Hanachirasu – “O conto das lâminas rubras”

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Adivinha quem adora uma VN curta da Nitroplus?

Desde Kikokugai eu comecei a procurar mais recomendações de obras curtas do mesmo gênero, encontrá-las é fácil, mas algo com pedigree requer certa pesquisa; por acaso recebi uma recomendação muito boa de outra obra também da Nitro+! Ela não deixa de ser clichê com o tema “vingança entre samurais” mas digamos que tem uma roupagem moderna, um estilo bastante próprio e interessante de narrar as batalhas e eventos.

Vamos conversar um pouco sobre qual espada é melhor empunhada: por aquele que deseja vingança? Ou por aquele que treina e se dedica com amor ao caminho da espada?

Akane e Igarasu – uma obsessão doentia

Akane e Igarasu...

Akane e Igarasu…

Algo que chama a atenção desde o começo [para ir se tornando ainda mais chamativo] é que a história acaba sendo dividida naturalmente entre a narrativa do Akane/Igarasu conforme avançamos no enredo, mas no entanto o foco é claramente no Akane! Se pensarmos bem esse garoto com traços efeminados seria o “vilão” da trama, mas ele mesmo não se importa muito com… nada. Justamente isso instiga certa curiosidade, afinal ele causou a “tragédia” que marcou tanto ele quanto o Igarasu, mas em nenhum momento a gravidade dos seus atos o atinge! Diversas vezes o Akane age por impulso, matando e retalhando por mero capricho pessoal, uma pessoa completamente egocêntrica que se torna até cativante. Mais cativante até do que o próprio “herói” [no caso, o Igarasu].

Essa dualidade é um dos charmes dessa trama, porque normalmente se acompanha a visão do herói desejando acabar com o vilão, mas aqui temos todo o cuidado de observar a situação na maioria das vezes pelo “vilão”; esse fator ajuda a reduzir o possível maniqueísmo que sempre ocorre nessas histórias, pois até mesmo o pior dos vilões têm seus motivos para ter chegado naquele estado ~espiritual~ em que encontra-se. Nesse ponto acho que a obra dialoga bastante com Kikokugai, ambas têm seus heróis/vilões quase caricatos, mas conseguem causar reviravoltas para questionar até que ponto esses papéis são tão perfeitos assim… o que gera algumas questões mais profundas.

O Akane claramente não se importa com nada, seus trejeitos frágeis escondem uma alma perturbada, mas o que causou essa revolução dentro dele? Por que um garoto tão habilidoso teria surtado daquela forma? E percebe-se que a intenção dele foi claramente atingir o Igarasu com tal ato, gerando a tal “questão mais profunda”; o enredo gira em torno disso, dessa perseguição do Igarasu até finalmente encontrar o perpetrador de sua desgraça, mas é possível notar que o Akane está tão ansioso para esse encontro quanto o propriamente dito herói! Essa fixação doentia entre eles reflete-se até mesmo nas espadas que são praticamente lâminas irmãs destinadas a se combaterem. Nesse aspecto o enredo não falha, a história é uma vingança de fato, só que chega em um momento onde é complexo saber quem está se vingando de quem.  

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A história diversas vezes coloca flashbacks de quando ambos eram grandes colegas, para continuar instigando o leitor a querer saber como toda aquela desgraça foi ocorrer. Acho que o ponto mais marcante é que ambos são “vazios”, desprovidos de qualquer vontade ou desejo, só querem acabar um com a vida do outro, nesse quesito a história é impecável; normalmente sempre fico receoso com o possível desenvolver de VNs curtas [justamente por esse fato], mas boa parte da história é feita para fornecer uma base do local em que eles estão e expandir a visão, explicando naturalmente que esses dois amigos fazem parte de um mundo muito maior e assim entramos no outro aspecto fundamental de qualquer obra, a “construção de mundo”.

Essa é uma VN carregada com o famoso “infodump” que ocorre até durante as lutas, pois as técnicas, estilos e a forma como são executadas acabam sendo explicadas durante a sua utilização; mas a bela carga de texto não é só aplicada nas lutas, temos também os motivos sobre o porquê de existir uma “Muralha” rodeando Tóquio e a razão pela qual as pessoas dentro dela só podem utilizar espadas como arma! Aqui nós temos uma ~alteração~ de eventos históricos [envolvendo a Segunda Guerra Mundial/Guerra Fria] para explicar o caótico estado do Japão naquele mundo, acho interessante esse cuidado de explicar a situação em um plano mais geral ao leitor, particularmente não tenho do que reclamar.

Então, em tese, a história se divide em dois pontos: temos a vingança do Igarasu contra o Akane, toda essa busca dele enquanto assassina quem fica em seu caminho, só que com o ponto de vista se dividindo com o do Akane; do outro lado está ocorrendo a “revolução” daqueles que desejam a liberação de Tóquio/um país mais independente, só que a Corporação Takigawa lucra muito com esse estado dominado. Por isso os soldados da revolução executam ataques “terroristas” na tentativa de destruir a Takigawa e finalmente alcançar parte de seu objetivo! Contudo, a história não se foca muito nesse ponto da revolução, ela está ocorrendo em paralelo a narrativa Akane/Igarasu, mas o jogo faz questão de explicar esses pormenores.

Claro que temos os personagens secundários mas eles não chegam a ser de grande destaque no geral, embora tenham sim seus momentos de ápice conforme a história vai se desenvolvendo; a ferreira misteriosa, Itsurin, consegue ser a mais distinta das personagens com seu jeito descontraído, temos também a presidente da Corporação Takigawa, Yumi, que é a amante/namorada do Akane. Além dos guardas que vão surgindo conforme o jogo avança, o mais notável deles é o velho, Yasaka. Existe toda uma guerra de poderes dentro da própria Takigawa mas acho que uma frase peculiar do Akane resume bem esse ponto: “Qual é o problema em ser manipulado? Em ser um peão do jogo? Desde que você esteja satisfeito, o resto não importa.”

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“As pétalas vermelhas florescem e se dispersam, dançando como sakuras sob a prateada luz da lua.”

As batalhas! Ela são formidáveis! Embora existam muitas explicações e termos técnicos, chega a ser emocionante ver o nascimento de um “Maken” [Técnica Demoníaca] durante certos embates; a diligência com a qual Akane/Igarasu treinam não muda em nenhum momento, o respeito para com a espada é algo central [ainda mais em um local onde apenas elas são consideradas/podem ser usadas como armas]. Nesses momentos teremos sempre alguma OST ao fundo, uma delas em especial combina demais com o sentimento que a obra carrega, a música em questão é a Rei do Relâmpago; outra que se torna bastante marcante é a ~quase-música-tema~ do Akane, Prazer do Tirano! Garanto que boas músicas não vão faltar.

De uma forma geral acho até poético o vazio carregado pelo Akane/Igarasu, existe uma personagem bastante misteriosa na história [a Itsurin] que oferece uma certa visão mais esclarecida sobre essa luta/fixação criada entre eles; pois ela diz silenciosamente [um monólogo muito bom, por sinal] que não precisa ver a batalha para saber o resultado, sua decisão é de partir antes que isso se concretize. Coincidentemente ela não julga as ações de nenhum deles, nem do garoto egocêntrico ou do homem que foi desgraçado e se tornou uma carcaça, mas as palavras dela geram certam ambiguidade quando são proferidas.

“A batalha foi decidida muito antes, quando eu mesma criei essas espadas e as entreguei sabia como isso acabaria. Talvez tenha sido algo mais grandioso que o próprio destino, mas no fim não é a habilidade, não é a técnica ou velocidade que vai decidir o embate entre eles; qual será a mais forte? Aquela lâmina empunhada pela vingança? Ou por aquele que trabalhou e treinou o caminho da espada? No fim…” acabando assim a profecia dela.

E para descobrir o que acontece, só lendo!

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O caminho rubro

É sempre um prazer inenarrável encontrar obras como essa, que embora sejam até repetitivas, conseguem criar um estilo bastante próprio. Novamente, espero que desfrutem da narrativa tanto quanto eu realmente me diverti ao longo dos três dias em que a história durou; um conselho que eu digo é para jogarem a VN mais uma vez, é possível encontrar outro final bastante… singular.

Have fun~

Tóquio, o palco do embate.

Tóquio, o palco do embate.

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