Porque o Irã não está tão longe assim – conheça Persépolis!

persepolis-post-2” Quê? Mas isso não é um mangá! “

Muito bem notado, meu perspicaz leitor. Persépolis NÃO é um mangá. É uma graphic novel. De uma autora iraniana.

” WHAAAAAAAAAAT?! “

Calma lá, calma lá! Todas as explicações virão. Primeiro de tudo, SIM, a autora é uma mulher! Ao contrário do que se pensa sobre o Irã, nem todas as mulheres são absolutamente submissas e vultos pretos encapuzados usando maquiagem caríssima nos olhos (porque só isso dá pra mostrar né).

O Básico

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Ok, vamos lá: Persépolis é uma graphic novel, como havia dito antes. E o que é uma graphic novel, você pergunta? Nem eu sei direito – mas entenda a graphic novel como a versão adolescente de um comic book (quadrinhos, HQs): não quer mais ser tratada como criança, como é um comic book, mas não chegou exatamente lá ainda. Então, ela tenta se mostrar adulta por geralmente ser publicada com papel de alta qualidade, ser em preto e branco (como é no caso de Persépolis), ter todo um tratamento diferenciado na capa (e no preço)… Mas ainda é uma espécie de quadrinho.

O título vem da antiga capital do Império Persa de mesmo nome.

Compliquei muito? Ótimo! Seguimos em frente.

Persepolis_28nov2007Como disse, a autora é uma iraniana, Marjane Satrapi. Apesar da nacionalidade da autora, a obra foi publicada em francês e na França (derp) devido ao fato de que ela >fugiu< do Irã e passou a morar em Paris. Foi publicada em 2000 e conta originalmente com 4 volumes: Persépolis 1, 2, 3 e 4, mas, no Brasil foi publicada a versão compilada de todos os 4  volumes em um só, ” Persépolis Completo “, pela Companhia das Letras.

Agora, ao que realmente se trata…

Persépolis nu, cru e resumido

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Afinal, qual a história? Qual o assunto tão maravilhoso que essa graphic novel deve tratar a ponto de me fazer falar dela, mesmo que esse blog seja voltado para mangás e animes?

Autobiografia.

Sim, Persépolis é uma autobiografia. Sendo clara de uma vez: os quadrinhos contam a história da autora, Marjane, desde seus 9 anos, quando em 1979 viu a Revolução Islâmica acontecer diante de seus olhos. Filha de pais altamente politizados e esquerdistas, desde pequena estava lendo Marx, Lenin e formando uma consciência política cada vez maior. Só que essa consciência política veio lá com suas desvantagens – a falta de controle da sua própria língua e de sua rebeldia a colocavam em constante perigo ao ter que encarar o regime islâmico, além de seu gosto pela cultura ocidental da época, como Michael Jackson, Iron Maiden e Kim Wilde – símbolos do imperialismo capitalista que eram detonados pelos extremistas islâmicos.

A autobiografia conta sua infância, a adolescência conturbada (muitas muitas muitas drogas) e vai até sua jovem vida adulta, finalizando aos 25 anos de Marji (apelido carinhoso desde a infância). Isso tudo no contexto de Revolução e da Guerra Irã-Iraque. Além de um entretenimento, uma verdadeira aula de história e geografia mundial. Para aqueles que, como eu, são jovens e infelizmente vestibulandos, podem tomar a autobiografia até como um ” a mais ” nesse tópico de conflitos, já que temos uma visão muito diferente de todo processo.

Antes de tudo, a arte

Persepolis3 (1)

Persépolis tem um traço bem simples. Não é uma arte rica em detalhes e, se me permitem a comparação, até lembra a simplicidade de Scott Pilgrim, também uma série de graphic novels.

Como é tudo preto e branco, tem bastante jogo de luz e sombras muito bem executados pela autora, responsável tanto pelo roteiro quanto pela arte. Inicialmente o traço ainda é meio instável, com os personagens mudando um pouco a cada quadrinho, o que dá até o ar de amadorismo, apesar da autora ser formada em Belas Artes por uma universidade de Teerã (capital do Irã).

Mas tem alguns detalhes da arte, da sua simplicidade, que dão um toque especial na história – o fato de tudo ser preto e branco lembra o extremismo dos ditadores islâmicos – não há meio termo, ou há os que são extremamente contra ou os que são totalmente a favor. Além disso, os personagens se parecem muito – preguiça ou não, faz uma referência a falta de individualidade do povo do Irã naquela época (e até hoje em dia), onde tudo era considerado ser uma arma do imperialismo para tentar corromper a cultura e a religião.

Há muito a ser interpretado na arte e no traço de Persépolis. A simplicidade talvez seja só um disfarce e uma máscara para tantas mensagens que a autora queira passar. Ou é preguiça e eu estou empolgada demais.

Véus, rebeldia e Nike

photoA obra não é só uma autobiografia tentando comprar o leitor com um draminha de guerra – há dois fatores muito importantes que tornam ela um diamante entre pedras sujas.

O primeiro, todo o aspecto cultural que nos é apresentado. Aprendemos bastante sobre o Irã e a cultura islâmica – mais do que nós é mostrado pela mídia. Enxergamos além de todas as bombas e explosões que nos são apresentadas. Nos mostram o outro lado das situações, além do lado estadunidense. Situações absurdas e que nos levam a pensar que ser em sã consciência consegue aceitar aquilo como uma ideologia a ser seguida.

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Alguns pontos em especial me fizeram refletir a respeito de toda vida que nós brasileiros levamos. Tá certo que teve a Ditadura Militar, panz a pá. Pessoal cantando e jogando panfletos pra cima e pra baixo. Mas e agora? Podemos mesmo continuar reclamando? Mesmo que tenha toda a corrupção, o fato do Sarney tá lá (ou já mudou?) e discurso de sempre dos ” engajados ” politicamente, nossas reclamações tem fundamento? E mesmo assim, tudo o que fazemos é reclamar. Não há movimentações suficientes quanto a isso – e não sofremos nem metade da repressão que os iranianos sofreram//sofrem. Estamos muito cômodos porque, mesmo que o preço do tomate aumente, ele ainda vai estar lá e provavelmente você vai poder comprar. NÃO querendo ser um daqueles metidos a socialista chatos e irritantes que adoram discursar sobre o quanto precisamos nos reunir e lutar. Ninguém suporta socialistas moderninhos – são iguais a galera da ATEA.

Ao ler Persépolis eu criei um pouco de… consciência internacional, dá pra chamar assim. Saber que nós não somos únicos no mundo porque, apesar de todo avanço nas comunicações, parece que estamos tanto alheios quanto antes, apesar de saber de quase tudo que acontece no mundo em tempo real. Ao mesmo tempo que sabemos, deixamos de saber – ignoramos. É engraçado o quão… Qual a palavra em português pra self-centered? Bem, seja lá qual for, essa que quero usar. Bem, é engraçado o quão self-centered conseguimos ser em um mundo tão conectado.

Certo… estou parecendo aquele amigo chato que assiste jornal todo dia e finge entender de política e fica criticando e falando que todo político é um merda. Sigh.

080203_persepolis03

Segundo ponto, é um pouco mais pessoal e foge de toda temática de guerra e revolução. Na verdade, são as mensagens mais íntimas que a Marji passa através de suas experiências. Não quero dar spoiler, mas posso dizer que sua adolescência foi bem conturbada. E não são lições e mensagens somente para os que passam por essa fase, mas outras que se aplicam igualmente a um adulto.

Vários questionamentos são feitos a respeito de integridade e dignidade. O quanto devemos sacrificar para ser aceito pelos outros? A dependência que criamos de algumas pessoas e o quão perigoso isso pode ser. Basicamente, ela nos mostra seu crescimento pessoal e as experiências que levaram a tudo isso. De uma maneira simples, Marjane ensina sem querer ensinar.

E no final das contas

Titulo: PersepolisNo final das contas, é uma viagem maravilhosa.

No final das contas, você passa a valorizar coisas simples e pensar mais nas reclamações que fazia antes, que passam a parecer cada vez mais fúteis.

Com um excelente desenvolvimento e uma arte simples mas que esconde muitos segredos, Persépolis é algo que todos nós que apreciamos um bom quadrinho ou uma boa história deve experimentar. Mistura muito bem a comédia e o drama, emocionando qualquer um que leia, seja alegrando com suas piadinhas sagazes e tiradas irônicas ou com dramas que nos atingem muito bem, mesmo que parece algo tão distante da nossa realidade.

Acho que a palavra chave para isso tudo é… Conscientização. Consciência de que não somos tão únicos e especiais assim, consciências de que o mundo ao nosso redor é muito maior do que imaginamos e há muitas coisas que desconhecemos e, para poder falar sobre tudo e mais um pouco, devemos conhecer. Consciência também de que somos privilegiados – extremamente privilegiados. Uma leitura que abre nossa mente e aumenta muito mais nosso campo de visão a respeito de… quase tudo.

Abre caminho para muitos questionamentos. Após a leitura, você não vai encarar sua rotina como antes. Principalmente o leitor brasileiro, muito cômodo com sua situação e que se contenta com alguns RT’s e algumas reclamações no twitter, passa a se questionar sobre sua vida. Eu não diria que seja apenas sobre as questões de liberdade, mas sobre ação. Agir. Marjane durante toda viagem é uma jovem que age, que fala, mesmo sobre dura repressão. Seja por algum ato simples, como um batom uma simples sombra clara no olho, ela não teme lutar pelo que acredita.

E você, luta pelo que acredita? Teria coragem para ir contra qualquer repressão que for, e ir até o final com seus ideais? Ou prefere comodidade à liberdade?

Para os preguiçosos, Persépolis também tem um filme animado que saiu em 2007, premiado no festival de Cannes. Só caçar no google que você pode achar ele dublado em francês ou inglês. Ah, por falar nisso, a maioria das imagens desse post são prints do filme.

 

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3 thoughts on “Porque o Irã não está tão longe assim – conheça Persépolis!

  1. Essa questão de “conscientização internacional” que a pessoa passa mais pro final da adolescência é muito legal, acho que eu senti algo parecido com o que tu sentiste quando eu comecei a fazer cursinho no centro da minha cidade – via todos os dias pessoas que moravam na rua, q pela manha eram tiradas de suas ‘caixas’ com mangueiras e que simplesmente não tinham nada para comer só ‘sobreviviam’ a mais um dia. Não que com isso a pessoa acabe querendo criar uma revolução e destruir com a sociedade, mas é interessante ter noção de que não estamos sozinhos e temos de dar valor para algumas coisas que consideramos normais de qualquer um. Nem precisa ir no Irã para ver gente vivendo na merda, no Brasil tem bastante =\

    Parece uma graphic novel legal pois possui uma visão feminina ao filme/livro O Caçador de Pipas, que é a visão masculina desse extremismo árabe (diferença que é no Afeganistão e não no Irã, mas imagino realidade semelhantes), Imagino que ver as duas obras seria uma boa complementação.

    Cya

    • Sim, não é preciso ir muito longe – mas as vezes é preciso ver algo muito mais extremo pra adquirir essa consciência. E também criar a coragem de não desviar o olhar desses problemas. É muito fácil andar na rua e ignorar moradores de rua, muito mais fácil do que pensar em algo pra se fazer ou fazê-lo.

  2. Realmente o Brasil não é o país mais consciente do mundo, e isso não é culpa do governo, é culpa da própria pessoa, vejo pessoas que reclamam da prefeitura e de que os políticos estão roubando o nosso dinheiro mas se esquecem que eles não invadiram o local, estão ali porque porque votaram neles, concluindo não tem consciência (que eu chamo de maturidade), sem contar que a maioria dos Brasileiros julgam demais sem saber de nada…
    Essa semana ainda eu estava andando com os meus amigos e um senhor com as roupas sujas chamou por nós na rua, dois dos meus amigos saíram de perto e só ficaram eu e um outro amigo, ele perguntou se tinha uma folha de papel, eu dei uma que estava na minha mochila…ele agradeceu e apertou a minha mão, sua mão tinha muitos e muitos calos, eu não sabia se ele era ou não um usuário de drogas, mais ele não representava perigo algum, ele meio que me abraçou e disse pra eu ter um bom dia. Esse senhor tinha muito mais vida do que muitos outros bem vestidos que costumamos ver…
    Os dois que saíram me perguntaram depois se eu não tinha medo do cara “ser um assassino” ou “um ladrão” ,porra! só porque tava mal vestido?! e era pobre?!
    Simplesmente disse que não…não fui capaz de “lutar pelo que eu pensava” eu definitivamente não fui um exemplo…
    Seu post foi muito interessante porque fez com que eu repensasse meus atos, e perceber que sempre temos que acreditar no que pensamos sejam sonhos, ou sejam atos. Não sei se você já leu ou ouviu falar de um mangá chamado “Gen pés descalços” eu nunca li mais pelo que falam você pode gostar, tem essa temática de repensar seus atos, dizem que é muito bom .

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