Higanbana no Saku Yoru Ni [Visual Novel] – “A crueldade do florescer”

ss+(2014-12-06+at+05.14.41)

*TEEHEEHEEHEHEE*

Conseguem escutar? O riso, a zombaria? Ela está se aproximando.

A nossa Higanbana.

O nosso Lírio de Aranha.

A crueldade, o carma, o ciclo.

Saindo de uma longa narrativa do R07 para entrar em outra! Juro que não era a minha intenção, mas como me disseram ser algo “mais curto” se comparado a Umineko resolvi ler; Higanbana é uma história que pode ser definida de tantas formas inimagináveis… que me faltam palavras. Não esperava menos do maestro das narrativas! Bullying. Carma. Vingança. Vitimização. Abuso sexual.

Parece ser algo extremamente grave, não? Ironicamente é o que acontece nas escolas. Todos o dias.

Os Sete Grandes Mistérios

ss+(2014-11-22+at+09.40.13)

“(…) Porém, uma garota estar de roupa íntima em um banheiro, isso era estranho. E vestir sua mochila sobre essa roupa íntima, isso era estranho. Uma garota e um homem sozinhos nesse mesmo banheiro, isso era estranho. Ainda que imaginemos as coisas indecorosas que ali ocorreram, a melhor definição ainda seria a palavra ‘estranho.'”

É com essa descrição que se inicia Higanbana. Um choro ao fundo, essa narrativa que diz silenciosamente o quão estranho é essa cena, o desespero de uma menina. Marie Moriya estava sendo molestada novamente pelo professor e suportando seu inferno particular na escola; acho que não preciso dizer que é uma história forte, não é? Ryukishi07 não poupa palavras, não poupa descrições! É o “santuário” chamado escola que por tantas vezes gera histórias hediondas, acompanharemos a primazia da narrativa revelando o que de pior existe em nosso brio. Mas… se existisse salvação? E se você pudesse fugir de tudo? Talvez a esperança sejam os youkais.

Higanbana no Saku Yoru Ni” é divido em “Primeira” e “Segunda” noites, ao todo são 14 crônicas envolvendo o universo escolar e sua interação com os youkais. Na verdade, youkai acaba sendo a palavra chave desse enredo; a primeira e mais brutal das histórias é sobre a Marie que sofre bullying em sua forma mais desprezível, além de ser abusada quase que diariamente pelo professor! Seus pensamentos sempre retornam para a ideia de suicídio, ela se compara com as irmãs mais velhas, os pais não se interessam por seus apelos, o desespero a consome de pouco em pouco. Sua única escapatória? Um estranho pensamento: “E se… eu me tornar um youkai? E se eu me tornar o Meso-Meso?”

"...A determinação para deixar de ser humana."

“…A determinação para deixar de ser humana.”

Esse é só o primeiro dos contos onde o R07 constrói um folclore soberbo envolvendo a nossa realidade. Nós temos novamente um elemento sobrenatural nas narrativas, os famigerados youkais! Nesse caso eles assumem o papel dos sete mistérios das escolas japonesas, acho que o melhor exemplo seriam as nossas lendas urbanas, algo como a loira do banheiro, entendem? Só que no japão existe o misticismo com o número sete, então ~coincidentemente~ eles são sete nas escolas; desde a boneca que fica na enfermaria ao monstro que habita o décimo terceiro degrau da escada! Essas lendas retumbam e se espreitam nas sombras, devorando almas, ludibriando humanos! Com base nisso temos as interações humano/youkais e os desfechos delas, tudo, dentro da escola.

A palavra para definir como funciona a narrativa de Higanbana é “introspectiva”. Se em Umineko é tudo ululante, fato bastante notado em sua trilha sonora e embates verdadeiramente épicos, aqui temos pensamentos, formas de agir e movimentações que remetem aos slice-of-life. Não interprete errado, Umineko trabalha muito bem seus pensamentos e afins, mas Higanbana é essencialmente isso. Não temos grandes lutas ou discussões, mas afirmo com total segurança que existem diálogos cruelmente realista, longos monólogos e uma fria narrativa; em nenhum momento o autor poupa seu leitor da monstruosidade das situações, do bullying ou da sociedade.

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Não existe uma grande ascensão no ritmo da narrativa (Ou seja, você não vai gritar lendo desejando que bruxas morram), muitas vezes começamos no meio do problema entre humano/youkai para só então o autor retroceder no conto e entendermos como estamos naquela situação. As principais reviravoltas (e por esse mesmo motivo vou evitar abordar o assunto) são causadas pelo “reconhecimento” dos personagens, descobrindo seus nomes, descobrindo que são youkais ou memórias perdidas deles mesmos! Mas podemos falar um pouco sobre os youkais em si, sem maiores detalhes.

A mais “famosa” (embora ocupe o Terceiro Lugar no ranking dos Sete) é a “Dançante Higanbana”, uma boneca ocidental que vive na enfermaria. Sua lenda envolve alguns alunos ouvirem/verem essa mesma boneca dançar na enfermaria quando ninguém está olhando! Ela é ranzinza, temperamental e maldosa, ela é o primeiro dos habitantes da noite a estabelecer contato com a Marie. Todos os youkais são cruéis de alguma forma, não existe maniqueísmo na apresentação deles, todos são demônios que invariavelmente vão devorar almas humanas; alguns podem optar por aparentemente ajudar um humano para transformá-lo em sua refeição ou fazê-lo de forma sincera.

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“Sou o único qualificado. Sou aquele que suportou todo o bullying. Então o que estou fazendo com eles não é bullying! É a simples justiça.”

Essa relação humano/youkai é completamente exposta ao leitor. Sabem aquele escorregão no chão que fez todos rirem? Um youkai te fez tropeçar. Lembram do dia em que chegaram atrasados? Um youkai. Alguns momentos são bem engraçados nessas interações… mas outras serão extremamente cruéis. E aproveitando o tema crueldade, imagino que seja interessante dissertar um pouco sobre o leitmotiv da obra que é o bullying. A forma como os professores zombam de alunos, as hierarquias internas e “utopia” que isso acaba gerando, tudo é abordado sendo pudores.

Quase todas as crônicas envolvem pessoas que sofreram bullying e estão desesperadas. Procuraram pais, mães ou amigos, mas não encontraram refúgio em lugar algum; o R07 explora ao máximo e com bastante sinceridade esse tema. “E os excluídos? E aqueles que não têm amigos? E aqueles que querem se matar?”, esses pontos de vista serão abordados de forma realista e garanto que não será nada agradável; a definição mais plena da escola é feita como “um santuário, um local desconectado da sociedade, onde o martelo da justiça não alcança.”

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“Neste mundo a retribuição deve ser algo existente. A punição para os malignos. Uma recompensa aos bondosos. Mas os tempos mudaram. Os vilões que praticam bullying estão nas escolas, livres, sem punição até a formatura. (…) Depois, crianças de boa índole são jogadas para a sociedade carregando traumas dos tempos escolares… isso é contra as leis do carma.”

O professor sofre pressão do diretor. Ele não consegue fazer os alunos alcançarem as metas de notas. Ele surta. Um complexo de superioridade inato em si o deixa revoltado. “Eu sou o melhor! Como esse merdinha ousa?!”. Uma menina implorando por ajuda encontra refúgio nesse professor. Ele começa a cobrar coisas dela. É um grande ciclo, que se repete e repete. Fica explícito que isso é a realidade do nosso cotidiano, quantas vezes essa situação não se repete? Por motivos torpes, imbecis.

O Ryukishi estabelece um paralelo perturbadoramente interessante entre as “caçadas” dos youkais e o bullying dos humanos. Tal como os youkais caçam suas presas, os humanos escolhem o mais fraco de sua espécie e o caçam também! Se nós somos a luz/aqueles que dominam a escola de dia, os youkais são a escuridão/aqueles que residem na escola de noite; mas muitas vezes os próprios youkais se revoltam com atitudes humanas, a maior ironia da história provavelmente é essa. Nosso maestro não responde essas questões, mas se você ler nas entrelinhas, encontrará respostas…

"QUE NÓS NÃO PODEMOS ACEITAR UM HUMANO DOENTIO COMO VOCÊ!"

“QUE NÓS NÃO PODEMOS ACEITAR UM HUMANO DOENTIO COMO VOCÊ!”

E por mais ~breve~ que possa parecer, o autor encontra tempo para explicar melhor sobre o funcionamento do mundo youkai! A sua hierarquia, como eles estabelecem regras e suas definições de “melhores presas”; a crueldade dos youkais algumas vezes parece até misericordiosa se comparado ao que os alunos fazem na escola. Não posso deixar de lembrar que ainda estamos falando de uma visual novel do 07th expansion, ou seja, a trilha sonora é fundamental!

É com essa incrível opening que somos recebidos depois do prólogo de Higanbana! Com vozes de criança e risadas ao fundo, um prenúncio breve do que será lido; uma OST  incrível feita pelo Dai! Uma bastante marcante é a junção fantástica entre o típico som do sinal das escolas japonesa com tambores! Digam-me, não conseguem ouvir os passos? Os youkais se aglomerando? DING DONG DING DONG. O banquete está servido! *TEEHEEHEEHEE*. Ou quem sabe, um retumbar profundo! Não consegue sentir? Não consegue ver? Os youkais se digladiando, o ódio em seus olhares! FUJA. CORRA. ELES SE APROXIMAM, UM HUMANO NÃO DEVE TESTEMUNHAR O INTESTEMUNHÁVEL!

Não, me enganei, você precisa de uma canção que te faça ter coragem! Você sobreviveu! Você conseguiu! Os youkais aceitam seu valor, você foi reconhecido! Um alívio no peito como se você estivesse naquela situação, o milagre da música com a narrativa de Ryukishi07! Para finalizar o meu argumento, uma baladinha. Não seria 07th expansion sem pelo menos uma baladinha, por favor.

Um último ponto antes de encerrarmos, é que a VN não tem dublagem! Além disso, podem reparar bem que esse traço é o original do R07, sem novas versões dessa vez, apenas a primeira que saiu para o PC. Pode ser estranho no começo, mas confio na rápida adaptação de todos que quiserem ler a obra e garanto que vale totalmente a leitura! Até porque… as caretas dos personagens… ah… as caretas…

“Pois na morte, só se florescem Higanbanas”

Os Lírios de Aranha.

Os Lírios de Aranha.

O florescer dos alunos é cruel, sendo testados pela sociedade, pelos professores, batalhando para se enturmarem. Sofrendo bullying, desejando novas amizades, um mero amigo que o salve! Acompanhar tudo isso será cruel, possivelmente muitos de vocês até vão se identificar com a situação… mas suporte. Suporte tudo. É preciso acreditar que o bem vence no fim.

Isto é… dependendo da sua definição de bem.

"Até o próximo semestre!"

“Até o próximo semestre!”

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2 thoughts on “Higanbana no Saku Yoru Ni [Visual Novel] – “A crueldade do florescer”

  1. Achei interessante a citação feita sobre os lírios de aranha que são geralmente associados a saudade e a transição, combinam bem com o ar da novel. Depois que que eu eu terminar as minhas provas eu com certeza vou dar uma olhada nessas Visual novels, valeu Raigho.

    • Obrigado, Ian! Fico feliz que tenha gostado, de fato, o lírio de aranha tem todo um simbolismo no enredo; só um pequeno detalhe dessa formidável obra. Por favor, leia sim! E novamente, muito obrigado pelo comentário.

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