G-senjou no Maou – “A narrativa na corda Sol”

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Sabiam que a corda sol do violino é a que emite o som mais grave?

Uma orquestra precisa um regente digno que saiba conduzi-la, nesse caso o pseudônimo do maestro é “Loose Boy” e garanto que poucos conseguem manter o controle como ele faz. As cordas precisam estar em sincronia com todo o resto, sem nos esquecermos das madeiras, metais, instrumentos de percussão e teclas! Sente-se nessa poltrona com o seu nome marcado, só peço um pouco de paciência pois os preparativos estão quase prontos e esses músicos são a primazia da dor, sofrimento e lágrimas… você vai se arrepiar.

Sobre a corda Sol

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Azai Kyousuke é o protagonista da história, o jovem que vê as relações humanas como uma eterna questão de perdas e ganhos, sem falar na sua fixação com dinheiro. Dinheiro é a lei. Dinheiro é o poder. Dinheiro é vida. Além de ser um fanático por música clássica, claro. Esse garoto foi adotado pelo temido Azai Gonzou, um crápula que faz parte da Yakuza e institui na mente/alma do protagonista que as pessoas são “Humanas” ou “Gado.”

O pequeno demônio sempre aspirou a ser tão grandioso quanto seu padrasto e tem como meta superá-lo algum dia, ele vive em um apartamento suntuoso e frequenta uma escola para “alunos especiais” que vão desde estudantes abastados até artistas de renome mundial. Sua vida caminhava bem até o momento em que a desengonçada e peculiar Usami Haru aparece repentinamente em sua vida escolar, mocinha que por sinal se intitula como “Herói” e está buscando o “Maou.”

Embora aparentasse ser uma besteira sem tamanho, esse Maou existe! E nosso Herói quer vingança contra o Demônio! A questão é que essa guerra particular vai arrastar o Kyousuke e alguns “amigos” de forma completamente atroz! O que um garoto que cresceu sob olhares da Yakuza pode e pretende fazer nessa situação? Seria ele a própria encarnação do Demônio? Ou o anti-herói?

A orquestra está pronta, novamente, perdão pela demora

O ressoar do violino

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Fantástico. G-senjou no Maou é fantástico. Não tem outro adjetivo, fantástico é a descrição perfeita. Eu fiquei encantado quando parei pra realmente pensar na forma como uma história que começa de forma tão divertida… termina num verdadeiro inferno; essa foi uma VN extremamente recomendada por um grande amigo (recomendação muito bem-vinda por sinal) e que eu consegui apreciar bastante, precisava de algo mais movimentado depois de Ever17.

Se bobear G-senjou é uma das histórias da ~mídia japonesa~ com maior número de resenha pela internet, seja na língua que for, ela é aclamada e adorada com todo o mérito mas também tem muitas opiniões negativas. O Loose Boy escreveu também “Sharin no Kuni, Hiwamari no Shoujo” anos atrás, não tenho o que dizer sobre ela pois não a li ainda, mas futuramente pretendo corrigir esse problema; uma curiosidade sobre o autor é que ele ama música clássica e escreve muitas cenas escutando algumas dessas peças, mas falemos disso depois.

A forma como somos apresentados a esses personagens, os embates e jogos mentais… é de tirar qualquer fôlego. Ágil, sagaz e intrigante são poucos adjetivos perto do que é realmente ler essa soberba narrativa; talvez um dos maiores méritos seja a forma como tudo se equilibra desde o começo do jogo, temos uma carga de momentos com slice-of-life realmente divertidos no capítulo 1 (que funciona como prólogo) para depois irmos direto aos momentos de tensão!

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Se eu precisar mencionar algo/alguém que me causou ataques de riso foi a relação entre o Kyousuke e seu melhor amigo, Eiichi. A diferença (gap) entre a personalidade e aparência do Eiichi é extremamente cômica! Por exemplo, o Eiichi adora fazer comentários sacaneando/xingando alguém, mas todos eles em forma de monólogo, então o Kyousuke simplesmente diz que após tanto tempo ao lado do amigo já sabe o que se passa no coração dele e, por tabela, o leitor consegue ter acesso a esses monólogos memoráveis.

Temos também os momentos surreais onde o Kyousuke/Eiichi vão até o laboratório depois do horário escolar e iniciam o diálogo com “Deus.” Esse Deus no caso é o Kyousuke com uma capa que parece da Ku Klux Klan. Entendem? É surreal e extremamente engraçado pela forma dramática como elas ocorrem, não só isso, elas tem o mérito de fluírem naturalmente quando acontecem! A obra no geral sabe dosar os momentos tranquilos com os dramáticos, claro que conforme vamos chegando ao fim cada vez menos temos esses momentos graciosos.

É interessante que a OP da VN toca pela primeira vez depois do primeiro embate entre Maou/Haru, sinalizando que o prólogo acabou ali, daquele ponto em diante a história começa de fato. E que primeiro duelo! Uma ligação quase criptografada do Maou para a Haru convidando a heroína principal para um ~jogo~ particular, coisa que ela aceita prontamente. Olha, além da OST frenética, como eu poderia dizer… todos lendo este review já devem ter assistido Death Note, não?

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A coisa é quase por aí. Eu lembro (perdão, sociedade) que ficava vibrando quando o Light resolvia enfrentar o L em alguns episódios específicos. Em particular lembro daquele em que o Light mantém uma pequena televisão escondida dentro do saquinho de batatas… enquanto escrevia os nomes dos assassinos no caderno da morte com a outra mão. Ele comia lentamente cada batata para conseguir ver o nome dos presos na pequena TV e com a outra fingir que estava estudando, mas só estava matando os presos.

Tem muito desse artifício na VN, eles alternam pontos de vista sem explicitar o que uma das partes está fazendo no momento. As vezes mostram uma conversa _recortada_ do Maou com alguém, em outros casos é só ele arrastando algum corpo por aí… quem faz o quebra-cabeça funcionar é a Haru. É muito disso. A Haru recebe dicas ou pistas, seja por uma foto borrada, ligação ou algum barulho ao fundo, disso então ela vai caçar o demônio! É dinâmico e frenética essas situações, eu vibrava a cada vez que ela se aproximava mais dele, mas ficava mesmerizado pela astúcia do Maou.

E não são poucas vezes que a Haru perde o Maou de vista, esse “vilão” sabe muito bem como planejar e executar suas ações. O Kyousuke até certo grau se envolve nesses duelos, mas acaba sendo algo mais particular do Herói e do Demônio; para ajudar nessas ~caracterizações~ o Maou é dublado pelo Jun Fukuyama (Lelouch – Code Geass) então as piadas e comparações pela rede alheia não são poucas. Ah, não quero que isso soe como piada, os “jogos” (como o Maou diz) entre eles são muito interessantes.

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A diferença entre começo e fim de G-senjou é brutal. Pessoalmente eu parei 1-2 minutos no último capítulo e pensei: “Puta que pariu, deus, para com esse sofrimento.” Os joguinhos sádicos do Maou se tornam ainda mais elaborados, alguns flashbacks apresentam novas perspectivas sobre o Kyousuke, personagens surgem, tudo ganha uma nova cadência de eventos e isso é ótimo, a leitura nunca deixa de ser interessante. Lógico que para isso ocorrer é preciso personagens no mínimo ~especiais~.

Aproveitando esse gancho menciono que nenhuma rota é obrigatória para acessar a true (Haru)! Ou seja, você pode ir ignorando as escolhas que levem para outras rotas e seguir direto rumo ao true ending, mas realmente não recomendo que façam isso, de verdade. Temos ao todo 4 heroínas, a primeira a aparecer é a Tsubaki, aquela menininha inocente e bobinha que faz tudo por todos e causa asco no Kyousuke, essa dinâmica é fascinante por sinal, o Kyousuke que observa valor em tudo não entende o que raios uma pessoa como aquela menina quer com ele.

Depois temos a Kanon, que é “irmã” (sem relação sanguínea) do Kyousuke, protagonizando cenas lindas de patinação artística! Sempre lembro dessa rota porque ocorrem alguns problemas familiares mãe/filha e pelo Gonzou, pai da menina, ter dito que o Kyousuke deveria “fodê-la logo, mulheres funcionam assim.”  Não sou o maior fã dessa rota, embora eu a ache muito interessante. Comparado com a da Tsubaki, essa aqui é bem melhor.

A penúltima é a da minha waifu, Shiratori. Como não amar essa menina? Como. não. amar. essa. menina. Além de ser linda, a rota dela tem um foco ótimo no drama! É tão bonito ver ela crescendo, saindo dessa bolha de indiferença e se chocando com o mundo real… ah, ela tentando se declarar/demonstrar sentimentos… meu deus, que amor. E a última heróina, que carrega a verdade desse enredo em seu âmago, Haru… nada poderia me preparar. Nada. Até agora, eu… eu. Enfim.

“O Demônio na corda Sol”

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O nome da visual novel é literalmente esse, o demônio na corda sol. O que é uma referência a música preferida do Kyousuke/música que toca no menu principal do jogo, “Ária na corda Sol.” Bach foi quem compôs essa canção, mas o interessante é que foi um outro músico, August Wilhemj, quem tocou toda essa canção pela primeira vez em uma única corda do violino… a corda Sol (G). Esse nome/referência envolvem coisas profundas do enredo, algumas não posso mencionar de forma algum por serem spoilers pesados, mas acho que posso tentar outra abordagem.

Não sou o conhecedor de música clássica, mas sei que elas ressoam de forma espetacular. Então depois do fim da VN eu realmente comecei a pensar nas implicações do demônio estar justamente na corda sol, a que emite o som mais grave… o que pode ter sido uma viagem total minha, contudo, vou comentar algumas ideias a respeito do Maou e o porquê disso.

Posso afirmar com alguma tranquilidade na consciência que o Maou é, de longe, o vilão mais conciso e racional que eu conheço. Isto é, não quer dizer que ele não seja sádico, maníaco, com tendências a matar e manipular pessoas por prazer, usar todos como objeto até alcançar seus objetivos e depois descartá-los… é uma longa lista para uma pessoa só. Só que ele te convence do ponto de vista dele, o filho da mãe é extremamente carismático. Tão carismático quanto é doentio.

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Traçando um paralelo com a música tema do Maou, tudo fica ainda mais interessante. A OST dele chama literalmente “The Devil“, mas a real peculiaridade é que praticamente a trilha sonora inteira do jogo é constituída por remixes de músicas clássicas; a do dito cujo tem origem na canção “Erlkönig” de Schubert. Essa canção conta a história de um filho sendo carregado pelo seu pai através da floresta, esse menino está com febre e delirando cada vez mais enquanto vê nas sombras/galhos o “rei demônio” (elfo, especificamente) chamando por ele.

E o pai incessantemente diz que está tudo bem, que ele deve descansar. No fim, o menino é “levado” pelo demônio. É exatamente o que entenderam. O Maou de G-senjou tem um ar etéreo tal como o rei elfo, ele só fica cerceando a Haru, mas nunca se revela face a face; ele convence a todos, ele tem o poder, ele tem o dinheiro, ele é um ideal do que o Kyousuke deseja praticamente.

O último capítulo é onde tudo se revela, o demônio sobe ao palco e se apresenta formalmente. Ele mesmo explica os motivos que o transformaram no que é, lenta e concisamente, sem deixar de lado nenhum detalhe. “Por que você precisa pagar pelo erro de outro?”, “Se um homem honesto mata 3 bandidos, por que ele é preso?, “Faça justiça com suas mãos!”… é impossível não se sentir seduzido pela força contida nas palavras do demônio.

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Em casos como esse é muito fácil o “vilão” ofuscar todo o elenco, mas isso não acontece aqui. Admito que foi uma história que me tirou (bastante) da minha zona de conforto, o Kyousuke não é seu protagonista mediano ou parecido com o de qualquer VN, ele tem ares de manipulador e faz muito bem isso. Alguns momentos eu ficava mais puto com ele do que com o Maou, para terem uma ideia real. Nunca senti que qualquer personagem dessa VN foi ofuscado, certamente alguns brilham menos, mas todos tem sim o seu momento especial.

Vamos encerrar com a OST. A trilha sonora aqui é muito boa, ainda mais por se tratar de remixes de músicas clássicas! Mas uma delas (que eu apelidei de EMIYA carinhosamente) é a canção que toca quando o Kyousuke zera a vida, Otoko no Hanamichi. E nas perseguições alucinantes da Haru temos a Shiyuu, provavelmente é a mais emblemática do jogo; além disso temos o tema do Azai Gonzou, uma música tão opressora quando a presença dele, Slavonic March (Canção remixada de Tchaikovsky).

E o momento mais célebre de todos, onde o Kyousuke alcança o ápice do seu autismo e coloca Ride of the Valkyries para tocar ao fundo enquanto faz seu plano maligno ao melhor estilo cebolinha. Além de ser a canção de patinação da Kanon, claro. Meu deus, eu fico rindo sozinho daquela cena até hoje… é muito autismo.

Poderia ficar muitas horas e horas perscrutando e fazendo mais ligações entre músicas/personagens, mas já mencionei o mais importante. Apreciem G-senjou no Maou, é uma verdadeira jornada de salvação. De rendição. De amor. Onde, no fim das contas, o Anti-herói e o Herói vão formar a orquestra mais soberba de todas, tocando apenas com a corda sol do violino.

"Tragédias sempre ocorrem onde menos se espera."

“Tragédias sempre ocorrem onde menos se espera.”

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