Uma conversa (in)formal: clichês e valores morais em animes/mangás

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O papo é o seguinte: você é meu amigo e vou até o fim do mundo te salvar, mesmo que você seja um pirralho fresco e orfão.

Yaho!

Você já assistiu um anime e ficou se perguntando do porquê aquele personagem estar quase na beira da morte lutando pela honra de um amigo? Ou talvez tenha reparado que todo ecchi tem algum menino que só sabe falar do quão boa é a vida colegial no sentido sexual. Ah, e quando um bando de adolescente fica até de madrugada lutando por aí e os pais nem perguntam nada no dia seguinte?

Pois é, eu e o Raigho várias vezes pensamos isoladamente nesses assuntos enquanto solitariamente assistíamos animes e líamos mangás no caminho pra escola/faculdade e derivados. Resolvemos juntar nossas opiniões, um pouquinho do que sabemos da cultura japonesa atual e preparamos esse papo bem leve e solto. Esperamos que curtam aí.

Let ir rip!

Qualé o papo?

Raigho: Você, caro leitor aqui do Otome, talvez… não, com certeza já pensou em algumas semelhanças estranhas entre os diversos animes que já foram lançados: “Por que não temos muitos adultos no enredo? Eles sempre estão viajando, e quando aparecem, são vilões/alguém de grande importância”. Ou quem sabe em um anime ~ecchi~… onde os garotos são todos passivos, mas existe aquela IMPORTÂNCIA GRITANTE de enfatizar “OLHA ESSES PEITOS, VOCÊ TEM QUE GOSTAR DISSO.” Reflexões.

Marcela: “Juventude é isso, cara! O ápice da vida colegial: garotas, garotas, garotas!”… Hormônios exalando por todos os poros. Ou, para um lado pra toda a família, a belissima amizade que quebra até a barreira da morte, em certos casos. Raspar a cabeça, promessas que duram através de gerações e universos paralelos… Enfim. Esses clichês, tão naturais pra gente, por vezes até satirizados em outros animes, afinal, será que eles tão ali só porque deram certo ou tem algo a mais?

Raigho: E esse é o assunto de hoje, no Otomegatari.

*luzes do estúdio de acendem, transmissão para a massa otaka*

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Raigho: Bem, sabe, eu mesmo já pensei nisso um pouco mais profundamente… Digamos, Monogatari [porque né]. O grande diferencial não é só como a obra é narrada, mas pela forma ATIVA como o Araragi se comporta, sempre ~atacando~ as meninas ou agindo conforme o momento! A Gaen mesmo, é uma “adulta” que aparenta carregar o destino nas mãos. Não só ela, mas adultos em geral sempre exalam o papel de vilão/de grande importância. É um grito do Japão em si, sobre a juventude.

Marcela: Cadê os pais dessa garotada toda? Assim, dificilmente você tem adultos adultos MESMO aparecendo. Podem até ser pessoas com seus 25 anos, mas qualé, ainda tão no meio termo. Não é, por exemplo, um protagonista ou personagem de 40 e poucos anos sendo importante. O que você vê é um bando de adolescente correndo por aí e os pais ou já morreram por motivos de vingança/facilitar o enredo, ou são completamente obtusos, ou simplesmente não dão a mínima. Em situações onde não tem “salvar o mundo”, algo mais Gin no Saji/Silver Spoon, o pai é o vilão supremo que trata o filho com a maior rigidez possível.

Raigho: Então, é uma repetição SISTEMÁTICA. É sempre a mesma tecla sendo batida, juventude JUVENTUDE JUVENTUDE… no fim tem lógica. O que é o Japão atual? Uma população feita por idosos e um bando de jovem que não dá uma FODINHA SEQUER [em ambos os sentidos] por relacionamentos/filhos/família. Nada. Zero. O pessoal tá preferindo LITERALMENTE casar com a waifu.

Marcela: Não é mistério pra ninguém que as taxas de natalidade do Japão são baixíssimas e o crescimento vegetativo é quase negativo. Você não precisa de mestrado e nem doutorado pra saber que o Japão é um país cheio de velho que não morre nunca e adolescentes que não fazem questão de se relacionar com o sexo oposto. Foi sempre algo que eu fiquei em conflito: pegamos Chu2Koi, por exemplo, um anime recente – o amiguinho do protagonista lá é doido pra arranjar namorada e o cacete a quatro… Mas isso não reflete na sociedade japonesa atual. Se todos os jovens são caçadores de ppks, por que não tem mais gente nascendo? Bem simples: porque eles não são. Minha teoria é de que eles usam essa motivação justamente no veículo que os mais reclusos usam, AKA animes, pra ver se PELO AMOR, PARA DE COMPRAR DAKIMAKURA E VAI AGARRAR UMA MENINA.

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Raigho: Em um pais que é bastante “frio” em suas demonstrações de afeto, temos a amizade ressaltada mais do que tudo nos enredos alheios. Soa como um valor contrário, onde o Japão está defasado, os animes refletem em dobro! Vamos pegar um Shoujo conhecido, Kimi ni Todoke, foram CAPÍTULOS e mais CAPÍTULOS PARA UM SELINHO. Um. Selinho. Gente. Porra, na boa. Para nós isso é extremamente surreal, mas para quem sabe, os Japoneses que conhecem outros valores, é até mesmo “real”. Ou em outra séries, é quase a mesma repetição onde a garota se apaixona por um cara < conhece outro < triângulo amoroso. É um amor idealizado.

Marcela: Então, pode ter ficado meio confuso do que a gente tá falando, mas basicamente são esses valores japoneses tão valorizados nas suas obras culturais. Aproveitando a deixa que você deu da amizade, acho que não é algo tão afetuoso e sim mais de honra e dignidade. Pra nós, que somos um povo >festivo< (falo isso brincando, mas experimentem ir pra Europa/EUA – o pessoal lá é frio, carrancudo, chega dói), amizade é chegar “FALA FILHO DA PUTA” e um abraço apertado. Entretanto, isso não tira o valor dela: pode não ser algo extravagante, mas é igualmente verdadeiro. Tiro isso pelo Kendo, cara. Praticando Kendo, percebi que é o único esporte até hoje que pratiquei/vi que não tem competição interna. Simplesmente não tem. A galera do treino não busca ser melhor que ninguém, busca se aperfeiçoar. E as pessoas novatas, tipo eu, que são todas lesas e perdidas, eles tem a maior paciência e ajudam todo mundo. São pessoas que nem se conheciam, começaram a praticar juntas e hoje são grandes amigas – aliás, essa mesma receptividade eu recebi, me senti rapidamente incluída. E olha que sou antissocial pra caralho. Pra mim a amizade tem uma abordagem diferente da questão de relacionamento. A amizade da forma que eles tratam nos animes é algo real, intrínseco. Claro, exagerado pra questões de ficção e tudo mais, mas aquela coisa de não abandonar o amigo e todos seguirem juntos… É cultura, cara. É bushido, honra.

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Raigho: Sim sim, como eu disse, o Japão tem toda uma outra cultura E ideia diferentes daquilo que nós vemos como “normal”. AINDA ASSIM, você tem que concordar que esses Ecchis, eles servem para estimular um monte de garoto PASSIVO que só sabe encarar as coisas e ficar observando. Os ~clássicos PORRADA MOAR~ da Jump, por que o sucesso? É notável que tudo é bastante… como eu poderia dizer… “instintivo”? Digo, a intenção é despertar algo, um mundo de emoções e afins. Por exemplo, você pode dizer [olhando mais profundamente] que esses animes, mangás e derivados são um “escapismo” da realidade. Outro bom tema, falando de valores, é família! Gente, não precisa ser nenhum PESQUISADOR incrível… pra saber que família é um valor meio ~na merda~ no Japão.

Marcela: Gin no Saji de novo, cof.

Raigho: Mas é um “cagado” no valor máximo da palavra. É pai/mãe obrigando o filho a seguir determinada coisa de forma extrema, a “rebeldia” na adolescência [que todos nós temos, convenhamos] mas é sentida de forma muito mais acentuada. Os famosos “delinquentes” que sempre aparecem, com os cabelos diferentes, chamativos e andando com gangues.

Marcela: A famosa “vida de assalariado”. Não é atoa que quando família é abordada é uma loucura. E curioso como misturando relacionamentos e família, os japoneses rapidamente avançam no relacionamento ANTES dele começar! Tipo, Nisekoi, o Ichijou fica lá imaginando que a Onodera vai ser uma boa ESPOSA. E vice versa. Pra nós, pensar em casamento quando você gosta de alguém é loucura. Algo recorrente é o garoto/garota levar alguém do sexo oposto em casa e os pais dizerem “oh, futuro(al) esposo(a)”. Dá uma impressão de que as coisas seguem um rumo definido, não tem a famosa inconstância que é tão divertida hoje em dia.

Raigho: Reiterando, é tudo idealizado em níveis… não tem escala. O Governador de Tóquio [ou algum figurão do alto escalão] começou a proibir essas coisas de anime com teor erótico porque, na visão dele, ERA ESSA a causa dos problemas! Gente, ele justificou que os jovens não queriam mais se relacionar, nem sair de casa [os fãs dessas coisas]… por justamente estarem fixos em ~diversões~ desse tipo. Alguém comentou uma vez, que a vida real é uma merda por não ser como em um Eroge. Você tem as flags e só precisa de perseverança, afinal, pela lógica a menina JÁ ESTÁ ACESSÍVEL. Você só precisa executar as ações corretas. Enquanto na vida real envolve uma série de complicações.

Marcela: Mas são dois barcos diferentes. Os eroges não estimulam diretamente a pessoa a se relacionar, na verdade eu encaro mais como material de fap. Agora, animes ecchis vem crescendo muito nos últimos anos. O que não falta é uma história sobre algum garoto completamente comum que é cercado por garotas e ninguém entende o motivo. Parece até que tentam levantar a autoestima dos homens!

Raigho: FAP MATERIAL < INSINUANDO QUE EROGE NÃO É A WAIFU DO AMOR VERDADEIRO < SUA REALISTA INSENSÍVEL.

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Marcela: ATÉ PARECE QUE VOCÊ JOGA EROGE. Plz. Fate Stay Night é mainstream e você sabe disso.

Raigho: EU SÓ ASSISTI SAYA NO UTA, TÁ LEGAL?! E JOGO PHOENIX WRIGHT/Zero Escape. Na verdade, VISUAL NOVEL MESMO, é mais uma leitura.

Marcela: Ae, ae, guarda esse papo pra outro dia. *anotando mais um tópico pra discutir* Enfim, visualizar a presença desses valores transforma até os animes mais banais de moe em algo curioso de ser observado. A arte é a melhor maneira de estudar o comportamento da sociedade na época. Moe ou não, saia voando ou não, é arte.

Raigho: VAMOS SER DEEP agora… Evangelion. Evangelion é a SÍNTESE do Japão. Era e continua sendo, uma família toda destruturada, um garoto passivo que não consegue ENTRAR NA MERDA DO ROBÔ, um MONTE de garotas ao seu redor e desespero. Só que de uma maneira inteligentemente aplicada; exemplo disso é em “End of Evangelion” quando o Shinji se masturba com a Asuka em coma, é quase o Anno gritando “NÃO ERA A SUA WAIFU? VOCÊ NÃO FAZ ISSO??” Além daquela cena, com a sala do cinema sendo exibida.

Marcela: “Bora ver esse filme de desenho aqui, parece ser legal”… Dat cena de masturbação nos primeiros instantes. Verdade, verdade, agora que você diz, Eva reflete bem o que nós falamos. O fato do Shinji ser um completo inútil e ter duas garotas gostosas + uma adulta de vez em quando dando mole pra ele… Okay, tem alguns protagonistas que tem aquele charme heróico, mas o Shinji não tem nada. Sem falar do pai opressivo – percebeu também como o Gendo, mesmo sendo o cuzão que é, tem tudo ao redor dele indicando que está certo? Você pode interpretar como uma personificação da obediência que os filhos devem ter com os pais.

Raigho: Exatamente. Vamos voltar para Monogatari, especificamente Neko (Kuro) [Família Tsubasa], com todo aquele drama, aquela discussão do Araragi mais do que irritado com essa situação! E o Oshino calmo, explicando que se tivesse uma filha perfeita que esfregasse essa perfeição na cara dele… talvez até mesmo ele tomasse essas medidas. De bater na própria filha. E isso enfurece o Araragi, mas o Oshino se coloca como mediador nessa situação. São 2 lados da mesma moeda, já dizia a música “Vocês diz que seus pais não te entendem, mas você também não entende seus pais…” Algo assim.

Marcela: Ou seja, você tem filhos que se frustraram com os pais mostrando o lado deles nos mangás e autores que acreditam nas tradições de respeito e obediência reforçando isso.

Raigho: NIPPON BANZAI SUBARASHII NEE. Mas é intrigante, bem, parece que animes/mangá conseguem retratar a realidade do Japão de forma indireta. No mínimo curioso.

Marcela: Curiosamente também, os mais “especialistas” dizem que animes não ensinam nada da cultura japonesa. Muito pelo contrário, eles ensinam, mas você precisa de uma bagagem cultural anterior pra ligar os pontos. Quero dizer, a intensidade com que a amizade é tratada em animações estadunidenses e europeias é bem menor. Algo singelo. Assim como o romance, já é aquele definido e pronto. Naruto, pelo amor de Madoka! No meio da série todo o foco dos personagens foi pra achar UMA pessoa. UMA! Normalmente, pra nós, é esquecer e pronto. Lá o Naruto passa a vida dele pra encontrar o Sasuke, pelamor.

Raigho: Ah sim, bem, é um tanto lógico que você assistindo “anime” não vá entender TODA A CULTURA do Japão. Isso é óbvio. Alguns animes AINDA MAIS DEEP, como “Mawaru Penguindrum“… você praticamente precisa de um livro de história do Japão/demografia/realidade familiar para entender o contexto, nem a obra, só o contexto dela. E em muitas outras, você realmente precisa entender a situação do Japão em N épocas, para compreender a situação.

Marcela: Nas menos complicadas, você percebe a influência cultural japonesa mais sutil e indireta, como no caso dos ecchis. De qualquer forma, os valores deles regem a sociedade de uma forma muito intensa.

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Raigho: É um assunto que requer mesmo algum estudo e conhecimento, mas achamos interessante mencionar em uma conversa mais informal.

Marcela: E por favor, não nos metralhem se cometemos alguma gafe e pá. São interpretações do assunto com alguns dados reais.

Raigho: Exatamente, como eu disse, CONVERSA. INFORMAL. Foi só a união de conhecimentos e algumas coisas óbvias.

Marcela: Bora finalizar que já vai começar Game of Thrones! Por hoje é só~

Raigho: Até a próxima!

Essa conversa foi tida minutos antes do episódio 8 de Game of Thrones estrear. Depois disso, tudo que temos a seguir são lágrimas.

Descanse em paz, Víbora Vermelha.

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One thought on “Uma conversa (in)formal: clichês e valores morais em animes/mangás

  1. Porra Raigho, etxreme spoiler de Evangelion num comentário seu. Tive que fechar a aba.

    Mas voltei pra ler o restante! Acredito que qualquer mídia de entretenimento é uma forma de escapismo, enviando ou não esses valores/lições de moral. E provavelmente tem um aspecto bastante mercadológico nessas ficções; se o otaku neet deixa de ser neet pra caçar ppks, os autores dessas mídias de entretenimento perdem seu consumidor. E duvido que o cara que caça ppks vai largar as ppks dele pra se “entreter” com outras coisas não-carnais.

    É uma faca de dois gumes isso. Em geral é um assunto interessante porque, qualquer ficção reflete um pouco de como o autor vê o mundo, e consequentemente, a própria sociedade em que ele está inserido, de forma inconsciente.

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