele faz parte da “Sociedade do Dragão Dourado”, que almeja controlar boa parte do Japão. E claro que temos um representante do lado americano, o esquivo Capitão Philiph Butler. É, Butler. Sim, uma piada óbvia com Battler de Umineko.

A Rose quer proteger o seu próprio ideal, ela quer melhorar de alguma forma o estado dos japoneses ou pelo menos aliviar isso, pensando também nas futuras gerações e muitas vezes eu percebi uma certa transparência do Ryukishi nesse ponto. Seja através da Jeanne ou um momento em particular em que ele ressoa com força, coisas como: “Com a grande calamidade ou não… o Japão é um país destinado a ser invadido e destruído” ou “Chineses unidos são porcos, individualmente dragões. Japoneses unidos são dragões, individualmente porcos.” Entendem? Ele toca em pontos muito delicados e faz afirmações pesadas, mas reais.

É interessante ver a progressão na história, entre 47 e 48 já tem um enorme choque nesse momento em que nasce a “Família Primavera” na Cidade 23. Eles se tornaram lendas e a ~nova geração~ de pessoas dentro do grupo fica encantada com isso, eles querem fazer sua própria lenda. O começo de RGD é algo boêmio, por assim dizer. Bebidas, mulheres, dar socos em bêbados. E o fim, é ódio, sangue, é até engraçado comparar com o primeiro ano da história…

ss+(2015-06-08+at+04.01.34)

“Duvido muito que eles deixariam um lobo entrar no hospital.” Achei ofensivo.

Não vão ser poucas as vezes nas quais a Rose vai se ver em uma enrascada ou desespero pelas coisas nas quais ela acredita. E esses conflitos avançam pelos anos, por exemplo, em 1948 temos o surgimento do grupo “Wandering Dogs” que segue as ordens do Wayne, o grupo é composto por Charles, Oliver, Nina e a desmemoriada Zel. Então o R07 cria algo bastante dinâmico, o Grupo Primavera talvez não seja sempre o foco total, mas ele está ali em algum plano sempre presente, sempre com problemas para manter o ritmo e personagens novos, claro.

“Política em Rose Guns Days é o mesmo que os Ushiromiya discutindo pela herança do Kinzo”. Isso resume muito bem. É uma obra sim mais movimentada, até pela interação nos tiroteios e brigas de rua, mas o Ryukishi07 sempre vai desenvolver longos diálogos, longos discursos e discussões. Ele sabe o momento certo de optar mais por uma dessas coisas, ação ou diálogo, nesse ponto não tem erro algum.

Alguém provavelmente olhou essas imagens, esses traços lindos e pensou: “Nossa, o Ryukishi07 aprendeu a desenhar no ano em que terminou Umineko”. Não. Até porque teve Higanbana depois de Umineko e a massinha de modelar em forma de gente estava lá (digo isso com todo o carinho). Alguns artistas convidados fizeram o traço dos personagens e das cenas de ação, talvez um ou outro tenham deixado nas mãos do R07 desenhar, mas a grande maioria está deslumbrante e estilosa, por mais que não saiba desenhar, estilo é algo que o nosso querido Ryukishi tem.

"Quando eles choram, eu rio."

“Quando eles choram, eu rio.” Poeta, estiloso, digno.

Falando dos aspectos técnicos ainda, menciono que o jogo não tem dublagem. Então é pura leitura mesmo. Os efeitos sonoros estão maravilhosos, nas explosões, tiros, fugas de carros, tudo o que a máfia precisa está ali. Não temos também aquelas CGs (que mesmo em Higurashi/Umineko só foram estar presentes nos remakes), mas o background continua ótimo, as imagens do clube, os carros de época, os prédios, o R07 é sempre muito zeloso nesse quesito.

E aquele momento que eu mais adoro, falar das OST da 07th expansion! Um clube noturno, quebra pau e pontapés? Recomendo uma dose de Shall we Dance?, Tímido com o ambiente do clube? Meia taça de Roulette! Agora quer algo mais íntimo, emocional? Um lembrete. Lembra-se de Hope em Umineko? Veja o renascimento dela com Kaze. Os duelos com a Dlanor ao som de Final Answer ainda te arrepiam? Temos uma lenda lutado ao som de Black Knight. Mas o ápice é o tiroteio ao fim, o desespero, os gritos surdos, os créditos, sua mão suando sobre o mouse, tudo embalado por Death TO IllusionS. Inigualável.

Eu realmente tenho dificuldade para colocar Rose Guns Days em palavras, mas tem um certo momento em que a Julie, por volta da terceira temporada, depois de tanto ouvir a história ela… percebe. Ela compreende os sacrifícios da Rose. Quando a Primeira Madame pensou: “Me interpretam como tirana agora, mas no futuro, vão me agradecer…” ela se referia a esse Japão que não tem nada de japonês. Que se tornou uma mistura tão grande, que nem mesmo o molho de soja usam mais.

Gravei bem essa cena porque ao fundo estava tocando a versão instrumental da primeira opening, a Julie diz algo como: “Mas espera… não. A história ainda não acabou. O Grupo Primavera segue com seus ideias até hoje. Existe uma estrada levando a Primavera ao futuro, ao futuro onde eu estou vivendo, eu preciso agir.” É uma longa história sobre pessoas em um tempo difícil, sem bruxas, sem vilarejos, apenas armas, sangue, mulheres.

É sobre uma mensageira, que ao fim, se torna a mensagem.

ss+(2015-06-16+at+07.18.32)

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3 thoughts on “Rose Guns Days – “Omertà”

  1. Cara, a estória q vc descreveu… é a primeira VN q vc comenta q me faz querer muito jogar (ler), parece muito interessante (se envolver a mafia, com certeza chamará minha atenção).
    Onde encontro para baixar(preguiça de procurar (^.^;))?

    • Olha, o Patch do jogo está no próprio site do Witch Hunt. Agora o jogo eu encontrei dividido em algumas partes em um blog/tumblr, você precisa baixar a “Last Season” pois ela contém as temporadas anteriores também e aplicar o Patch.

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