Zero Escape: Virtue’s Last Reward – “Tu fui, ego eris”

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Falar de VLR vai me jogar em um túnel obscuro de nostalgia, pois isso me lembra 999, que me lembra do nintendo DS, que me lembra da época que eu era noob nessa vida de VN. Acho que foi aquela forte impressão deixada em mim por 999 que causou meu amor por visual novels, sim, lembrar do Junpei e Juniper… já consigo ouvir morphogenetic sorrow ao fundo…

*hehehe*

Hã?

*Hehehehe*

Hã?? Espera tem alguém-

*Sejam bem-vindos ao novo Noooooooooooooooooooonaaaaaryyyyyyyy gameeeeeeeeeeeeeeeeeeee: Ambideeeeeeeeeeex Editiiiiiiiiioooooooon*

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“Bem-vindos ao meu reino!”

Um retorno ao começo do fim

 “Se as pessoas traem umas as outras… elas merecem morrer.”

Já sentiram o feeling, não? Um retorno triunfal da história mais sensacional de todas! Ficou claro pelo começo do post, mas eu reitero que vou mencionar 999 com alguns spoilers, até porque estamos falando da continuação da série Zero Escape! Recomendo fortemente que joguem ou leiam esse meu review sobre 999, é essencial que pelo menos conheçam o básico da premissa (embora VLR libere alguns documentos explicativos sobre o jogo anterior); agora que todos estão avisados… vamos recomeçar.

Flashes rápidos, memórias embaçadas, informações desconexas, bam! É nesse ritmo que a narrativa começa. O protagonista Sigma desperta em um elevador com uma garota de cabelos brancos estranha que se chama Phi, claramente é o prelúdio do doentio Nonary Game: Ambidex Edition; após resolver o primeiro quebra-cabeça de muitos, encontramos mais 7 estranhos que foram encarecidamente forçados convidados a participar desse famigerado jogo que embora soe estranho para alguns, é extremamente familiar para outros.

E esse “outros” vale tanto para o leitor quanto para certos participantes da nova edição, a começar pelo fato de termos um coelho se apresentando! Sim, essa inteligência artificial que recebeu o nome de “Zero III” é quem fornece as regras e explica parcialmente como será o jogo dessa vez, o que já causa um estranhamento. “Em 999 todos tinham braceletes numerados, era uma voz quem dizia as regras, eles tinham 9 horas pra escapar… que bizarro… agora eles simplesmente estão sendo soltos em uma espécie de labirinto…” 

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São coisas como essa que reforçam muito a ideia de que você precisa mesmo ter jogado 999 para entender melhor e observar as mudanças em VLR! Algo que me chamou muito a atenção (e o Uchikoshi confirmou) foi uma ~amenização~ na… eu não tenho a palavra certa, mas creio que “sensação claustrofóbica” resuma bem; você lia 999 (o medroso aqui pelo menos) achando que seria morto no meio do quebra-cabeça por algo/armadilha/deus-sabe-o-que. Parece brincadeira falando agora, mas eu lembro que estava jogando 999 e peguei o final do submarino… fiquei 15 minutos sentado na escada com a luz acessa.

Era agonizante, era sufocante, era desesperador. Embora a contagem de horas não fosse em tempo real, você sabia que precisava resolver os quebra-cabeças, encontrar a porta com o 9 e escapar! O sentimento de urgência, a imagem daquele ser com máscara de gás e uma capa de chuva preta, tal qual um Grande Irmão que vigia tudo, era impossível esquecer essa impressão. Ainda é impossível, mas assim que você começa VLR percebe que algo mudou.

O Uchikoshi perguntou para as pessoas o motivo delas não terem comprado 999, boa parte delas afirmou “era um jogo assustador demais.” Isso influenciou dramaticamente VLR de forma peculiar, o foco desse jogo que tem 24 finais (lembrando que 999 eram meros 6 finais) é a exploração! Logo no menu do jogo você tem o “fluxograma” para observar as veredas disponíveis, você observa no primeiro momento e entende onde/como consegue fazer uma escolha para acessar a rota específica, mas todas são marcadas com “interrogações”; seguir é sempre perigoso, nunca se sabe onde está o bad ending, onde está o character ending… heh.

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Estranhamente você percebe que o jogo te deixa navegar tranquilamente pelo fluxograma e que conforme se avança pode se também retornar para outros cenários. A “desinformação” é a alma da série. O Zero III não te fornece todos os detalhes do Ambidex Game. A possibilidade de seguir por outras rotas só é descoberta quando o jogador vai testando o tal mapa. Segredos, detalhes bobos, são essas pequenas coisas que trabalhadas juntas formam a essência de Zero Escape, as reviravoltas! Nada, ninguém, nem a melhor série de todas consegue fazer reviravoltas como o Uchikoshi faz.

Elas são chocantes! É como se ele dissesse: “Isso. Isso, se aproxima. Mais um pouco, exato, vai por essa rota, passa por mais um cenário, muito bem! Descobriu mais um segredo! *Tapa na cara* Pronto, agora volta que você tá no lugar errado sem a informação necessária.” Fico feliz que essa sensação agradabilíssima não tenha mudado! Ah! Muito dessa aura que embora amenizada permanece em VLR é causada pelos personagens! E personagens muito “intrigantes” por sinal.

Um menino com um chapéu gigante, Quark. A mocinha que carrega a gaiola do pássaro azul no pescoço, Luna. A antiga jogadora, Clover. O desconfiado, Dio. O senhor de idade, Tenmyouji. O protagonista e estudante de medicina, Sigma. A jovem de cabelos brancos, Phi. E a musa, Alice. Ah, sem nos esquecermos do desmemoriado, K! Você se aliaria a algum deles? Você trairia algum deles? Essa é a essência do novo Nonary Game, um jogo bastante ambidestro, se me permitem a piada.

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Ao contrário do Nonary Game de 999 onde tudo estava delimitado e o foco era a fuga, agora os braceletes tem cores e numerações que variam! Nas palavras do lagomorfo: “Nonary Game é o jogo principal, o Ambidex é só uma adição”, você tem que ser racional e até emocional ao mesmo tempo. De forma ambidestra. De forma ambígua. Vai confiar e ganhar 2 pontos? Vai trair e ganhar 3 pontos? Será que o seu oponente confia em você? A paranoia aumenta, o Sigma fica paranoico, você fica paranoico, o clima geral é de desconfiança! Mas quando não se sabe em quem confiar, a traição pode ser uma virtude…

E você percebe as influências e mudanças entre os jogos da série, o Uchikoshi acabou levando em conta a opinião do público para construir o segundo jogo da série, mas é lógico que ele não abandonaria sua história/ideia original. As alterações feitas casam muito bem com o intuito de VLR, você tem que explorar, você tem que buscar informações, conversar e entender o motivo daquele jogo! Até mesmo essa liberdade maior de exploração com mapa e tudo também faz sentido ao fim do jogo. Ou começo do jogo.

São 24 finais, como eu disse. Só que dessa vez temos 16 (sim, dezesseis) escape rooms diferentes para serem resolvidos com segredos escondidos em cada um deles; por exemplo, agora se tem a opção de resolver os quebra-cabeças na dificuldade difícil ou fácil, isso altera o valor das informações encontradas nos cofres. E muitas dessas informações servem para aprofundar a história, elas não são fornecidas em momento algum pelos trechos de novel, por isso acho melhor resolver todos na dificuldade difícil e obter as melhores informações possíveis.

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“Nós somos parceiros. Isso significa que dividimos o mesmo destino.”

A ideia central é se aliar ou trair, isso fica bastante óbvio. Mas entre tantas divergências, nós vamos sempre salvando, voltando, salvando, voltando. Traímos, pegamos um bad ending, voltamos. Pegamos um character ending, comemoramos, voltamos. Salvar, voltar. E se eu te contar que é tudo “cannon”? E se eu te disser que cada um dos deliciosos bad endings que vamos pegar na história é cannon? Ele é oficial, ele realmente aconteceu. Nós podemos salvar e voltar, mas não nega o fato de que a sua traição causou aquilo. Entende? Tu fui, ego eris.

Se em 999 o Junpei manteve as lembranças através do campo morfogenético (telepatia), aqui em VLR… você viaja pelos mundos. Essa é literalmente a premissa de VLR que só fez sentido no final de 999, lembram-se? As escolhas do futuro alteram o passado. Só que dessa vez é muito mais grandioso, muito mais. Chegando ao ponto do jogador receber um “continua…” quando ele acessa determinada rota sem ter o conhecimento do que fazer nela. Kotaro Uchikoshi começa um jogo de manipulação incrível, muito perturbador por sinal.

E antes que eu me aprofunde melhor nessa ideia, preciso comentar uma descoberta pessoal sobre Zero Escape. A OST de 999 nunca saiu da minha cabeça, isso é um fato. Mas sempre senti algo diferente nela, talvez a força emocional delas… o que só foi fazer sentido dias atrás, quando eu descobri que a série se engloba no estilo “sound novel.” Sim, o mesmo estilo de Umineko. Aos que não sabem, isso é quase um carimbo de “você vai gritar de dor enquanto ouve uma música que não vai esquecer jamais.”

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Sempre gostei de falar das músicas de determinada série, com VLR não seria diferente, ainda mais depois que soube em qual categoria ela estava. Se me pedissem (e acho que para todos os fãs) uma única música que eu levaria comigo pro resto da vida da série, seria a “Lamento do Pássaro Azul”; porque ela não é só linda, mas ela cresce. Escute, ela aumenta, aumenta, aumenta e ressoa. Eu quase vejo a cena toda, eu vejo o pássaro azul se libertando, aquela conversa dramática, os momentos finais…

Mas antes da libertação, tem o desespero. A “Sublimidade.” É uma canção sublime como a morte. Ela parece ser sufocante, ela parece querer arrastar a cena para a própria morte. Ela diz para se ter mais esperanças, aquele que ouvi-la terá passado dos portões do inferno. Compare com “Trepidação” de 999, percebem uma diferença? Sublimidade leva ao desespero, mas Trepidação leva ao terror. E temos também a canção tema escutada quando conseguimos o character ending, o “tema de VLR“.

A urgência de “Tensão” é algo fantástico também! Percebam como cada uma delas consegue mudar completamente a atmosfera da cena, melhor, elas dominam a cena! O suor, as lágrimas, a fuga! E depois de tanto correr e gritar, uma “Confissão” será ouvida no momento certo… na rota certa… são tantas músicas, são tantas cenas. Sem falar nas 16 músicas diferentes para cada escape room. Poderia ficar por horas aqui, mas vamos nos encaminhar para o cerne do post.

O Gato de Schrödinger

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Gravem essa cena. Temos um gato com materiais perigosos. Gravem essa cena. Agora eu estou fechando a caixa com o gato e esses materiais dentro. A caixa está fechada. Existe a possibilidade dos materiais vazarem por uma série de motivos, o que levaria o gato a óbito. Mas a caixa está lacrada, vedada, não existe a possibilidade de se mexer com o conteúdo dela. Responda, nesse exato minuto, o gato está morto ou vivo? Vivo? Morto? Virtue’s Last Reward pode ser explicado por esse exemplo.

“Tu fui, ego eris… O que tu és, eu fui. O que eu sou, tu serás.” Nosso jogo dessa vez envolve a viagem pelos mundos paralelos. Onde diversos sigmas e diversos personagens estão repetindo o Nonary Game, cada qual com suas variações e divergências. Mas como acessar outros mundos? Como? Isso eu não posso explicar, mas a forma de lidar com Zero Escape não muda, só aceite os fatos. Você precisa pular pelos mundos, obter determinada senha, determinado conhecimento, salvar seus parceiros e parceiras da morte certa.

E se você cometesse uma traição, voltasse ao passado e escolhesse a opção de se aliar? Isso não mudaria o passado, pelo contrário, criaria um mundo divergente. Aquela traição sua permanece estagnada, aquele mundo chegou ao fim. Mas você pode pular para aquela mesma escolha e criar uma nova realidade. O Sigma não compreende isso inicialmente, mas o leitor entende até por ter passado por 999! Mas quem ganharia com isso? Qual é a finalidade de viajar entre dimensões? Questões, muitas questões…

"E se? E se...?"

“E se? E se…?”

Uma crítica muito pesada feita ao Kotaro Uchikoshi é pela forma como ele usa essa “pseudociência”. Muitos desgostaram de Zero Escape por acharem que é baboseira demais, é “surreal” demais; 999 e VLR tem uma certa tendência (baseado em Zero Escape, não sei da Trilogia do Infinito do mesmo autor) a serem como uma ladeira, sobe, sobe, sobe, sobe… quando chega no ápice, ela desce numa velocidade inimaginável. Em termos: o jogo vai te levando ao ápice e depois é só desespero, não digo que isso é uma crítica, por favor, é a forma de ser olhar a narrativa.

999 é muito bom, história linda e incrível, o final até se mantém “coeso” com a obra… mas muitos criticam. Criticam essa forma quase forçada de ciência que o Uchikoshi aplica no enredo e, inclusive, dizem que é uma história estúpida capaz de enganar as pessoas pelas suas reviravoltas. E isso eu acho muito extremo. Lembro que Ray Bradbury (autor de Fahrenheit 451) disse algo como: “O meu livro é o meu reino. Quem faz as regras dele sou eu.”

E daí que é pseudociência? E daí que ele se utiliza de explicações reais e mistura com ficção? E daí que envolve doenças, envolves alguns chamarizes sim? É quase pedante afirmar que a história é ruim só por esses motivos, mas respeito as opiniões, embora discorde delas. Então eu acho válido sim utilizar qualquer meio que o autor queira, ele pode sim misturar coisas se ficar coeso com a ideia central! É como ler Grande Sertão: Veredas, ou você se dispõe a ouvir a narrativa intrincada e sem ordem cronológica de Riobaldo, ou desiste e se levanta de cadeira.

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“Essa pessoa… é você!”

É sempre instigante ver as peças se encaixando, ver as descobertas, ver a revelação de qual dos jogadores é o Zero… é um ambiente tão complexo e interessante que não consigo desgostar. Mas as vendas de 999/VLR juntas dizem o contrário, não que vendas possam ser indicativo de qualidade, por favor, mas a grande maioria das pessoas nem se aproximou ou quer conhecer a série por opiniões muito fortes que são ditas a respeito dos jogos.

Na verdade, agora em 2015 estamos completando 3 anos que VLR foi lançado sem previsão do último jogo da série. O que me lembra de comentar outro fato, é que o final de VLR é ambidestro, assim como o jogo todo funciona. Ele fecha algumas questões (até mesmo sobre 999) e abre outras enlouquecedoras. Questões que só terão resposta em Zero Escape 3, sem previsão de lançamento! Algumas pessoas iniciaram na internet a “Operation Bluebird” para estimular o Uchikoshi nessa jornada, talvez tenhamos resultados esse ano… oremos.

Um retorno ao fim do começo

Sinceramente? Joguem. Joguem, leiam, enfim, procurem mesmo por 999 e VLR. São dois jogos surpreendentes em muitos sentidos, é impossível não gosta mesmo que seja um pouco. 999 é um exclusivo da nintendo DS (mas existem formas de você utilizá-lo sem ter o aparelho) e VLR é exclusivo do nintendo 3DS/VITA, esse último somente por meios oficiais, coisa que eu fiz através do meu VITA.

Pretendo jogar a Trilogia do Infinito esse ano ainda, quero conhecer melhor as origens do Uchikoshi e suas ideias. Bem, espero que ambos os jogos da série Zero Escape sejam tão impressionantes para vocês quanto foi para mim, sinceramente espero.

Espero que terminem Virtue’s Last Reward e fiquem desesperados pela continuação.

“Terminar” não é bem a palavra… porque… bom… é um começo. O começo do fim. O fim do começo.

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6 thoughts on “Zero Escape: Virtue’s Last Reward – “Tu fui, ego eris”

  1. Eu adoro a série. Meu interesse em VN beira ao nulo até hoje, mas comecei a jogar 999 porque sempre amei jogos de seek a way out, desde que joguei Crimson Room….acho q nos anos 90. Cheguei a abandonar 999 durante um tempo porque depois da primeira porta entra lá uns 30 minutos de conversa. Jogo eu gosto de JOGAR, de GAMEPLAY! Mas acabei insistindo em outra oportunidade, já com mais paciencia e fui surpreendido por essa excelente história. Assim que fiz o true ending de 999 corri pra e-shop e comprei VLR, que particularmente eu acho ainda melhor, principalmente por ter mais quartos pra fugir. Levei umas 50 horas pra zerar, foda demais. Pena que nunca teremos um Zero Escape 3.

    • Pena não! ZE3 vai acontecer sim! Tenho fé! O Uchikoshi vai conseguir encerrar essa série fantástica. Obrigado pelo comentário.

  2. Ola gostaria de fazer uma pergunta a respeito do jogo, eu me apaixonei pelo jogo, mesmo meu ingles não sendo tão bom eu consegui entender 95% da historia, acontece que o final me deixou meio confuso, e procurando net a fora só fiquei mais confuso ainda kkkk, então como aqui foi um dos poucos lugares que vi comentando sobre a franquia na nossa linguá portuguesa msm, venho pedir uma explicação do final que eu entendi mas algumas partes me deixou confuso.

    • Basicamente você passou o jogo inteiro “treinando”. Agora, na próxima parte (e última!) da trilogia você vai estar no subsolo do abrigo, preso e tentando evitar o fim da humanidade.

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