Ever17 – Out of Infinity

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Onde está o paraíso?

Acima do céu, e aos seus pés…

Ah, era inexorável. Sim, da mesma forma que eu ocasionalmente encontrei 9 pessoas presas em um jogo doentio, encontrei também outras pessoas presas em um paraíso submerso. Kotaro Uchikoshi, definitivamente eu consigo ver seu dom. Depois de ter jogado parte da série Zero Escape resolvi procurar pelas origens desse grande autor, comecei então com um dos jogos da Trilogia do Infinito (Never7, Remember11 e Ever17).

É uma história realmente emocionante e bonita, com personagens carismáticos e todas aquelas reviravoltas deliciosas. Creio que seja uma das visual novel mais famosas fora desse nicho, sem contar os F/SN da vida.

Vamos submergir.

LeMU – O Parque Subaquático

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É um dia comum no parque temático LeMU (que recebeu esse nome como homenagem ao continente perdido, Lemúria), um dia bastante cheio com pais carregando filhos, jovens se divertido e pessoas sorrindo. Dentre essas pessoas está Takeshi Kuranari, um adolescente de 20 anos que está procurando pelos seus amigos nesse verdadeiro labirinto; na outra ponta temos um garoto desmemoriado que não lembra o próprio nome, ele é apenas o “Shounen” (Kid/Garoto).

Entre esbarrões com pessoas “peculiares” e uma menininha que adora contar piadas, ambos se encontram por acaso. E tudo acontece. Um desmaia. O outro fica preso. Um começa a delirar palavra. O outro fica ansioso com o alarme que disparou. O outro não sabe o que fazer. Um se levanta. Um caminha. Um corre, corre, corre. O alarme ao fundo, o tremor causado pela quantidade de água invadindo o local, o começo.

Dessa forma confusa, com pontos de vistas alternando tão rápido que você se perde, que Ever17 se inicia. Qualquer leitor percebe que tem algo de muito errado nesse “prólogo”, parece que algo ou alguém não quer que a linha de raciocínio seja mantida, assim a ambiguidade vai prevalecer. O jogo inteiro é pautado por 2 pontos de vistas distintos, acompanhamos o Takeshi pela rota da arredia Tsugumi ou da atenciosa Sora; enquanto isso com o Shounen temos a rota da menina You ou da habilidosa Sara.

Diferente de 999/VLR onde todos estavam sempre correndo ou buscando algo, a situação de inércia é maior. Não só por ser uma VN de pura leitura e escolhas (visto que em ZE tínhamos os quebra-cabeças), mas também porque eles não tem escapatória. Não tem alguém pressionando eles diretamente nesse (in)acidente, eles estão todos presos nesse parque que tem uma estrutura bastante única e só podem aguardar o resgate. Mas tantas pessoas diferentes, tantas personalidades, presas… por acaso?

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LeMU é um local fantástico e a apresentação dele é feita com bastante atenção! Começando pelos andares dessa construção: Insel Null (Ilha Zero, ou melhor, térreo), Erste Boden (Primeiro Andar), Zweite Stock (Segundo Andar), Drite Stock (Terceiro Andar). Percebe-se que a única saída é por cima, utilizando o elevador ou as escadas de emergência que infelizmente ficam inutilizadas até certo ponto depois da catástrofe. Além disso temos uma grande influência alemã sobre este local, todas as atrações tem nome originalmente alemão, algo que causa estranheza levando em conta que a história se passa no Japão.

Lemúria é um nome digno desse parque, pensando que este continente perdido foi grandioso e teve tecnologia de ponta, conseguimos entender o motivo da referência. Robôs, IA, lendas, o antigo e o novo se misturam, formando algo bastante único e gigantesco! A narrativa de quando chegamos ao local, as CGs explicativas, tudo explicita a grandiosidade dessa construção, dessa quase reencarnação direta do continente perdido! Um local magnífico, para uma história magnífica.

Chegou a ser engraçado, pois eu conheci as obras posteriores do autor antes de conhecer as iniciais, o que me fez duvidar um pouco da forma como a história se encaminhava no começo. Eu achei um pouco slice-of-life demais para o que eu esperava, talvez o ponto tenha sido eu estar acostumado aos momentos alucinantes de ZE. Mas depois eu entendi, existia um motivo mais elevado para a história prosseguir dessa forma. Muito maior do que eu tinha sonhado.

Os Lemurianos

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É preciso falar um pouco melhor das pessoas envolvidas nesse acidente, entender os protagonistas e as ~heroínas~ é vital para a compreensão desse enredo bastante (inicialmente) confuso. Vou seguir pela ordem das rotas que eu fiz: Komachi Tsugumi é completamente insociável! No começo eu realmente não conseguia gostar dela, ela que brincava tanto com a ideia de “morte” foi me surpreendendo aos poucos, com certeza foi uma das melhores rotas que eu já conheci, é impossível não se colocar no lugar dela e entender suas ações.

A funcionária de LeMu, You Tanaka, sempre gentil e alegre que está buscando pelo pai que desapareceu há muitos anos… mas por que nesse parque? Seria tudo fachada? Acho… não, foi uma rota com reviravoltas que me intrigaram sinceramente, o desenvolvimento inesperado e o desfecho me deixaram estarrecido, só consegui ficar com a mão na boca de tanto choque. Outra ~funcionária~ é a Sora Akanegasaki, ela é a assistente chefe e conhece o parque como poucos, com certeza é a mais patética (no sentido emocional) das rotas.

Fechando com a Sara Matsunaga, essa mocinha serelepe que vive em seu “nin-nin-ninja” mundo particular. Essa rota em especial creio que soe melhor após ter feito as outras 3, digamos que é uma preparação para o verdadeiro final. E a Coco? Ah… ah. Certas coisas são melhores sendo descobertas lendo. Mas adiantando, o caminho Coco tem o mais incrível, sensacional e perturbador final verdadeiro. Vão se surpreender. Confiem, o twistman sempre soube como conduzir sua orquestra.

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Os protagonistas são o Takeshi e o Shounen, já mencionei isso. Mas além de serem pontos de vistas alternados, as diferenças crescem. Como eu poderia dizer… tem algo errado e você sente esse “algo.” Sabe quando você sai com seus amigos, eles convidam outras pessoas e soltam uma piada interna, onde você logicamente fica com cara de “hã?” mas todos estão rindo? É algo assim. E essa impressão só cresce conforme você avança pelas rotas, mas no fim você também vai rir da piada. Ou bater a sua cabeça na parede, vai saber.

Em um primeiro momento me disseram: “depois que você joga uma série, a outra perde a graça.” Se você jogou ZE, talvez Ever17 soe meio óbvio nas reviravoltas. O mesmo serve se você fez o processo inverso; levando em conta que eu não sou o maior gênio quando se trata de joguinhos mentais, admito que cai fácil nesses momentos. O Uchikoshi recicla algumas ideias ou até trechos que causam um déjà vu forte (uma das maiores críticas contra ele é essa, por sinal), mas por se tratar de enredos e situações diferentes acho um feito notável ele conseguir realizar essa proeza mais de uma vez.

E algumas coisas que nessas mudanças abruptas de ponto de vista envolvem certos truques presentes nas obras do Kotaro. Não só nisso, nos personagens, nas lembranças perdidas, certos fluxos de consciência, tudo… soa familiar. Ao menos para mim soou familiar. Entretanto, por eu ter estranhado esse clima de falsa tranquilidade na obra, não senti tanta familiaridade assim. É um assunto delicado, gera bastante discussão.

2017 – os eternos 17

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O enredo se passa em 2017 e o drama deles presos se passa ao longo de 7 dias. Serão dias de brigas, alguns vão tentar se unir, outros optam por se afastar; não é nem de longe o clima sufocante de ZE, mas consegue ser igualmente claustrofóbico. Essa ideia de N pessoas presas em algum lugar sempre me soa apavorante, até porque normalmente tem algum elo invisível entre elas… é realmente apavorante. Tem alguns efeitos muito bem utilizados na VN.

Por exemplo, temos animações mostrando a água invadindo o parque, nos tremores a tela da VN começa a balançar, as luzes de emergência se acendem e a tela fica levemente vermelha, é interessante isso para a imersão do leitor, esses pequenos detalhes fazem a diferença. A forma como lentamente o enredo vai ser entrelaçando soa incrível pensando agora, no começo você está perdido e sem detalhes, mas depois que se avança por tudo, chegando no fim da jornada…

E é claro que tudo isso vai ser carregado por uma quantidade absurda de reviravoltas. A piada de chamar o Kotaro Uchikoshi de “twistman” veio desse fato, pois toda VN dele vai estar cheia de eventos que eu apelidei carinhosamente de “Uchikoshi, eu vou arregar dessa ride.” Não acho que Ever17 deva levar crédito e ser famosa por esses momentos, mas sim pela forma como o enredo chega a essas reviravoltas. É o caminhar e momento do ápice que fazem disso tudo uma experiência mágica, pois seria muito fácil ficar colocando twistwistwistwist em toda cena sem base, mas existem explicações, teorias e dicas até elas.

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O encontro dos personagens, a formação do laço entre eles, as resoluções alcançadas, é tudo muito bem trabalhado. Nunca tive do que reclamar nas obras do Uchikoshi (podemos conversar sobre VLR nesse aspecto, ok?), fiquei satisfeito por ser um enredo cíclico e fechado. E por sinal, “cíclico” é quase uma palavra-chave na trilogia do infinito e suas variações, é tudo sobre repetir, repetir e repetir. É muita bastante dor de cabeça, pessoalmente estou tentando entender Ever17 completamente até agora.

Ah, a OST! Uma música que eu vou guardar com bastante carinho é a “Der Mond, das Meer” (Lua e Mar), a primeira vez que ela é cantada na história eu tive a sensação de flutuar. Ela é uma canção de ninar praticamente, mas se torna extremamente poderosa com a cena certa! Lembro também da “Je Nach” que toca ao fim de algumas rotas, começando lenta com a animação mostrando os restos de LeMU, como se estivesse se esgueirando e dizendo ao leitor: “Não, não acabou ainda.” Vou evitar falar mais das músicas porque elas são spoilers.

Passagens de tempo, quebra de quarta parede, terceiro olho, visões do passado, sensações de que algo está se repetindo, em suma, é o Uchikoshi em sua forma mais plena. O que não é, de forma alguma, demérito. Rendeu bons momentos de choque, de alegria, de lágrimas… de desespero. Muitas pessoas (até quem não é fã da mídia) já leram Ever17 pela fama em torno dela, recomendo para todos aqueles que se interessam por esse tipo de história.

Antes de me despedir, encontrei 2 coisas interessantes! A primeira é que existem 2 CD dramas que continuam a história depois do desfecho de Ever17… e a segunda é que tem tradução para o inglês! O primeiro CD drama se chama “Depois Que Você Se Foi”, o link vai direto para o youtube, em cada descrição dos vídeos tem o link para as falas traduzidas, só ir ouvindo e lendo; o outro não vou postar o nome, mas aqui está o link que envolve o mesmo processo. Só cliquem depois de terem lido a VN, ok?

E não se esqueçam, você está preso em um ciclo infinito.

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One thought on “Ever17 – Out of Infinity

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