Muv-Luv – “Salve em nome do amor verdadeiro”

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Falar sobre Muv-Luv é uma experiência dolorosa e gratificante ao mesmo tempo. Acaba sendo bastante desafiador falar sobre a série sem soltar algum spoiler vital da mesma, mas acho que conseguirei dosar nessa situação como sempre tento fazer; vou falar dos 3 jogos em pontos específicos e intercalar com algumas opiniões/visões pessoais. Caso não saibam, Muv-Luv se separa entre “Extra/Unlimited” (30-50h) e “Alternative” (50h+), você precisa jogá-los na ordem mencionada.

A questão é por onde começar…

Pelo bem dos meus argumentos e da sua sanidade mental, mantenham essa imagem queimada na retina:

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PS: Vão me agradecer ainda.

Em algum momento entre Extra e Alternative tudo isso vai fazer sentido e você vai gargalhar de desespero com essa imagem. Ela também será a sua… err… inspiração para ler, principalmente quando você quiser desistir nas primeiras horas de Extra depois de seus amigos terem dito: “Não, vai fundo, melhor história,” para descobrir que na verdade eles se referiam à Alternative. A propaganda aparentemente enganosa é a alma do negócio.

No fim, você percebe que o Yoshimune Kouki, autor da obra, era doente desde o começo.

Uma realidade Extra

Como toda história dramática e épica Muv-Luv começa com anotações de um diário. Sim, exatamente. Uma garota se recordando da sua infância ao lado do melhor amigo desde sempre. Pensando agora, foi quase profético… seja bem-vindo ao cotidiano de Shirogane Takeru, o protagonista mais tranquilo de todos os tempos. Claro que esse começo tinha de ser memorável… como, por exemplo, o personagem principal acordando com uma menina desconhecida na cama dele e a amiga de infância vendo essa cena surtando. Diga sinceramente, olhe nos meus olhos sem mentir, é ou não o começo mais inovador, revolucionário e avant-garde que já se ouviu falar? É incrível!

Um pouco de veneno à parte, a série não começa nada promissora. Isto é, se você “sabe” o que te aguarda no futuro da série com “Unlimited” e “Alternative” tudo soa tedioso, então antes de qualquer leitura, encare essa primeira parte da obra exatamente como ela se apresenta; o que quero dizer é que se isso parece um slice-of-life, encare como um slice-of-life, sem criar grandes expectativas. Sei que posso estar soando um pouco Emiya Shirou com essa declaração, mas falo por experiência própria de alguém que vivia impaciente com Extra e seus momentos aleatórios.

Muv-Luv vai “melhorar” e aquilo que prometeram como “a história mais urrante de mechas” vai começar, mas não é agora. Embora não pareça em um primeiro momento (na verdade, até Alternative fica essa impressão) Extra é bastante fundamental para os eventos futuros da série; recomendação sincera, simplesmente se divirta com esse cotidiano louco do Takeru, garanto que vai deixar saudades. Explicações-para-evitar-estresse feitas, vamos falar da atribulada vida de um estudante. Do Deus. Do homem. Do Takeru.

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O cenário transita entre a casa do Shirogane e o Colégio Hakuryo, as mais loucas interações ocorrem sempre entre esses cenários e nesse sentido Extra não falha. Não foram poucas as vezes em que eu fiquei gargalhando muito alto com certos ~acontecimentos~, essa parte é realmente bacana desde que você respire e aproveite o clima do jogo, são piadas até bobas mas bem engraçadas. Outro fator que ajuda muito são os exageros, em várias cenas os personagens ficam “deformados” ou encontramos referências gritantes de outras séries, tudo isso gera algo bem caricato, que é a marca de Extra.

Falar do Takeru (pelo menos no começo) é dizer que ele é um protagonista normal de harém, possivelmente menos idiota do que a maioria, mas tem um jeito bastante particular de lidar com os problemas. Ele não se sobressai, mas também não fica abaixo da média, acho até que ele tem uma boa personalidade; tudo sempre transita ao seu redor, seja com sua melhor amiga ou a estranha garota que surgiu em sua casa repentinamente, ele é o centro das atenções!

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Antes de falarmos das mocinhas, algo que eu achei engraçado nas referências, foi um certo jogo que o Takeru adora chamado “Valgernon”. Essa é uma óbvia referência ao “Virtual-on” da época, um jogo sobre… robôs. Não parece, mas Extra está cheio de pequenas piadas internas que só fazem sentido quando você terminou a obra completa. Realmente recomendo voltarem depois, as piadas são quase mórbidas.

Todo bom harém têm suas concorrentes se digladiando pelo coração do protagonista, então aproveitando a deixa, vamos conversar sobre as ~mocinhas~.

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Começando com a minha waifu de coração, Kagami Sumika, ela é a querida amiga de infância do Takeru, seu diário é repleto de pequenas memórias ao lado dele, ela é um doce de pessoa. A garota que surgiu do nada mas carrega uma lembrança importante, Mitsurugi Meiya, a pessoa que alega “estar destinada” a ficar com o Takeru! A mocinha de cabelo rosa e tímida, além de ser uma grande desastrada, Tamase Miki. Aquela certa pessoa de óculos que (tenta) controla a sala de aula, a representante de classe, Sakaki Chizuru! A silenciosa mas bastante ardilosa, Ayamine Kei… e… tem um certo ser, um amigx do Takeru, Yoroi Mikoto.

Essa turminha que apronta mil e umas Essa é a essência do harém principal, obviamente temos algumas personagens muito marcantes que inicialmente não tem tanto destaque para o enredo, como a inigualável professora de classe, Jinguuji Marimo e a professora de física-que-na-verdade-é-um-gênio Kouzuki Yuuko! E essas apresentações podem seguir por horas, mas vou tentar me manter apenas nessas personagens (mas existem muitas outras) essencialmente, essa primeira parte é sempre no harém principal, com piadinhas e amenidades.

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Existem alguns momentos muito legais dentro de Extra, os arcos do Lacrosse e Fontes Termais são os que acabam marcando mesmo até aqui; por mais que eu tenha dito “nada relevante acontece” as rotas se desenvolvem de forma agradável, um pouco de sofrimento aqui, novas risadas ali e o inevitável desfecho onde você decide com qual delas fica. Reiterando, é tudo comum, normal, sem (grandes) reviravoltas; mas é divertido, bacana e o fundamental, oferece uma primeira camada de história que aparentemente não tem valor.

“Extra/Unlimited” acabam vindo no mesmo pacote quando você começa a VN, mas “Unlimited” só se torna acessível após completar as rotas da Sumika/Meiya no Extra, recomenda-se fazer também a rota da Ayamine ainda no Extra. Após toda essa jornada, você retorna ao menu principal e percebe algo muito diferente. Amiguinho, você acaba de se deparar com o prelúdio do mais sensacional e sem nexo (inicialmente) algum “genre shift” registrado na história.

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Genre Shift

"Mas que droga eu estou lendo?"

“Mas que droga eu estou lendo?”

Vamos pegar um exemplo prático: Madoka Magica. Venderam a ideia de que seria inocente, fofo e com garotinhas mágicas salvando o mundo. Até o episódio 2 foi isso mesmo, só que como todos sabem, o episódio 3 foi de perder a cabeça e alterou completamente aquilo que aparentemente seria só mais um Mahou Shoujo. Uma premissa aparentemente boba, alterada, para ser algo completamente obscuro que até questionava a história de “meninas salvando o mundo pelo bem maior”, afinal elas sacrificam a própria alma por um desejo; a questão é que existe uma base para essa virada brusca ocorrer.

Era um Mahou Shoujo. Ponto. Continua sendo Mahou Shoujo. Ponto. Só que essa forma brusca de se mudar dentro de um gênero tão conhecido é o que gerou choque nos telespectadores. Isso tudo funciona com uma “base” de apoio, até mesmo um harém pode virar um shounen de porrada por N capítulos se o autor quiser angariar leitores, mas tudo segue se mantendo dentro da expectativa. O problema com Muv-Luv… o problema…

É que não faz sentido. Não. faz. sentido. Não tem “transição”, não tem “apresentação”. Você acompanha o cotidiano de Shirogane Takeru em uma cidade comum, com eventos comuns e… com o perdão da palavra, porra. Porra. Falo sério, eu preciso expressar a minha frustração no primeiro momento da leitura. Você vivia na cidade comum e pronto, puff, foi parar em um novo mundo onde 5 bilhões de pessoas foram mortas por uma raça alienígena.

Mangá de Muv-Luv. E a sua reação, daqui em diante.

Mangá de Muv-Luv. E a sua reação, daqui em diante.

Chega a ser engraçado pensar nisso agora, lembro do quão frustrado sinceramente fiquei e me soa idiota. Perdoem-me se estou exagerando, mas se alguém realmente pensa: “bom… é né, saímos do Slice-of-Life para o gênero mecha, faz sentido”, realmente quero aprender a pensar dessa forma com os problemas da vida. Só que você não percebe se realmente não analisar, mas isso é uma tremenda arma para a imersão no enredo, isto é, para se colocar ainda mais na pele do Shirogane. É tão abrupto, tão extremo, tão sem explicação, que você fica chocado junto com o protagonista.

Assim, sem fio condutor lógico, iniciamos Muv-Luv Unlimited.

Gosto de pensar em Muv-Luv como na Divina Comédia: Paraíso, purgatório e inferno, só que o caminho é o inverso.

Extra é o paraíso.

Unlimited é o purgatório.

Alternative é o inferno.

Só mais um círculo e chegamos lá…

Entenderam? Entenderam? Só mais um círculo. Do inferno. Pffft.

Entenderam? Entenderam? Só mais um círculo. Do inferno. Pffft. Essas minhas piadas são de perder a cabeça, francamente.

As rotas Ilimitadas

“Finalmente! É agora, os mechas que me prometeram! Amém!”… se eu fosse você me segurava um pouco ainda. Só um pouco. Despertar em uma realidade nova, sem pais, sem casa, sem nada. Esse clima desespero é o que vai permear Unlimited e consequentemente Alternative, desespero da forma mais pura; é intrigante que o próprio protagonista não faz ideia do que houve e como ele se “transferiu” para esse mundo devastado. A única coisa que resta é ficar buscando respostas e… ficar eufórico porque existem robôs gigantes.

Não sou um gênio, mas acho que também ficaria exaltado se soubesse que robôs gigantes existem. É a típica situação onde o seu cérebro de tão chocado não processa a gravidade daquilo, então no primeiro instante possível, sua mente viaja e cria uma possível resposta. No caso fica em aberto se Unlimited é um sonho ou não, quem sabe um delírio… essa introdução aos novos desafios do Takeru é bastante complexa, ele não entende como foi parar ali e ninguém consegue explicar, então só resta se adaptar; a Yuuko é a pessoa que carrega teorias com algumas respostas.

O problema da adaptação do Shirogane é que ele não faz ideia de nada, esse “novo Japão” não é nem remotamente parecido com a tranquilidade que ele vivia. Sem falar nas suas colegas de classe que por mais parecidas que sejam com as antigas, têm algumas personalidades muito distintas! E confusão após confusão, você consegue se estabelecer e entender o que está se passando com o mundo em geral, o primordial de qualquer obra é a construção de personagem e enredo, conseguir dosar ambas as coisas nem sempre é possível, mas Muv-Luv se sobressai com facilidade.

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Nós somos apresentados aos acontecimentos não tão recentes de forma didática pela Kouzuki, a forma como o mundo foi destruído rapidamente e o primeiro contato com… os BETA (The Beings of Extra Terrestrial origin which is Adversary of human race). É tudo bastante explicativo dentro do permitido, por ser um estranho, o Takeru acaba tendo acesso a informações um pouco acima da média, mas acaba chocado pelo conteúdo; a terra inteira foi praticamente devastada por uma raça alienígena que não se comunica ou muito menos considera a humanidade algo “vivo”, somos só uma “coisa” na visão deles.

E ele recebe uma oferta: fazer parte da Base de Yokohama, especificamente parte do Esquadrão 207 e treinar para se tornar um Eishi. Não, não estou sendo weabo, embora possa ser resumido como “piloto” também, eles estão treinando para ser Eishis! É quase um modo de vida, é uma nova forma de encarar o campo de batalha com coragem, por mais assustador que seja; proposta que é aceita prontamente, quem não quer pilotar um robô gigante, não é verdade?

Todo mundo tem o hábito de ignorar um problema maior e tentar resolver o menor, pois acredita que isso facilita no processo. Isso acaba ocorrendo de forma natural em Unlimited, você acaba sendo tão ~esmagado~ pela realidade que só mantém em foco na adaptação, como lidar com os BETAs, como interagir com suas colegas de classe… é quase lavagem cerebral, dizendo de forma extrema. Extra vai se apagando da mente do leitor e do protagonista, não é nem mais uma questão, é só algo sem valor que ocorreu em algum momento distante.

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Esse efeito de narração deixa tudo quase natural, conforme o Takeru se aproxima dos colegas novamente, vai sendo treinado… tudo é natural na medida do possível. Essa transição de civil para Eishi é a base da história em Unlimited, você é apresentado aos TSFs (mechas) e seus diversos modelos, a forma correta de se pilotar, pequenas nuances de batalhas e vislumbres dos BETAs; curiosamente não conseguimos visualizar a aparência dos aliens, apenas suas silhuetas, fato que gera bastante curiosidade e arrependimento. Porque você vai sim se arrepender de ficar ansioso para ver os BETAs.

Outro ponto nessa adaptação é lidar com a mentalidade de um soldado, para o Shirogane é inconcebível certas atitudes dos militares, como por exemplo seguir uma ordem mesmo que isso resulte na morte dele mesmo. Essa hierarquização é só a primeira das barreiras, temos também ele tentando (reforçando, tentando) superar as barreiras… do sexo. Digo, esse uniforme todo transparente é algo que ajuda no processo de pensar na sua amiga não como possível romance, mas sim como companheira de guerra, um soldado que vai combater ao seu lado. Tem a ver também com a forma como você pensa na nudez, levando em conta que nas linhas de frente não existem luxos ou privacidade, ver sua amiga daquela forma desfaz certas ideias… err… ideias.

Unlimited é muito bom nesse aspecto, ele conduz o leitor para o mundo dos militares, apresenta as terminologias e o modo ~Eishi~ de encarar as situações. É formidável e bem mais animador do que Extra, em muitos aspectos; recomendo ler com bastante calma certos trechos para captar melhor os termos e alguns pensamentos soltos no ar. Só acompanhamos a situação do ponto de vista do Takeru, então muita coisa dita por outros personagens pode ter sentido ambíguo, é preciso atenção.

A grande atração são os mechas, os benditos robôs que tanto alardearam para você. Depois de um longo e exaustivo treinamento, somos apresentados aos robôs e é fantástico. Existe muita verossimilhança (se é que posso chamar assim) nas primeiras vezes que eles pilotam, não é só subir e pilotar, precisam passar pelo simulador, gravar os movimentos, otimizar a movimentação, é como dirigir nas primeiras vezes. A forma como os robôs são demonstrados não é só por CGs ou narrativa, eles realmente se movimentam! E se movimentam de forma incrível e bastante 3D, tudo graças ao motor gráfico dos milagres. Ao rUGP.

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rUGP – The relic Unified Game Platform

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Antes de entrarmos em Alternative e no meu quase ragequit… vamos falar de algo peculiar em Muv-Luv, o seu motor gráfico. Quem está mais acostumado com a mídia, sabe que a palavra “visual” é mais no sentido de ter alguns sprites específicos e cenários, além das CGs que conhecemos. Mas isso muda em Muv-Luv com a “movimentação 3D” dos mechas, além das cenas animadas totalmente em 2D. Atualmente nos animes temos aquele 3D grotesco ou um CGI porco que chega a ser estranho ver em uma VN animação totalmente 2D.

Preciso lembrar que Muv-Luv Extra/Unlimited foi lançado em 2003, enquanto Alternative foi lançado em 2006. Esses 3 anos de diferença foram mais no aperfeiçoamento da movimentação e aspectos técnicos do motor gráfico, do que propriamente montando o enredo; quando digo isso não é que a história foi deixada de lado, mas originalmente a obra viria compactada em um único DVD, só que conforme avançaram na criação do enredo perceberam que Alternative precisaria de um foco maior na mobilidade.

Durante Unlimited já é possível notar que temos em mãos uma obra diferenciada nesse aspecto “visual”, mas é com Alternative que isso se torna gritante. A piada é que o rUGP é tão potente, mas tão potente, que só o Windows XP consegue fazê-lo funcionar; uma alusão óbvia ao tanto de problemas que podem ocorrer na instalação do jogo e em softwares mais recentes. É tão complexo mexer com isso que até o processo de tradução emperrou na época, pois não conseguiam deixar tudo 100% operacional.

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Não tenho muita experiência com animes e histórias de mechas no geral, mas creio poder afirmar com alguma certeza que as mais intensas e deslumbrantes batalhas ocorrem em Muv-Luv. Intensidade, velocidade e sentimento. O rUGP é formidável em conseguir criar e fornecer toda essa manobrabilidade, além de vermos a parte de dentro das Colméias em toda a sua dimensão, estar no cockpit do piloto observando a passagem fluindo… realmente fantástico.

Ok, agora podemos falar do meu quase ragequit e como Muv-Luv ainda me ensina coisas sobre a mídia de valor elevado.

A última Alternativa

SENTE ESSE JAM PROJECT NA SUA ALMA. SENTE. RESPIRA. DEIXA ESSA MÚSICA INVADIR CADA MÍSERO PORO DO SEU CORPO. PENSA NAQUELE SOFRIMENTO DE EXTRA, PENSA NAQUELE MALDITO FIM DE UNLIMITED. NAQUELE. MALDITO. FIM. SÓ. SENTE. ESSA MÚSICA NO SEU CORPO. SINTA. BEM-VINDOS À ALTERNATIVE. BEM-VINDOS AO INFERNO.

Este é deus em forma humana. Observem deus sorrir.

Este é deus em forma humana. Observem deus sorrir. E é você também sorrindo porque finalmente passou pelo purgatório.

Agora sim. Lembra de quando te prometeram a mais apoteótica das músicas? Lembra de quando te prometeram “a mais sensacional história” do mundo? Sim, sim. Você chegou até aqui, parabéns. Meus sinceros parabéns. Eu sei o que é preciso passar para chegar ao inferno, eu sei. Dolorosamente sei. Mas vamos falar de coisa boa (não é a tekpix), vamos falar do que encontramos em Alternative. E lembrar também de um fato curioso.

Se você acessar o VNDB e observar Muv-Luv (não façam isso antes de jogar por favor) percebem que ele é separado em 2 jogos. Muv-Luv Extra/Unlimited em um pacote e Alternative no outro. O tempo de jogo entre eles aumenta também! Alternative é bem maior do que Extra/Unlimited, até a média de pontuação é difere entre as obras, mas elas formam Muv-Luv em toda sua plenitude. Muv-Luv só faz sentido em Alternative, ouso dizer mais, Extra/Unlimited são um “build-up” para o palco principal de Alternative.

Eu afirmo até que o valor da história de Extra muda completamente com Alternative, tudo ganha um novo formato tão fantástico que o próprio Extra se torna incrível! Essa é a maior prova que o “genre shift” não foi só por falta de criatividade do autor, muito pelo contrário, quanto mais nos aprofundamos em Alternative, mais perturbadora se torna a realidade do enredo! Em suma, Extra/Unlimited foram escritos com Alternative em mente. E pensar que quase desisti de tanta coisa…

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A evolução não só do Takeru, mas de todas as amigas dele explode! Explode! É um avanço tão brutal que deixa algumas histórias parecendo bobagem; essa diferença toda não é só nas habilidades, mas na mentalidade e ações de cada um, eles não são cadetes, são verdadeiros Eishis. Pilotar agora é não só questão de vida ou morte, mas é pelo bem da humanidade, é pelo bem da esperança que eles carregam. Os conflitos aqui também se tornam mais interessantes.

Por mais que eles sejam treinados como soldados das Nações Unidas e precisem ser “neutros,” no fundo eles são japoneses e carregam orgulho disso. Então quando as ordens inferem em manchar essa honra, esse patriotismo, eles ficam sem reação. O mais neutro deles é o Shirogane pelas circunstâncias de ter vindo de um Japão com valores diferentes, então para ele soa bobagem, mas é uma questão extremamente séria. Isso mexe com o brio e sentimentos enraizados, é o tipo de conflito interno que pode gerar mortes.

Esse senso de perigo que já estava presente em Unlimited é elevado a enésima potência. Eles têm tanta consciência quanto o leitor de que a morte é algo iminente nesse contexto de guerra, mas nem por isso hesitam em fazer o necessário, embora falhem algumas vezes. Hesitar em atirar. Chorar. Gritar. Se desesperar. Ficar com medo. “Sou um bom Eishi? Por que me tornei um Eishi? Meus inimigos não são os BETAs? Por que a humanidade luta?”. Entendem o que eu quero dizer? Eles são treinados, mas sem jamais deixar de serem humanos.

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Eu não comentei até agora sobre a OST porque aguardei chegar em Alternative e fazer jus a esse ponto. Pode não ser alucinante como Umineko. Pode não ser retumbante como Fate/Stay Night. Mas… mas… ela ressoa. Ela. ressoa. Pode não ser uma baladinha das gaivotas, mas temos a Original Hive, a impactante e marcante Crash! Mais ainda? Não se convenceu? Pilotar um TSF e destroçar todo BETA a sua frente ao som de Storm Vanguard é soberbo. Ou quem sabe a emocionante canção que relembra os laços dos amigos perdidos, Bonds? A sensação claustrofóbica de Absolute Crisis? E a canção da projeção mais emocionalmente destruidora de todos os tempos, Something Stolen.

Cada canção, cada OST, cada uma delas representa algum momento de Muv-Luv. Feliz ou triste. Desesperador ou reconfortante. Elas carregam sentimento, algo que é bem raro nos tempos atuais. Ela também mostra o quão grandiosa é essa história e seus personagens. Tudo até Alternative soa como um presságio do que realmente estava por vir, e quando acontece, é só desespero até o maldito fim.

Alternative é um clima de guerra extremo. E imitando o sábio Emiya Shirou, digo: “Pessoas morrem quando são mortas”. Eu sei, é retardado, é idiota. Mas é uma constatação que eu devo fazer. As vezes estamos tão acostumados com personagens morrerem e, sei lá, por um Deus ex machina voltarem a vida que soa estranho, mas os personagens aqui realmente morrem. E morrem com requintes de crueldade que fariam o Ryukishi07 bater palmas. Esse é o espírito da terceira parte de Muv-Luv.

Gritos, desespero, mortes. O inferno na terra. Teorias. Conflitos internos. Revoluções. O garoto, o soldado, a lenda. O salvador do mundo que chora, grita e tenta salvar o mundo. O mesmo que quer salvar a todos e falha nisso, sem conseguir evitar as lágrimas. Ele é o herói que precisamos e temos, ele é Shirogane Takeru.

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Salvar o quê?

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Se você olha bem ali na OP/intro de Muv-Luv já percebe um subtítulo: “Salve em nome do amor verdadeiro.” Eu te faço uma rápida pergunta: Salvar o quê? Alternative oferece uma aparente resposta, com o “mundo se tornando o coração”. Mas é outro tipo de indagação que a história faz, é mais… pessoal. O “salve” nunca específica algo, é simplesmente “salvar” em nome do sentimento verdadeiro.

Salvar os companheiros de batalha. Salvar os entes queridos. Salvar o país. Salvar a pessoa amada.

No processo de salvar o mundo, você acaba salvando algo a mais.

Enfim, é só uma indagação boba.

O que realmente importa é ler Muv-Luv com o coração e a valentia de um Eishi.

É ler Muv-Luv buscando o amor.

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9 thoughts on “Muv-Luv – “Salve em nome do amor verdadeiro”

    • RECOMENDO TSUKIHIME também! As roupas são distintas no começo, mas depois com as explicações e tudo o mais, fica até OK.

  1. Excelente review. Já tinha sido muito recomendado a ler/jogar Muv Luv, mas como não tinha tempo por cmpromissos tinha me esquecido, mas ao ler seus comentários me deu realmente vontade de ler a obra, em bora terei que terminar primeiro Fate/hollow ataraxia. E pode ser off-topic, mas como sempre é bom se ler a obra original, porque muitas vezes a adaptação não faz jus a qualidade da mesma. Eu li/joguei toda a VN de Fate/stay night, e embora alguns momentos me irrita se com o Shirou, em nenhum momento o odiei ou mesmo suas escolhas. Elas eram plausíveis com a sua personalidade. E com as circunstâncias. Mas aquela adaptação antiga fraca e más traduções (como a “as pessoas morrem quando estão mortas”) acabam por afetar a interpretação que as pessoas tem por um personagem e até ter odio pelo mesmo. O que é uma pena. Novamente, excelente post, e espero ansiosamente pelos que virão.

    • Obrigado! E sim, recomendo Muv-Luv fortemente! F/SN tem sim seus problemas… Mas o Shirou melhora, em HF ele é ótimo! Agradeço o comentário~

      • Valeu! Sim, claramente tem seus problemas, e não os nego (e uma das coisas que mais me irritava era a seção de culinária incessantes em todas as rotas, com o auge em Heaven´s feel, que chegavam a ser sufocantes), mas assim como Muv Luv e outras visual novels em geral, admiro a possibilidade de imersão e comparativos que a própria obra pode fazer consigo mesma. E isso é um grande diferencial. Ali você tem uma três caminhos possíveis que levam a histórias diferentes, mas ainda assim a essência do personagem está lá, e mesmo nas escolhas mais extremas, ela é preservada.

        E novamente, agradeço os posts, e já sou um leitor de longa data do seu site, que curte muito tempo o material que fornecem, mesmo que nunca tenha comentado, então fica aqui meu agradecimento, até pelos posts que não fiz, e espero um bom futuro para o site, e logicamente para os membros do mesmo. Muito obrigado.

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