Remember11 – “Infinitude”

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(…) Enquanto Davi tocava sua harpa, como costumava fazer.

Saú, porém, estava com uma lança na mão, e a atirou, dizendo:

[watashi] Encravarei Davi na parede.”

[ore] Encravarei Davi na parede.”

Mas Davi desviou-se duas vezes.

I Samuel – Capítulo 18

Trindade

Chayka. Gaivota, em russo. Essa jornada será tão grandiosa quanto o voo de uma gaivota, mas ao mesmo tempo, será uma espiral sem fim dentro de um labirinto de memórias; contradições ditam e guiam os 3 personagens principais dessa trama. Sim, eles são 3. Yukidoh Satoru, Fuyukawa Kokoro e… você. Você já está preso, a perseguição por algo inexistente começou, Saú já trespassou Davi com a lança do infinito, espero que você escape do inescapável.

O Azul e o Vermelho aceitam-se

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11 de janeiro de 2011. Era uma viagem bastante esperada por Kokoro, ela estava para visitar o instituto SPHIA (Specified Psychiatric Hospital for Isolation and Aegis) onde encontraria uma famigerada assassina que sofre de transtorno dissociativo de identidade, neste avião a jovem encontra um garoto brincalhão chamado Yuni Kusuda que está desacompanhado de qualquer responsável; neste ínterim, no subsolo de algum lugar um jovem destranca uma porta com seu cartão de acesso, o nome neste cartão é o de Yukidoh Satoru.

Ele murmura passagens da bíblia, lembranças desconexas que se intercalam com a conversa alegre entre Kokoro e Yuni no avião… essas 2 pessoas, que jamais se encontraram em vida, estavam prestes a se conectar. A queda do avião, a queda de Yukidoh, o momento em que a escuridão ganha matizes branca, a vinda, os 3 mares. Essa é a introdução mais confusa e incrível que alguém poderia fazer, Kotaro Uchikoshi estava prestes a escrever a mais ambiciosa das histórias, o ápice e definição da loucura de um autor.

O começo me lembrou muito Ever17 no sentido de “confusão” para o leitor, é interessante como isso serve para instigar a curiosidade em querer descobrir que se passa no enredo, mas R11 soa ~aparentemente~ mais claro do que seu antecessor. Um reflexo que aparece no espelho, uma identidade confirmada logo nos primeiros instantes de jogo, é como se o autor estivesse dizendo que os mesmos truques não se repetiriam e que a ideia dessa vez é bem mais grandiosa.

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“Este mundo é composto por elementos contraditórios, mas ao mesmo tempo eles precisam coexistir entre si.”

E antes de entrarmos no enredo de fato gostaria de comentar algo que me agradou ~infinitamente~ em relação à E17… basicamente, a seriedade da situação. Por ter jogado Zero Escape antes da Trilogia do Infinito os momentos de tranquilidade nessa última série mencionada me incomodaram bastante, digo especificamente de E17, estamos falando de pessoas presas em um espaço ao longo de 7 (sete) dias e elas essencialmente agem com leveza demais a meu ver.

Claro que pensando em retrocesso, o Uchikoshi ainda estava consolidando a sua escrita e ambientação, por isso R11 que é em tese o “último jogo” da Trilogia estaria melhor nesses aspectos do que as histórias anteriores. Esse ponto em particular é bastante debatido, acho que E17 poderia ser melhor nele, alguns dizem que não, enfim, opiniões… opiniões. Voltando ao foco, Remember11 é extremamente direto ao ponto (já lembrando o que ele faria em ZE), com bastante tensão, mortes e questionamentos.

A história se divide em 2 rotas: Satoru e Kokoro. Não, não existe true route dessa vez, antes que perguntem. E o enredo se divide em 2 locais: Monte Akakura e Ilha Aosagi, percebem como a dualidade está presente nos detalhes? Ah, o inferno está nos detalhes. Novamente o número 7 é utilizado (tal como em Ever17) em R11, ao longo de 7 dias teremos pontos de vistas alternados entre Kokoro/Satoru, a mocinha sobrevivente do acidente e o mocinho desmemoriado. É, o Uchikoshi adora uma amnésia, se você não percebeu até agora…

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É uma sensação indescritível ler Remember11 pela primeira vez, nada se compara com esta que é _de longe_ a mais criticada história da Trilogia. Vou chegar nesse detalhe mais ao fim, por ora falemos da situação em que os personagens de encontram. Kokoro acorda dentro de uma cabana, sem fazer ideia de como foi parar naquele local, enquanto um alpinista (Yomogi), uma advogada (Mayuzumi) e o menino Yuni a encaram como se ela fosse louca. “Mas você não se lembra do que houve?  Como assim? Você até se apresentou como Yukidoh Satoru!”.

Lapso de memória. Outro nome. O nome do segundo personagem da trama. Não é preciso ser gênio pra perceber que a consciência de ambos está trocando de lugar aleatoriamente. E enquanto isso, neste outro local a pessoa reconhecida como “Yukidoh Satoru” descobre sua localização… ele está na SPHIA, uma instituição para pessoas com doenças mentais. Será que eles estão mesmo trocando de lugar? Ou será que alguém nesta história têm múltiplas personalidades? Seria o Satoru um paciente ou funcionário da instituição? Sem falar na tal mulher Kali que pede para você não acreditar em nenhuma palavra dita por ninguém ou a Inubushi Keiko, a bendita psicopata…

Sem falar que neste local existe… bem, existe outro Yuni! Gêmeos? Clones? As indagações são as diversas, mas você não tem tempo para isso. Não contei? Alguém dentro da SPHIA está tentando matar o Satoru. Sem tempo para respirações, acho bom anotar tudo o que está acontecendo, nem os personagens conseguem dizer que situação bizarra é essa! É tanta coisa, tanta informação que você fica afogado,  pessoalmente falando só fui perceber certas nuances na rota do Satoru, com mais calma.

Gostei muito da forma como a relação entre o Yukidoh e a Kokoro vai se desenvolvendo, eles encontram meios de se comunicar e criar um vínculo especial! Eles se ajudam, tentam desvendar os motivos daquela situação e o que está causando a transferência de consciência; normalmente os bem poucos gracejos que ocorrem na história estão nos momentos iniciais onde ambos precisam aceitar que estão em um corpo do gênero oposto… enquanto verificam… algumas coisas… peculiares de cada um.

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A dualidade vai bem além de personagens e locais, a própria situação deles é complicada nos dois casos: em Akakura eles precisam sobreviver sem saber se serão resgatados por alguém, sem falar no estoque de comida limitado; em Aosagi eles podem até ter a comida, mas o próprio Satoru menciona que “se sente mais tranquilo na cabana.” Ou seja, tem algo tão pesado na SPHIA, que faz alguém desejar estar numa cabana, preso e perdido. Percebem? É um enredo de detalhes. Com sutilezas e segredos escondidos, assim como este post, que guarda um link especial em algum lugar.

R11 é um jogo que lida com muitas informações e temas pesados, além de ter uma série de termos muito específicos, por isso no menu temos as famosas “TIPS”. São como “explicações” dos termos que aparecem no decorrer das rotas, é muito importante verificá-las de tempos em tempos, somente através dela uma compreensão correta da trama é feita; por isso eu torno a insistir que é algo de detalhes. Não é um enredo que responde por si, mas que força o leitor a pensar.

É visível que tudo gira em torno de alguns termos psiquiátricos, inclusive os personagens são marcados por diversas representações desse gênero. Por exemplo, o Yomogi é o Velho Sábio, aquele que tem o conhecimento e serve como guia. A Mayuzumi é a Persona, alguém que esconde sua verdadeira natureza.  A Kokoro é Anima, o arquétipo feminino, a consciência feminina no homem. O Satoru é Animus, o arquétipo masculino, a consciência masculina na mulher. A Kali carrega a  imagem materna, o Yuni é o trickster (espécie de catalisador, um ser extraterreno) e a Hotori/Keiko são a Sombra, algo inconsciente para a própria consciência.

Paro um momento para falar das canções incríveis de Remember11! A música que marcada alguns dos mais intrigantes momentos e discussões da trama, Paranoia; a densa Fear and Insanity ou a canção do primeiro dos finais, Will! Mas decididamente, a mais bonita e tocante de todas é a All or None, sem dúvida alguma, os momentos com essa música são divinos. É uma ótima OST.

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Tudo isso fomenta dois questionamentos quase escondidos na trama, eu diria que entendê-los equivale a compreender o Episódio 7 de Umineko: “Where is Self?” (Onde está o Eu?) e “Who are you?” (Quem é você?); essas duas perguntas são o principal motivo de crítica do jogo, porque não existe uma explicação “oficial” do autor tal como o Ryukishi07 fez no mangá que está adaptando Umineko, parte-se do pressuposto que o leitor têm as informações necessárias e vai descobrir a verdade por si só.

E eu acabo mencionando isso porque na rota da Kokoro você acaba ficando absorvido pela situação de desespero, a comida vai se esgotando, os personagens começam a brigar entre si, ilusões, miragens, tudo acontece e não se tem tempo para pensar com calma. É só na rota do Satoru que com alguma calma vamos montando uma pequena parte do quebra-cabeça, porque a compreensão completa da situação só é conquistada após a finalização de todos os bad endings, leitura de todos os TIPS e reflexões.

Por isso eu disse que é uma trindade, o leitor precisa responder aquilo que está acima dos personagens, você precisa se lembrar da verdade. E da mesma forma incompleta como se encerra R11, eu encerro este post. Sem começo e fim certos, entroncado e com divagações, daqui pra frente, é com você dentro da gaiola e como diria Ishmael, que você não encontre o fim infinito.

ss+(2015-05-01+at+01.58.07)

Esta história ainda não acabou. A Verdade não é revelada. E ela circula através de um incidente. É uma repetição infinita!

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6 thoughts on “Remember11 – “Infinitude”

  1. Here I go!

    Apesar de ter caído de “paraquedas” no post, por nunca ter ouvido falar sobre a trilogia ou dos assuntos tangentes, eu tenho um grande prazer ao ficar imerso em mistérios. Tudo aquilo que consegue me fazer pensar de maneira racional. Descobrir os meios para entender os fins. E foi o que exatamente me atraiu e prendeu como um imã. E aqui estou.

    Essa introdução com fatos misturados sem link aparente realmente aguçam os sentidos de qualquer curioso, (como eu) e cria uma vontade de entender o que é aquilo e acabar buscando mais e mais informações. Foi exatamente o que aconteceu quando eu lo sobre o link. Eu estava no celular, sai correndo, liguei o PC e comecei minha busca por ele. E encontrei! (Se meu japonês fosse um pouco mais avançado, eu pegaria aquela parte final com outras considerações para ficar completo.)

    Antes de agradecer e sair correndo para pesquisar mais informações, tenho que falar sobre a trilha sonora. Estou escutando desda primeira através do link mais acima. Estou gostando muito! Agora quero ver como ela estão encaixadas no VN.

    Bom, não tenho muito o que falar, você já percebeu o entusiasmo que estou sentindo só por este comentário. Ótimo post! Agora vou procurar mais informações para ver se consigo jogar no meu pouco tempo livre. Um Abraço! Katreque is Out!

    • V-Você gostou! Aaaaaah, que bom! Remember11 é o mais complexo da trilogia do Uchikoshi, Ever17 acaba sendo o mais explicado até por ter uma true route! Conforme você passa pela trilogia coisas como “Blick Winkel”, ” That Guy” vão ficando mais claras; um “ser superior” é muito recorrente.

    • Fiz inclusive review de E17 que foi por onde comecei a trilogia. Zero Escape (outra série dele) também é ótima, também fiz review delas. Só me falta “Never7” pra fechar a trilogia.

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