Kara no Shoujo – A Morte e a Arte

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Conseguem ouvir a sinfonia? Quase vejo o bater de asas do pássaro azul…

Bem, tá, talvez eu realmente tenha vendido minha alma em troca de Visual Novels! Mas em minha defesa digo que foi uma troca razoável, consegui narrativas incríveis, desenvolvimentos soberbos! Enfim, hoje trago outro review de uma história bem mais obscura [possivelmente a maior delas]… Ela é sobre a garota na casca. Ela é sobre a libertação humana. Você tocou o céu? Conseguiu se livrar das amarras que te prendem com tanta força? Ah, a doce perversão humana…

Vamos, é hora de conhecer a sublime podridão.

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A garota na casca

Toda obra merece uma apresentação digna, nós temos aqui o competente estúdio Innocent Grey criando uma narrativa como poucas conseguem! E tivemos a sorte dessa obra ter sido lançada oficialmente em inglês pela MangaGamer! Bem, desde sua belíssima canção tema aos diversos finais que encontramos no enredo, é tudo tão minuciosamente montado que soa impossível não estar impressionado conforme o quebra-cabeças vai sendo montado; as definições sobre o enredo são diversas, dependendo da sua linha de raciocínio ela pode ser sobre buscar assassinos. Pode ser sobre encontrar a si mesmo. Pode ser sobre a libertação. Pode ser sobre vingança.

A sinopse mais simples possível [e sem spoilers] é dizer que temos o protagonista, Tokisaka Reiji, um detetive bastante respeitado que vive em uma casa abastada; o ano em questão é 1956. Localização? Tóquio. Reiji é um detetive particularmente muito bom em suas deduções, encontrando assassinos, resolvendo mistérios… Mas algo em sua olhar perdeu o brilho, sua intuição tão apurada não evitou a tragédia que levou sua esposa anos atrás; agora seus dias são apenas resolvendo casos sem importância, isso é, até que um assassino com o mesmo modus operandi daquele que matou sua esposa aparece. Estariam os casos conectados? O famigerado “Rokushiki” retornou? Indagações importantes para o que estava por começar.

Badump. Badump. Badump. Badump. Logo na abertura sentimos algo pesado sendo transmitido, uma música que fala sobre os anseios de alguém, do desejo de se libertar prenuncia apenas parte dessa história inacreditável! Ao contrário das VNs comuns onde existem poucas escolhas ou muito específicas, aqui você encarna o detetive precisando investigar a cena do crime, deduzir se os eventos estão relacionados e pesquisar em que ordem certas coisas ocorreram; falando por pura experiência própria, nessa ~brincadeira~ de ser o detetive passei 2 dias inteiros entrando no mesmo bad ending repetidas vezes. Foi estressantemente bom.

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Um recurso narrativo brutal nessa história é mostrar, sem revelar o sexo/identidade/voz, o assassinato ocorrendo do ponto de vista do assassino. Estou falando aqui de decapitações, dilacerações, braços e olhos arrancados enquanto temos o “som” desses atos estão sendo reproduzidos ao mesmo tempo; outro ~motivo especial~ nessas cenas é que acompanhamos os pensamentos desse assassino! Muitas vezes eles sentem prazer nisso, alguns acreditam estar “purificando” essas pessoas, nenhum deles hesita nessa situações e o jogador é agraciado com tudo isso sem corte algum. Parte da essência desse jogo é isso, a perversão humana no auge.

Outra coisa que gostaria de ressaltar é como a narrativa “de alguns momentos” não faz sentido inicialmente, encontraremos trechos onde “a garota” caminha sem rumo em direção ao abismo, em outros observaremos ponto de vista muito diferente do ~normal~; são eventos e acontecimentos extremamente alternativos que aos poucos serão integrados nessa busca pelos assassinos. Em nenhum momento somos poupados de cadáveres e cenas dantescas, o principal atrativo é você se sentir inflamado de ódio pelo o que está acontecendo e aos poucos se aproximar da verdade desses casos!

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E você questiona: “Ok, certo, mas isso ocorre onde?”. Quando não está investigando, o detetive fica vagando pela cidade e é o leitor que decide por onde ele vai caminhar! Além das investigações, essas andanças podem alterar drasticamente o destino dos assassinos através de pequenas nuances que ocorrem apenas nos eventos certos; o principal cenário do jogo é o Colégio Feminino Ouba frequentado pela elite, garotas que normalmente seriam animadas, risonhas e felizes vivem… letargicamente. A primeira estranheza do local é justamente o silêncio que impera nos corredores e na sala de aula, mas os assassinatos estão se espalhando cada vez mais nesse local, será que as alunas vivem assim por saberem de algo proibido? Ou por que alguém está vigiando todas silenciosamente? Garanto que a investigação vai chocar muitos.

Falando um pouco mais do Colégio Ouba, não poderiam faltar as alunas desse local! Não sei dizer se existe uma heroína principal aqui, mas caso alguém precise ocupar esse posto, ela sem dúvidas seria a graciosa Kuchiki Toko; a mesma garota que fará o grande questionamento/pedido desse enredo: “Encontre o meu ‘eu’. Meu verdadeiro ‘eu’.” Além dela temos a falante Tsuzukiro, a rebelde Mizuhara Toko e a gentil irmã do protagonista, Tokisaka Yukari! Diversas outras vão aparecer conforme o enredo evolui, mas esses nomes com certeza serão os mais marcantes.

Além das mocinhas, temos os detetives/policias na trama; o mais engraçado deles é o Shugo Takashiro [que inclusive estrela um spin-off da série bastante elogiado] com sua eterna confusão e afinco para encontrar novas pistas, temos também o policial Kyozo Uozumi amigo de longa data do protagonista. O resto do elenco é igualmente peculiar, mas para evitar spoilers, não vou me adentrar muito no assunto.

T-Toko...

T-Toko…

Algo que me surpreendeu bastante não foram nem essas pequenas mudanças/investigações, mas a forma como o enredo se expande! Inicialmente é apenas uma investigação rotineira, mas aos poucos segredos de famílias importantes vem a tona, o passado do Reiji também revela afetar o ~atual caso~ em que ele está investigando, as reviravoltas são incontáveis. Recomendo fortemente completar os diversos finais que o jogo contém, muitos deles revelam apenas uma parte do que realmente está acontecendo e até mesmo o ~true ending~ torna-se incompleto sem o entendimento dos outros possíveis desfechos! Espero que todos tenham estômago forte principalmente nos bad endings~

Questionamentos filosóficos são base para algumas das melhores partes do desenvolvimento de todos os personagens, a principal delas é o que acontece quando você vive sobre pressão, quando você deseja se libertar. A própria Kuchiki Toko não “sabe quem ela mesma é”, ela luta de modo angustiante para tentar se fixar nesse mundo sem conseguir fazê-lo; encontraremos artistas buscando inspirações de modo inusitado e que certos assassinos carregam um senso artístico… no mínimo apurado. As pessoas vagam em busca de respostas, algumas encontrarão o acalento na podridão humana e esses assassinatos vão revelar a natureza animalesca dos envolvidos.

A Divina Comédia, O Ovo de Neanis, serão obras reais e fictícias muitas vezes que vão indicar as respostas na busca pela verdade; uma lição valiosa que aprendi nesse jogo é que existem coisas muito piores do que a morte, na realidade, ela é até um evento feliz se comparado ao que realmente acontece em… bom, fiquem cientes de que Kara no Shoujo recebeu uma continuação ano passado [5 anos após o lançamento da história original] e de tão complexo que esse enredo acaba se tornando, certas respostas só estão nessa continuação!
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E o pássaro azul…

“Ruri no tori” é a canção tema do jogo que fala sobre o pássaro azul que voa, sobre o desejo insistente dele se libertar da sua gaiola. A Toko é a encarnação desse desejo e muitas outras pessoas compartilham do mesmo objetivo, mas do quem elas querem escapar? De quem nós queremos escapar?

E posso garantir, com muita certeza, que as respostas desses questionamentos serão bastante desagradáveis.

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9 thoughts on “Kara no Shoujo – A Morte e a Arte

  1. Caramba, eu já tinha visto umas imagens grotescas dessa novel, e por isso mesmo tinha medo do que poderia encontrar se jogasse um dia ou pesquisasse mais a fundo. Esse tipo de história me intriga muito, me chama muito a atenção, mas como ainda sou novata nessa coisa de visual novels (só joguei uma ate agora, e terminei só uma das rotas) não sei se me sinto pronta pra tentar ainda. Mas é algo a se considerar ^^’

    Btw, tem outra novel da Innocent Grey chamada Caucasus. Já jogou ou pensou em jogar?

    • Realmente, Kara no Shoujo é uma VN com conteúdo bem mais forte do que o normal, é questão de paciência, leitura de VN é pura prática.

      Eu pesquisei o nome, porque achei interessante e verifiquei que não tem tradução! Hahaha, Kara no Shoujo felizmente foi traduzido [e a continuação vem na onda, porque fez sucesso]. Conheço também “Cartagra” que é uma série “spin-off” de Kara no Shoujo, mas se tiverem outras traduções, vou procurar.

      • Com esse post me convenceu a baixar e jogar a VN Raigho. Mas tô em dúvida quanto aos spin-offs: tenho que jogar eles pra entender algo “a mais” da história ou são só narrativas paralelas que não atrapalham no enredo principal?

      • Entendo. Seria uma boa se algum grupo competente pegasse essa pra traduzir, porque pela sinopse me parece muito boa também. Acredito que o nível de gore não chegue nem perto do de Kara no Shoujo, mas pelo que entendi tem um tanto também. Mas pra mim o que importa é o mistério de qualquer forma XD

        Vi lá no FuwaNovel que o Kara no Shoujo 2 ainda estava sendo traduzido. Quando ele foi lançado?

  2. Pingback: Kara no Shoujo 2 – “Reminiscências” – OtomeGatari

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